quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Conto Shadow Of The Moon ( A Sombra da Lua)




 Conto Shadow Of The Moon ( A Sombra da Lua)
 Capa EUA ( esq.) e capa Brasileira ( dir.)

Por Sherrilyn Kenyon





Perfil do Fury

Ano de nascimento: Como se importasse a alguém.
Lugar de nascimento: Essex, Inglaterra
Lugar no qual se encontra atualmente: Nova Orleans
Altura: 1,96 m
Peso: 90 quilogramas
O que é que mais o excita: Uma mulher que esteja comendo puré de batata
Lema: Nunca vires as costas a um lobo, a menos que queiras que te morda
Comida favorita: Puré de batatas
Canção favorita: Sacrifice, dos Theory of a Deadman
Maior debilidade: Não se entende com a família
Passatempos: Caçar e matar tudo o que incomoda





Fury é fruto de uma mulher e de um homem que se odeiam profundamente. Ela, arcadiana; ele, katagaria. Foi criado pela sua mãe, pois ela acreditava que Fury seria o precioso filho Aristos – a sua furiosa vingança contra os katagaria que tão brutalmente a trataram a ela e ao seu clã. Entretanto, quando Fury alcançou a puberdade e obteve seus poderes como Predador do Homem, em vez de um arcadiano, transformou-se num katagaria – algo que tentou ocultar a todo o custo... até que foi traído pelo seu irmão e pela sua melhor amiga, então, toda a sua família o tentou matar.
Mas Fury sempre foi um sobrevivente. Letal, imprevisível e feroz. Desde que abandonou Inglaterra, e encontrou o pessoal do seu pai, juntou-se a eles e foi muito mais cauteloso, sem contar a ninguém qual era sua verdadeira descendência. Mas quando seus irmãos Fang e Vane souberam dele, adotaram-no. Agora, está ao comando da gente de seu pai. Mas a liderança sempre tem um preço e implica ter uns quantos inimigos letais que não se deterão até assassiná-lo.
E agora essa guerra chegou até a soleira de sua porta e é uma ameaça não só para os seus, mas também para o Santuário, e a única maneira que Fury tem de salvar o seu povo é confiando na mulher que uma vez o traiu.
Angelia dedicou toda sua vida a fazer-se cada vez mais forte. E agora, com a sua gente no ponto de mira, tem que se proteger e aos seus de Fury e do seu clã. Determinada a levá-lo à justiça, empreende uma missão... até que o caçador termina sendo caçado, e a única forma que terá de sobreviver será confiando no lobo que precisamente jurou matar.




Capítulo 1 

"Nova Orleães

Fury Kattalakis estava quase a entrar na toca do dragão. Bem, não exatamente. Havia um dragão no átrio do edifício em que ele estava a entrar, mas aquele dragão não era, nem de perto, tão perigoso para Fury como o urso que estava a guardar a porta.
Aquele nojento filho da puta odiava-o.
Não que ele se importasse. A maioria das pessoas e animais odiavam-no, o que não o incomodava minimamente. Ele, de qualquer maneira, não tinha grande utilidade no mundo.
«As coisas que se fazem pela família», Fury disse com um suspiro. Apesar de, para ser honesto, todo o conceito de família ainda ser novo para ele. Ele estava habituado a ser lixado por toda a gente à sua volta. Pelo menos até o seu irmão Vane o acolher durante o Verão de 2004 e se aperceber que nem toda a gente no universo o queria matar.
No entanto, o urso ainda o queria ver morto…
Dev Peltier ficou tenso assim que viu Fury sair das sombras perto da porta do Santuário – um bar de motociclistas duros e um clube de dança que estava situado no número 688 Ursulines.
Como se aquela morada não tivesse sido escolhida intencionalmente pelo clã que era dono do edifício. A ironia estava em tudo o que faziam.
Vestido com a T-shirt e calças pretas do staff do Santuário, o urso estava na forma humana, com longos cabelos louros encaracolados, botas pretas de motoqueiro, e um par de olhos aguçados, a que não escapavam nenhum detalhe ou fraqueza, não que Fury tivesse alguma. Mas apesar da aparência humana, para todos os licantropos como Fury, a forma alternativa de Dev era como um farol vibrante a avisar todos os tipos de seres do outro mundo da sua ferocidade.
Mais uma vez, também Fury assim era. O que lhe faltava em habilidades magicas, compensava em força bruta…
E montes de atitude e raiva.
Nunca ninguém se ficou a rir dele. Nunca.
«O que estás a fazer aqui?» Rosnou Dev.
Fury encolheu os ombros com indiferença e decidiu que uma luta agora não o colocaria dentro do bar – que foi o que ele prometeu fazer. Ele….a cumprir uma promessa para alguém que não ele próprio….pois. Sim. E o inferno está a congelar. Ele ainda não sabia como é que o seu irmão Fang o havia convencido a entrar nesta missão suicida.
O bastardo merecia-o.
Grande momento.
«Paz, irmão». Fury levantou as mãos em jeito de rendição. «Só estou aqui para ver o Sasha.»
Dev arreganhou os dentes ameaçadoramente enquanto lhe deitava um olhar glacial que normalmente Fury teria levado como um insulto. Raios, o seu irmão Vane estava a amolecê-lo. «Os membros do clã Kattalakis não são bem-vindos aqui e tu sabes disso.»
