segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Styxx - 1º Excerto



14 de Maio de 2012

Acheron passava as mãos pelo cabelo loiro do seu filho Sebastos enquanto este dormita no seu peito. Não havia nada que o  acalmasse mais no mundo, e quanto maior Bas ficava, cada vez menos Ash conseguis entender como é que a sua família pode virar-lhe as costas daquela maneira. Ele preferia perder um braça do que bater no seu filho. Quanto mais ignorá-lo.
E as outras atrocidades cometidas contra ele...
Nunca. Ele nunca seria capaz de submeter o seu pior inimigo aos horrores que o forçaram a viver.
Fechando os olhos, Ash conseguia ouvir Tory a queixar-se em grego enquanto ela corrigia os trabalhos no cadeirão verde à sua frente.
"Tenho a certeza que eles prestam atenção às aulas, amor."
"A sério?" Ela encarou-o com uma expressão irritada . "Porque eu nunca soube que o Thebes ficava na Jugoslávia."
Ele encolheu-se com esse erro. "Ouch."
"Sim, ouch. Eu nem ensino esse assunto! E sabias que um dos heróis em "Sete contra Tebas" chamava-se.. não Parthenopaeus como o último nome do professor que ensina esta cadeira... oh não, não. Pathenon era o seu nome. Parthenon... Pensei que essa fosse dada, Como é que alguém pode errar esta pergunta quando a Dr. Soteria Parthenopaeus é a tua professora? A sério!?" Ela escrevinhou uma nota no trabalho. "Um grande F para ti, meu querido." Ela fez uma careta, e então apagou a nota. "Está bem, um D... Não C. Não consigo chumbar um aluno."
Ash riu-se da generosidade dela que o tinha salvo do inferno que a sua vida tinha sido. "Não sei, akribos. Esta parece estar a pedir de joelhos que a chumbes."
"E é por isso que não te peço ajuda a corrigir os trabalhos. Tu chumbavas toda a gente."
Ash beijou a cabeça do seu filho. "Eu não chumbava o Bas."
"Ele tem só um ano. Mesmo com os seus super genes, ele só vai ter esta aula daqui a dez anos."
"Ainda planeias que ele acabe a universidade aos 12 anos, han?"
"Sim. Com um nome como Sebastos Eudorus Parthenopaeus ele não precisa de ficar no liceu durante muito tempo."
Ash riu-se novamente. Ela tinha um motivo válido, mesmo assim Bas vinha equipado com o seu próprio demónio como guarda costas e um pai que era um deus. "Não acho que ele vai ter problemas com bullies."
Pelo menos não por muito tempo...
Sorrindo, Tory levantou o telemóvel da mesa e bufou.
"Eram a Pam e a Kim a mandarem mais fotos de cachorrinhos?"
Ela abanou a cabeça. "O teu irmão tem um sentido de humor bizarro."
O corpo congelou com a menção de Styxx. Ash franziu a sobrancelha como se todo o sentido de humor tivesse-lhe sido sugado. "Estás a falar de quê?"
"Eu pedi-lhe o endereço de email e isto foi o que ele me responder." Ela mostrou-lhe o ecrã do telemóvel.