Fury arqueou uma sobrancelha enquanto olhava por cima da cabeça de Dev para o letreiro azul elétrico e castanho, com uma moto em cima de uma colina sombreada por uma lua cheia. Proclamava também o Santuário como a casa dos Howlers, a banda da casa.
Para os poucos observadores, parecia-se com qualquer outro letreiro de um clube. Mas para os que nasceram amaldiçoados, como eles, as sombras da lua formavam o contorno de um dragão a levantar voo – um símbolo escondido para os seres sobrenaturais do mundo inteiro.
Este clube não se chama apenas Santuário, ele é um. E todas as entidades paranormais estão autorizadas a entrar, com garantias de que ninguém lhes fará mal. Pelo menos enquanto obedecerem à primeira regra de ouro: Não derramar sangue.
Fury respondeu a Dev. «Tu sabes as leis da nossa gente. Não podes escolher quem entra. Todos são bem-vindos.»
«Vai-te foder», rosnou Dev.
Fury balançou a cabeça enquanto reprimia a natural resposta cáustica que tinha em mente. Em vez disso, decidiu usar um sarcasmo mordaz. «Obrigada pela oferta, até tens umas certas qualidades femininas no comportamento e na notável cabeleira que qualquer mulher invejaria, mas és demasiado peludo para o meu gosto. Sem ofensa.»
Dev curvou o lábio. «Desde quando é que um cão se preocupa com quem come?»
Fury respirou profundamente. «Eu podia descer tão baixo que até mesmo a sargeta teria inveja de nós, mas…..eu sei o que estás a tentar fazer. Estás a tentar provocar uma briga comigo para que possas expulsar-me legalmente.»
Ele cerrou os punhos, e fingiu lutar como gostaria de fazer e como tinha prometido fazer. «Eu queria, queria muito dar-te esse prazer, mas eu vim para falar com o Sasha e não posso adiar. Desculpa. Temos de adiar e lutar mais tarde.»
Dev rosnou ameaçadoramente, um som de urso puro. «Estás a pisar gelo muito fino, lobo.»
Fury estreitou o seu olhar esgazeado de lobo. Quando falou, a sua voz era baixa e feroz, e cheia de promessas do que esperava Dev se quisesse continuar este jogo. «Cala-te, desaparece, e deixa-me entrar.»
Dev deu um passo na sua direção.
Mais depressa do que a expectativa do soco que Dev estava prestes a dar-lhe, Colt estava lá. Uma cabeça mais alta que eles, Colt tinha cabelo preto azeviche, curto e espetado e olhos letais. Ele colocou uma enorme mão tatuada no peito de Dev e afastou-o.
«Não faças isso. Dev.» disse Colt numa voz baixa e calma. «Ele não vale a pena.»
Fury deveria sentir-se insultado, mas a verdade nunca o incomodou.
«Ele tem razão. Eu sou um bastardo sem valor, filho de um filho da puta ainda mais inútil que eu. Definitivamente não querem perder o vosso estatuto no Santuário por causa de pessoas como eu.»
Dev afastou Colt, e o movimento levantou as mangas da t-shirt, expondo uma tatuagem com um arco duplo e uma seta no seu braço. «Como queiras. Mas estamos de olho em ti, lobo».
Fury saudou-os com o dedo médio apontado para cima. «Então vou tentar não mijar no chão nem estragar a mobília…» Ele olhou para baixo, para as botas pretas cravejadas de prata. «A tua perna, porém, pode ser outra história.»
Dev rosnou outra vez, enquanto Colt ria e o retinha.
Colt indicou a porta com um jeito do queixo. «Mete o traseiro lá dentro, Fury, antes que eu decida servir-te como alimento.»
«Eu realmente não valho a indigestão.» Com uma piscadela antagónica a Dev, Fury passou por eles para entrar no bar, onde a música estava alta e a bombar, algo que fez o lobo nele encolher-se em protesto pela agressão à sua sensível audição.
Uma vez que Colt era um dos Howlers, ainda não estavam no palco. Mas já estava uma considerável multidão a aguardar. Turistas e frequentadores regulares estavam a dançar e a saltar no primeiro dos três andares do bar. Sem dúvida que o segundo andar também estava apinhado. O terceiro andar, pelo contrário, estava reservado apenas para os da sua espécie.
Fury colocou as mãos nos bolsos de trás e moveu-se por entre a multidão. Era fácil identificar os motoqueiros dos outros, uma vez que muitos deles eram da velha guarda, cobertos de couro. Os mais novos, acotovelavam-se, usando desde fatos de nylon ou roupas Aerostich como a sua, até turistas e universitárias que vestiam de tudo, desde mini-saias até calças caqui ou jeans.
Enquanto Fury ia passando pelas mesas onde os clientes se sentavam e comiam, ele fixou o olhar numa bela empregada loura, que por acaso, era a irmã do cretino lá fora.
Aimee Peltier.
Tal como Dev, o seu longo cabelo era louro, e era tão alta como magra.Elegante.
Em tudo muito atraente, exceto no facto de que, quando ela se deita na cama à noite, se transforma numa ursa. Ele estremeceu com o pensamento. Os gostos do seu irmão para mulheres deixam muito a desejar.
Aimee congelou no momento em que o viu.
Ele, subtilmente, indicou o bar com os olhos, para lhe dar a entender que tinha uma mensagem para ela. Ela era a verdadeira razão de estar ali, mas se um dos seus muitos irmãos descobrisse, estavam os dois mortos.
Por isso ele continuou o seu caminho para o bar, onde três empregados estavam a fazer bebidas. Como Dev fazia parte de um conjunto de quatro gémeos, Fury sentiu como se estivesse a ver a duplicar, enquanto outro urso se dirigia a ele. A única coisa que o fazia distinguir Dev dos outros três gémeos idênticos era a tatuagem no seu braço. Com os outros três, bem, ele não fazia ideia como raios havia de distingui-los.
O gémeo estreitou o olhar ameaçadoramente. «O que queres, lobo?»
Indiferente, Fury sentou-se. «Diz ao Sasha que preciso de vê-lo.»
«E porque precisas de vê-lo?»
Fury deitou-lhe um olhar divertido. «Assunto de lobo, e a ultima vez que cheirei, o que estou arduamente a tentar não fazer, porque o fedor dos vossos traseiros é tão mau para o meu hipersensível olfato, tu és um urso. Mexe esse rabo e trá-lo até mim.»
«Tu tens de irritar toda a gente que conheces?» Aquela voz suave desceu pela sua espinha como uma carícia.
Ele virou-se para encontrar Marguarite Neely parada atrás dele. Pequena e humana, Margery tinha um dos melhores traseiros que ele tinha visto numa mulher. Mas havia um problema. Ela era humana, e ele tinha uma relação difícil com essa raça, com qualquer raça, já agora. As capacidades sociais não eram o seu forte. Como Margery havia dito, ele tinha tendência para irritar qualquer um, burro o suficiente para se aproximar dele. Mesmo quando ele não pretendia.
«É um hábito congénito, que me convém a maior parte das vezes.»
Rindo, ela agarrou uma cerveja e deu-lha.
Fury abanou a cabeça, recusando a oferta. Aquilo nas suas papilas gustativas…nojento. Ele franziu a testa. «Estou surpreso de te ver aqui em baixo.» Ela era a enfermeira dos Peltier, e normalmente só a via quando estava ferido e precisava de cuidados. Em regra, ela evitava a área do bar e permanecia no hospital clandestino anexo ao bar.
Ela bebeu um gole da cerveja. «Sim, mas está lá um péssimo ambiente, tive que vir beber alguma coisa para acalmar os nervos.»
Como nunca a tinha visto beber, ficou intrigado. «Que mau ambiente?»
Sacha juntou-se a eles e respondeu por ela. «Está um Litarium no escritório do Carson.»
Fury franziu o sobrolho para Sasha, cujo rosto estava pálido. Se não o conhecesse tão bem, pensaria que o lobo estava amedrontado. «Sim, e depois? A maioria dos dias há sempre merda naquele escritório.» Carson era o médico residente e veterinário a que todos os Caçadores do Homem de Nova Orleães recorriam quando necessitavam de cuidados médicos.
O facto de ele ter um leão no hospital, não deveria causar sequer um levantar de sobrancelha.
Margery abanou a cabeça para ele. «Não é bem assim Fury. Ele não consegue voltar à forma humana nem usar a magia.»
Isso era algo chocante. «O que disseste?»
«Os Arcadianos atingiram-no com qualquer coisa», disse ela num tom de voz baixo, como se tivesse medo que alguém a ouvisse. «Não sabemos o quê. Mas drenou os poderes instantaneamente. Ele não consegue sequer projetar os seus pensamentos à companheira.»
Fury não conseguia respirar ao imaginar essa possibilidade. Apesar da sua forma base e primária ser a de lobo e de não possuir grandes poderes mágicos, ele não conseguia imaginar como seria viver sempre na forma animal. «E tens a certeza de que ele não é um leão normal?» Era uma pergunta estúpida, mas que tinha de esclarecer.
Ambos lhe fizeram um olhar “duh”.
Fury levantou as mãos em rendição. «Só estava a confirmar. Vocês podiam ter um aneurisma ou qualquer coisa assim.»
Margery, deu um valente trago na sua cerveja. «Tem sido um mau dia.»
«Sim», Sasha concordou, tirando-lhe a garrafa de cerveja e imitando-lhe o gesto. «Estamos todos muito agitados com isto. Imagina estares na tua vidinha, aparecer um raio vindo do nada, e lixar-te os miolos com algo que tu não consegues identificar e por causa disso, perderes-te para sempre.»
Fury inspirou profundamente. «Já vi esse filme uma vez. Não presta.»
Sasha abanou a cabeça embaraçado enquanto recordava o passado de Fury. «Desculpa meu. Não era minha intenção.»
Nunca era. No entanto, a estocada já estava, independentemente da intenção.
«Precisavas de me ver?», perguntou Sasha, mudando de assunto.
Fury verificou a sua visão periférica para ter a certeza que nenhum membro do clã dos ursos o ouvia por perto. Depois deitou um olhar aguçado a Margery. «Nós temos assunto de lobos a tratar, se não te importas.»
«Tudo bem. Preciso de subir, de qualquer forma. A companheira do Litarium foi cedada e deve acordar a qualquer momento.» Ela passou por ele e bateu no balcão para chamar a atenção do urso. «Remi, dá-me mais uma garrafa, vou voltar para o trabalho.»