Styxx Anaxkolasi
Rua Phlegethon 13
Tartarus, Hades 88888

Sorrindo levemente independentemente de aquilo o irritar solenemente, Acheron revirou os olhos. "Eu aprecio especialmente o sobrenome."
"Sim, o rei do inferno. Pensei que irias. E adorei que o código postal seja a infelicidade repetida. Oh e o 13 para Hades e o seu rio de fogo. Até o Senhor das Trevas acharia isso hilário. Achas que devo encaminhá-lo para a Persephone?"
Lutando contra a súbita raiva que sentia, Ash acariciou a cabeça de Bas. "Claro, porque não?"
Tory encarou a expressão traduzida pela cara de Ash. "O que se passa? Pensei que acharias engraçado."
Os olhos cinzentos mostravam um profundo tormento que ela não queria sondar. "Estou apenas curioso porque é que lhe pediste isso."
Ela mal tinha palavras. "Diz-me que não estás ciumento."
Ele desceu o olhar para Bas e não voltou a olhá-la.
"Acheron..." ela reprendeu-o "A sério?"
Desta vez, quando os seus olhares se encontraram a raiva e a aversão que ele mostrava nos seus olhos cinzentos fizeram-na recuar.
"Nós temos uma história complicada, Sota. E não fazes ideia o quão complicada é. Apenas sabes pequenos glimpses e momentos. Escusado será dizer, quero que te afastes dele... Onze mil anos depois, as pequenas vinganças ainda me fazem querer esvaiá-lo em sangue. É por isso que não o quis perto. Adorava dá-lo uma oportunidade, queria mesmo, e mesmo assim não consigo. Vocês são demasiado importantes para arriscar a vossa segurança numa hipótese."
O coração dela comprimiu-se com a agonia que ele tentava tão desesperadamente esconder. Mais ninguém o captaria na sua voz, mas ela conseguia. Ela estava bem consciente de cada nuance de emoção que o seu marido mostrava.
Como Ash sempre se recusava a falar com ou sobre o irmão, mesmo que estivessem relativamente perto, ela imaginava que o passado deles seria brutal. Mas contactar Styxx tinha sido algo tão inocente que ela não tinha parado para reflectir o quanto o iria incomodar, especialmente porque Styxx tinha sido generoso o suficiente para salvá-la, sem nunca pedir nada em troca e sem nunca os incomodar. "Sinto muito, Achimou. Não queria magoar-te. Queria apenas agradecer-lhe."
Os olhos dele tornaram-se vermelhos, deixando-a perceber que ele estava furioso: "Obrigada pelo quê? Por tornar a minha vida miserável?"
Ela engoliu a seco reconsiderando que deveria mostrar-lhe o presente de aniversário que Styxx mandou a Sebastos. Iria irritá-lo ainda mais? Se bem que a suspeita que Ash tinha sobre o porquê de ter mandado um email ao seu irmão não iria desaparecer.
É melhor cortar o mal pela raíz. Deixar à imaginação era bem mais destrutivo do que a verdade.
Voltou a pôr o telemóvel na mesa, ela foi ao quarto de Bas, e trouxe consigo uma caixa antiga. Gentilmente, pegou no bebé e deu-lhe a caixa. "Ele mandou-a para o meu escritório no dia de anos do Bas. Não havia nenhum remetente. Só uma pequena nota a desejar-lhe um feliz aniversário. Nem sequer estava assinado."
"Então como sabias que era do Styxx?"
"Abre."
Ash não tinha a certeza do que esperar. Uma cabeça decepada... uma estátua com um gesto obsceno... uma cobra. Ele não fazia a mínima ideia mas quando afastou o papel e encontrou um pequeno cavalo de madeira esculpido à mão, o seu coração parou.
Não. Podia ser...
Apanhado de surpresa, pegou-o e virou-o ao contrário. Encravado em baixo, em grego antigo estavam as palavras:

Para Acheron
De Ryssa.
Com muito amor.

Lágrimas enevoaram a sua visão quando pensava na sua amada irmã a dar-lhe este presente no seu quinto aniversário. Ficou tão animado... E Styxx ofereceu-lhe um soldado a condizer que o pai deles tinha queimado num ataque de raiva. Foi esse momento que levou Ash a pedir a Styxx que guardasse o cavalo pois no quarto de Styxx, ao contrário do dele, era seguro. 
Tory sorriu enquanto tocava no cavalo. "Achei que só poderia ser do Styxx. Quem mais teria isto?"
Ash teve de controlar-se para não partir o cavalo a meio assim que a voz zangada de Styxx a insultá-lo voltou a assombrar os seus pensamentos. "O maldito está a fazer pouco de mim."
Tory repreendeu-o. "Como assim?"
"Porque motivo ele me mandaria isto se não para me magoar?" De toda a gente, Styxx tinha de saber quão vivas aquelas memória estavam dentro dele.
"Não sei, Ash. Talvez ele o tenha mandado porque achava que o querias dar ao teu filho. Ele sabe o quanto amas a Ryssa e talvez achou que querias ter o presente que ela te deu.
Ainda inseguro, Ash devolveu o cavalo à caixa. "Tu tens uma grande consideração por ele."
"Talvez. E talvez não tenhas o suficiente."
Ter a sua mulher a defender o maldito que o matou ... Uma boa acção que o Styxx foi forçado a fazer não compensava anos e anos de abuso que tinha sofrido às mãos de Styxx. "Nunca o defendas" "Ele nasceu um egoísta maldito e ele continua a ser um até hoje."
Ela ergueu as mãos e rendeu-se. "Tudo bem. Eu perco o email e bloqueio a conta. Não que ele a vá usar. Como podes ver, a resposta dele foi algo sucinta e... obviamente ele não quer mesmo contactar-me."
"Obrigado."
Tory inclinou a cabeça e começou a sair. Ainda assim, não conseguiu resistir a adicionar um última coisa. "Eu prometo nunca mais voltar a falar sobre isto mas tenho de perguntar... Porque é que ele guardaria isto tão bem por quase onze mil anos se ele te odeia tanto e é tão egoísta como dizes? Parece acabado de fazer, e de toda a gente eu sei como é difícil conservar coisas muito antigas, nestas condições, durante todo este tempo. Isto não me parece um trabalho de ódio Acheron mas sim um de amor.


Sem comentários:

Enviar um comentário