Fury ficou chocado. «Ainda bem que eu não sou o paciente»
Margery deitou-lhe um olhar reprovador. «É para o Carson.»
Ele bufou. «E eu repito o que disse. Era só o que eu precisava, um bando de bêbados a tratar de mim.» Ele viu a expressão divertida de Sasha. «Lembra-me de não fazer nada estúpido hoje. Oh, espera, estou aqui. Tarde demais para esse aviso, hã?»
Sasha ignorou a pergunta enquanto cruzava os braços e passava o peso para uma perna. «O que é que precisas, Fury? Não somos exatamente amigos.»
Fury afastou-o alguns passos do lugar onde Remi estava a colocar a outra garrafa de cerveja de Margery. «Eu sei, mas és o único lobo de quem os Peltier não suspeitam e o único em que eu posso confiar para entregar isto à Aimee.» Ele colocou um pequeno papel na palma da mão de Sasha. «Trata de esfregar o traseiro com ele, ou algo parecido, para retirar o cheiro do Fang. Eu fiz o que pude, mas o cheiro dele é demasiado intenso.»
Sasha pareceu desagradado pelo pedido. «Tu sabes que a ultima vez que me envolvi em subterfúgios, vi-me ferido e marcado mortalmente, e vi o meu clã inteiro virar-me as costas. Aceita o meu conselho e não deixes que o teu irmão te arraste para o fundo com ele.»
«Sim, mas eu não pisei os calos a dois deuses.» Que foi o que quase matou Sasha. «Estou só a fazer um favor ao meu irmão.»
«Isso foi o que eu disse a mim próprio também. Mas o problema com a família, é que enterram-nos na merda e deixam-nos lá. Ou pior, acabam a tentar matar-nos.»
Era verdade, e ele sabia-o. Mas ele devia a Vane e a Fang por o terem recebido quando mais ninguém o fez. Estava disposto a morrer, mas apenas pelos seus irmãos.
«Entregas-lhes o bilhete ou não?»
Sasha cerrou os dentes. «Entrego. Mas ficas a dever-me uma.»
Na verdade, quem lhe ficava a dever era Fang, mas….eles eram irmãos, e pela primeira vez na sua vida, ele percebeu o que isso significava. «Eu sei, e agradeço.»
Sasha escondeu o papel no seu bolso traseiro. «Sabes o que realmente me chateia nisto é que nunca vi dois animais a agir tanto como humanos. Que raio de treta tipo Romeu e Julieta é que eles estão a tramar afinal?»
Fury encolheu os ombros. «E eu é que sei? Ele diz que ela é a única que o compreende. Dada a forma afeminada com que ele tem agido ultimamente, já não entendo nada disto. Se ele começar a usar baton e lápis rosa, voto para o prendermos ou matarmos. Coloco aquele traseiro chorão longe da minha vista.»
Os cantos da boca de Sasha curvaram-se para cima, como se estivesse a tentar não rir.
«O que estás a fazer aqui?»
Fury ficou tenso com o som do profundo sotaque francês de Nicolette “Mamã” Peltier. Desde que o seu irmão esteve a passar um bom bocado com a sua única filha, Aimee, ele compreendia a sua hostilidade para com todo o clã, mas isso não queria dizer que apreciasse o tom.
Ele começou a dizer o que é que ela podia fazer com ele, mas antes que conseguisse começar a responder, Sasha falou. «Eu pedi-lhe para vir. Queria avisá-lo sobre o que aconteceu com o Litarium.»
A Mamã relaxou um pouco, mas a sua expressão ainda estava profundamente perturbada. «Aquilo não é nada bom.» Ela passou o olhar por toda a sala, como se estivesse à procura de alguém suspeito. «Os deuses tenham misericórdia de nós todos, se não encontrarmos quem está por detrás disto. Tremo só com o pensamento sobre o que mais são capazes de fazer.»
Também Fury. «Os ursos estão a fazer alguma coisa para encontrar os responsáveis por isto?»
Ela abanou a cabeça. «Não, as leis do Santuário proíbem-no.»
«Então eu vou investigar.»
Sasha bufou. «Tu realmente não consegues evitar o Kamikase em ti, pois não?»
Fury sorriu. «Por acaso não. É mais fácil alinhar com ele do que lutar contra ele. Além disso, se alguém nos está a lixar, quero saber quem e como. Quero a garganta deles, acima de tudo.»
Os olhos de Nicolette brilharam com respeito. Ela olhou para Sasha. «Leva-o para cima antes que os vários odores contaminem o leão, para que se possa seguir aqueles que fizeram isto.»
Sasha fez uma pequena vénia a Nicolette antes de se virar para Fury e lhe pedir que o seguisse.
Fury não falou até deixarem o bar, passaram pela cozinha e pela casa Peltier. Uma vez aí, longe do olhar dos humanos, Sasha usou os seus poderes para desaparecer e aparecer dentro do consultório do médico no segundo andar. Fury era um pouco mais cauteloso.
Como nunca ninguém o ensinou a usar a sua magia quando atingiu a puberdade, o seu controlo sobre eles, era pouco mais do que desastroso. Mais precisamente, ele nunca deixou que alguém se apercebesse o pouco controlo que tinha sobre eles. Ninguém conheceu as suas deficiências e viveu para contá-las.
Por isso, ele subiu as escadas até aos quartos prontos para a assistência médica. Assim que entrou na pequena área de serviço, ele viu Margery, Carson e Sasha à sua espera.
«Porque não me seguiste?» Perguntou Sasha.
« Eu segui.»
«Sim, mas…»
Fury interrompeu-o. «Eu não vou deixar um rasto de magia para um cretino qualquer poder usá-lo contra mim. Andar funciona comigo. Onde está o leão?»
Carson passou por trás do consultório até outra porta que levava até à área hospitalar. «Tenho-o aqui.»
Fury seguiu-o. Assim que entrou na área esterilizada, congelou. Estava uma mulher inclinada sobre a maca com o leão, a chorar. Ela tinha uma mão enterrada na sua juba, enquanto a outra estava pousada sobre a mesa. No centro da sua palma estava o elaborado desenho que a marcava como sua companheira. A afeição que ela demonstrava pelo leão demonstrava bem que ele lhe pertencia.
«Anita?», disse Carson gentilmente. «Este é o Fury Kattalakis. Ele está aqui para ajudar a encontrar o responsável por isto.»
Choramingando, ela levantou a cabeça e olhou para ele de forma a demonstrar que não estava surpreendida pela oferta. «A minha gente anda à procura de quem causou isto.»
«Sim.» disse Carson gentilmente, «Mas quantos mais batedores tivermos, mais chances temos de os encontrar e com eles a cura.»
«Nós somos leões.»
«E eu sou um lobo», disse Fury, cortando-lhe a palavra. «Se eu precisar de brutalidade e força pura, eu chamo-te. Mas se andas à procura de alguém que te fez mal, ninguém fareja melhor que um de nós.»
Carson colocou a mão no braço da mulher. «Ele está certo, Anita. Deixa-o ver se nos consegue ajudar a encontrar os culpados antes que cacem mais alguém.»
Ela alisou o pelo da juba do leão antes de se levantar e sair. Fury aproximou-se da maca lentamente. «Ele é completamente animal ou retém algum raciocínio humano?»
Carson suspirou. «Não temos a certeza.»
Aquelas palavras arrancaram um soluço profundo à mulher.
Fury ignorou-a e aproximou-se da mesa. O leão grunhiu baixo a Fury assim que se aproximou. Era um aviso animal. O lobo dentro de Fury tentou tomar a dianteira, mas ele conteve-o. Enquanto o lobo tentava lutar, o homem sabia que o leão desfá-lo-ia. De vez em quando era bom ter habilidades humanas, mesmo que elas guerreassem com o seu coração de lobo.
«Calma», disse ele, num tom de voz baixo, enquanto fechava a mão num punho para proteger os dedos. Se nada houvesse no leão que não fosse animal, responderia a qualquer forma de feromonas de hostilidade ou medo que cheirasse. Ele levantou a mão devagar para que o leão sentisse o seu cheiro e intenções.
O leão lançou a garra sobre ele, mas não o magoou. Bom. Fury colocou a mão nas costas do leão. Aproximando-se, ele sentiu a mudança nos músculos, mas não eram para atacar. Ele inspirou e sentiu o cheiro de Carson, Margery, do leão fêmea e outros. Mas foi o cheiro menos intenso que o fez cambalear…
Uma wolfswan (companheira de lobo).
Fury olhou para a leoa. «Estiveram perto de outros Lykos?»
Anita indicou o lobo ao lado de Carson. «Sasha.»
«Não», disse Fury lentamente. «Fêmea.»
Anita bufou. «Nós não nos misturamos com outras raças. Somos puristas.»
«Talvez….mas há também outros cheiros no ar. Chacal, pantera e lobo. «Quando é que estiveram perto de chacais?»
«Nunca!» cuspiu ela, indignada perante a sugestão. Os chacais não eram propriamente uma espécie favorita. Na terra dos párias, eles eram os ómegas. Aqueles que toda a gente tentava evitar ou escolher.
Sasha aproximou-se. «Também senti o cheiro.»
Carson trocou um olhar preocupado com Margery. «Anita, diz-nos tudo o que te consegues lembrar sobre as pessoas que atacaram o teu companheiro.»
«Eu não os vi. O Jake tinha saído com o irmão, na sua forma natural, a correr por correr. Não estavam a ameaçar ninguém. O irmão disse que um grupo de Arcadianos apareceu do nada e se aproximou. Eles lutaram, e os Arcadianos atingiram o Jake com qualquer coisa, e ele caiu desamparado. O Peter correu a pedir ajuda.»
«Onde está o Peter agora?», perguntou Fury.
Uma lágrima deslizou pelo canto do olho dela. «Morto. Eles atingiram-no na cabeça. Ele só viveu o suficiente para nos contar o que aconteceu.»Carson deixou Anita aos cuidados de Margery, antes de levar Sasha e Fury para fora do quarto.

«Eu procurei na cabeça do Peter e não encontrei nada. Não há nenhum ferimento de entrada ou saída, nem sangue. Nada. Não sei o que o matou.»
Aquilo não lhe cheirava nada bem. «Magia?», perguntou Fury.
Carson abanou a cabeça. «Mas o que poderia ser tão poderoso?»
Sasha trocou o peso do corpo. «Os deuses». Fury discordava. «Eu não cheirei um deus, cheirei-nos a nós.»
Sasha suspirou profundamente. «Sabes quantos licantropos pária existem?»
«Desde que sou o Regis dos Katagaria, sim, sei. Há milhares de nós e só neste período de tempo.» O que ele não lhes disse é que aquele cheiro era mais do que familiar. Um cheiro do passado que ele fez os possíveis por esquecer. «Eu vou investigar por aí e ver o que consigo descobrir.»
«Obrigado.» disse Carson.
Fury ficou indiferente à sua gratidão. «Sem ofensa, mas não estou a fazer isto por si. Estou preocupado com a minha gente. Temos de saber o que o obriga a manter esta forma.»
«E se é reversível», acrescentou Sasha.
Fury assentiu. «Eu darei notícias.»
«Ei, Fury?»
Ele voltou-se para Sasha que bateu no peito três vezes com o punho, e depois deslizou a mão para baixo. Um movimento silencioso, para lhe dar a entender que Sasha não esqueceria de entregar o bilhete a Aimee. Ele inclinou a cabeça respeitosamente antes de sair da sala e descer as escadas.
Mas a cada passo que dava, as suas memórias de outrora queimavam-no por dentro. Levaram-nos até uma mulher que fora todo o seu mundo. Não sua amante ou parente, ela fora a sua melhor amiga. Angelia.
E num instante, quando o seu irmão disse ao seu clã o que era realmente, ela não só quebrou a promessa sagrada que tinha com ele, como tentou matá-lo. Ele ainda conseguia sentir o toque da faca enterrada bem fundo. A cicatriz ainda marcava o seu peito, a poucos centímetros do coração. Na verdade ela não falhou o alvo. As palavras que lhe dirigiu fizeram mais estragos que uma arma alguma vez poderia ter feito. Se ela estava por detrás disto, ele assegurar-se-ia que era o ultimo erro que aquela cabra havia de fazer.



Capítulo 2 


Angelia hesitou dentro do infame bar Santuário. Eles apareceram no terceiro andar. A área que foi designada para aqueles que se teletransportavam, para que ninguém os pudesse ver. E estavam agora a tentar observar o panorama geral. Pouco iluminado, o teto do clube estava pintado de preto, e as paredes eram feitas de tijolo vermelho escuro. Barras metálicas negras e elegantes davam ao lugar um ar de caverna acolhedor.
Ela passou a maior parte da vida na Inglaterra medieval, preferindo o campo aberto ao ar contaminado e ao caos da vida do século XXI. Agora percebia porquê. Edifícios como este eram claustrofóbicos. Estava acostumada a tetos altos de nove metros. O teto por cima da sua cabeça não tinha mais de três metros, se tanto.
Receosa, ela olhou as luzes elétricas à sua volta. Como uma Predadora do Homem, era suscetível às correntes elétricas. Uma pequena voltagem era o suficiente para a fazer perder o controlo da sua magia, e também da sua forma humana.
Como é que a sua gente conseguia viver naqueles horríveis lugares apinhados e eletrificados?
Ela nunca percebeu o apelo. Para não mencionar as roupas…
Ela vestia um par de calças azuis normais e uma blusa branca, que apesar de simples, era muito estranha.
«Tens a certeza de que isto é uma boa ideia?» sussurrou ela ao seu companheiro Dare.
Ele era uma cabeça e ombros mais alto do que ela. Ao primeiro olhar o seu cabelo parecia castanho-escuro, mas na verdade tinha todas as cores: cinza, avermelhado, castanho, preto, mogno, e até mesmo algum louro. Comprido e ondulado, aquele cabelo era o mais bonito que um homem podia ter. Ela mesma mataria por um assim. Apesar de ele próprio não achar nada em relação a isso e ao facto de ser inacreditavelmente quente e sexy. Não que ela alguma vez tenha dormido com ele. Ele era praticamente Katagaria na forma como lidava com as mulheres, e ela como uma mulher Arcadiana, achava esse comportamento animalesco e repugnante.
Ainda assim, ele era um dos Wolfswans (companheiros de lobo) mais desejado e temido, e as mulheres do seu clã andaram a lutar por ele durante séculos.
Esta noite andava à procura de sangue.
Felizmente não era o dela.
Ele olhou-a com aqueles olhos verdes amendoados a faiscar. «Se estás com medo, minha menina, vai para casa.»
Ela mal conteve a urgência de o golpear com fúria. A sua arrogância sempre a tirou do sério. «Eu não tenho medo de nada.»
«Então cala-te e segue-me.»
Ela fez um gesto obsceno nas suas costas e seguiu-o pelas escadas. Essa era a única desvantagem de viver no passado. Egos masculinos. Ali estava ela, uma Aristos. Uma das mais poderosas da sua raça, e ele ainda a tratava como se fosse um desperdício inferior.
Deuses, como lhe apetecia bater-lhe.
Mas ele era o neto do líder original do clã e o cabecilha do grupo, por isso ela estava honrada por segui-lo. Mesmo que lhe apetecesse matá-lo.
Lembra-te do teu dever, lembrou a si mesma. Ela e Dare nasceram do ramo Arcadiano dos Predadores do Homem. Humanos que tinham a capacidade de mudar a forma para animais. O trabalho deles era policiar os Katagaria. Os Predadores do Homem que eram animais que poderiam mudar a forma para humanos.
Só porque eles, de vez em quando, usavam a pele de humanos, não deixavam de ser as bestas que eram. Eles não sabem o que é racionalidade humana, emoções complexas ou decoro. No final das contas, os Katagaria não passavam de animais. Primários. Brutais. Imprevisíveis. Perigosos.
Eles caçavam pessoas e outros como eles, como os animais que eram. Ninguém podia confiar neles. Nunca.
Ainda assim era irónico que os donos do bar fossem um grupo de Katagaria e que estes mantivessem as leis de paz. Em teoria, ali ninguém podia magoar ninguém.
Sim, pois. Ela não acreditava nisso nem um minuto. Eles eram, provavelmente, melhores a esconder os corpos.
Ou a comê-los.
Cruel e pessimista talvez, mas havia um sexto sentido dentro dela que lhe dizia que deviam ir embora antes de terminar a missão.
Esse pressentimento piorava à medida que eles desciam para o segundo andar onde um urso levantou os olhos por cima das cartas que estava a jogar com um grupo de humanos e lhes mostrou os dentes. Franzindo o sobrolho, esperou que Dare reagisse, mas ele continuou a descer para o rés-do-chão. Ela assumiu que ele não tinha visto a reação do urso, mas essa não era a reação de um homem que apanhava qualquer vestígio de hostilidade à volta dele.
De repente, um grito elétrico atravessou o ar, fazendo-a estremecer com a agressão à sua sensível audição. Ela tapou os ouvidos com as mãos e rezou para não estar a sangrar. «O que é isto?»
Dare apontou para o palco, onde um grupo de Predadores do Homem afinava os instrumentos. Uma guitarra gemeu antes de começar uma música e a multidão os aclamasse.
Ela grunhiu com as luzes e o som. «Que música horrível», queixou-se ela, desejando que estivessem de volta a casa e não nesta pocilga.
Uma vez no rés-do-chão, Dare havia dado apenas dois passos quando se viu rodeado pelos cinco ursos mais mal-encarados que ela tinha visto. O mais velho deles, que parecia ser o pai, pois tinha os traços parecidos com os mais jovens, media cerca de dois metros e dez. Olhou para baixo, diretamente para Dare, como se estivesse pronto para o desfazer aos bocados.
«O que raio estás a fazer aqui, lobo?»
As fossas nasais de Dare dilataram-se, mas ele sabia o mesmo que ela. Eles estavam em superioridade numérica e em território hostil, rodeado de animais.
Angelia aclarou a garganta antes de se dirigir ao mais velho. «Isto não é um Santuário?»
Um dos ursos loiros mais novos empurrou Dare. «Para ele não é. É mais como um cemitério.»
Dare conteve-se e susteve o olhar da cólera que lhe atravessava o semblante. Felizmente, ele conteve o seu temperamento e não ripostou. Ainda.
Uma mulher alta e loura, que se parecia o suficiente com os homens para ser sua parente, parou ao lado deles. Olhou para Dare de forma insultuosa antes de passar o olhar glaciar pelos outros ursos.
A ursa riu deles. «Ele não é o Fang, meninos. Parabéns, estão prestes a esfolar um lobo inocente.» Segurando a bandeja debaixo do braço, ela afastou-se só para ser travada pelo urso mais velho.
«Ele parece e cheira como o Fang.»
Ela bufou. «Acredita papá, ele não é nada como o Fang. Eu conheço o meu lobo quando o vejo e aquele rapaz está seriamente em falta.»
O urso mais jovem do grupo observou o cabelo de Dare. «Ele tem a marca dos Kattalakis.»
A empregada rebolou os olhos. «Está bem Serre. Mata o bastardo. Não que eu me importe de uma maneira ou de outra.» Ela afastou-se sem olhar para trás.
Serre largou o cabelo de Dare e fez um som de repugnância. «Quem raio és tu?»
«Dare Kattalakis.»
Angelia congelou, perante a ressonante voz que a trespassou como gelo. Era uma voz que não ouvia há séculos, e uma que pertencia a alguém que ela pensava que estava morto há muito tempo.
Fury Kattalakis.
O seu coração pulsava fortemente, enquanto os ursos se afastavam para o deixar aproximar-se. Alto e magro, Fury tinha o corpo musculado e bem definido, que muitos homens tinham de se esforçar para ter. Mas não ele. Mesmo quando era mais jovem, ele possuía os músculos bem definidos, o que fez com que vários machos da sua raça ficassem verdes de inveja, e as mulheres desmaiassem com os calores.
Quando muito, estes últimos séculos tinham-no tonificado ainda mais. Longe estava a insegurança da sua adolescência. O lobo diante dela era perigoso e letal. Alguém que sabia exatamente do que era capaz.
Derramamento de sangue sem misericórdia.
A última vez que o viu, o cabelo loiro era comprido. Estava muito mais curto agora, caindo junto ao colarinho. Mas os olhos continuavam com aquela cor única, que era um pouco mais escura que turquesa.
E o ódio neles enviou-lhe calafrios.
O couro preto, estilo Aerostich da sua jaqueta tinha chamas amarelas e vermelhas nas mangas, e nas costas uma caveira com tíbias cruzadas, emergia ameaçadoramente das chamas. Aberto na frente, deixava antever uma t-shirt preta lisa por baixo. As ombreiras de Kevlar da jaqueta faziam com que os seus ombros parecessem ainda mais largos. As calças largas Aerostich estavam metidas num par de botas de motoqueiro com fivelas prateadas de lado.
Ela engoliu em seco perante a primeira visão incrivelmente sexy que tinha diante dela, preparado para enfrentar todos eles. E contra a sua vontade, o seu coração acelerou. Se Dare era bonito, Fury era incrível.
De pasmar.
E aquele lobisomem tinha um traseiro tão firme e estupendo, que devia ser ilegal, pelo menos naqueles dias e com aquela idade. Era a única coisa que podia fazer para não olhar fixamente. Ou melhor, para não olhar para ele.
Ignorando o facto de estar a ser comido com os olhos, Fury deitou um olhar glaciar a Dare. «Há muito tempo que não nos víamos, irmão.»
«Não há tempo suficiente.» resmungou Dare por entre dentes.
«Conhece-lo?» perguntou o pai urso.
Fury encolheu os ombros. «Costumava conhecer. Mas se vocês quiserem fazer dele picadinho e fazer hambúrgueres com ele, eu não me importo. Que diabo, até vou buscar o picador.»
Dare avançou para ele.
Serre agarrou-o e puxou-o para trás. «Bater-lhe aqui seria um grande erro da tua parte. Ainda que não gostemos dele.»
Fury piscou o olho ao urso sarcasticamente. «Também gosto de ti, Serre. Vocês rapazes, fazem-me sempre sentir em casa. Aprecio muito.»
«O prazer é nosso.» Serre soltou Dare.
O urso pai suspirou. «Uma vez que nos enganámos em relação a ti, deixemos os lobos com os seus assuntos.» Levantou um olhar de aviso a Dare. «Lembra-te. Nada de sangue derramado.»
Nenhum deles falou até os ursos estarem completamente fora do alcance.
Fury observou os dois com cautela. Ele e Dare, tal como Vane, Fang e as suas irmãs, Anya e Star, faziam parte da mesma ninhada. Todos nasceram da mesma mãe Arcadiana. A sua mãe manteve-o a ele, Dare e Star e enviou os outros para viver com o pai Katagaria.
Isso foi quando eles assumiram que Fury era humano. Pois. E no momento em que a sua família descobriu que não o era, viraram-se contra ele e tentaram matá-lo.
Lá se foi a compaixão humana.
Quanto a Angelia…ele odiava-a ainda mais que ao seu irmão. Pelo menos ele entendia Dare. O pulha sempre o tinha invejado. Desde a primeira memória da sua infãncia, Dare esteve ali, a tentar afastá-lo do afeto da sua mãe.
Mas Lia tinha sido sempre a sua melhor amiga. Mais próxima do que os seus irmãos ou até que as suas amantes. Ela fez uma promessa de sangue de que o protegeria por toda a eternidade.
Mas no preciso momento em que Dare expôs o seu segredo, ela virou-se contra ele, também.
Só por isso ele podia matá-la.
Mesmo assim, ele tinha de admitir que ela ainda o deixava tonto. O cabelo preto, brilhante e comprido era macio. O tipo de cabelo que fazia um homem implorar para lhe passar com os dedos e enterrar a cabeça até ficar bêbado com a essência feminina. Os seus grandes olhos pretos tinham um ar sonhador, o que os tornava ainda mais bonitos e sedutores. E os lábios…Grandes e carnudos, imploravam beijos. Eram também o tipo de lábios que um homem não podia deixar de imaginar ao redor de uma parte da sua anatomia, enquanto o olhava de baixo com aqueles olhos escuros apaixonados.
Raios, o simples pensamento deixou-o duro e a ferver.
Cerrando os dentes, ele fixou o olhar nas marcas em espiral que cobriam metade do seu rosto. Essas marcas eram sinal da pior espécie de moralistas Arcadianos.
Um Sentinela.
Eram aqueles que achavam que eram muito melhores que os Katagaria. Pior, eles juraram caçá-los e aprisioná-los como os animais que os acusavam de ser.
Era difícil de acreditar que um dia se preocupou com ela. Devia estar maluco.
«Vi o teu trabalho no Litarium.», disse Fury, num tom gutural. «Queres-me dizer como o fizeste?»
Dare, cujos olhos eram tão parecidos com os de Vane, olharam-no assustadores como o inferno. «Não sei do que estás falar.»
Fury fez uma careta. «Pois, sim. E eu devo acreditar que vocês os dois estão aqui para tomar umas bebidas e que este tipo de coincidências acontece a todo o instante.» Ele cheirou o ar. «Oh, espera, o que é isto? Merda? Sim, cheira-me a montes de merda.»
«Como se» cuspiu Dare «não conseguisses cheirar merda nesta fossa cética cheia de álcool barato, perfume exagerado e fedor animal.»
«Ah, mas sabes, aí é que estás errado. Eu vivo nesta fossa. Encontrar o cheiro a merda é a minha especialidade, e, Irmão, estás coberto dele. Então, se eu fosse tu, dizia-me o que fizeste, ou vou entrego-te aos ursos Peltier.»
Dare bufou. «O que vais fazer? Eles têm de manter a lei do Não Derramar Sangue.»
«Verdade, mas há três representantes Omegrion debaixo deste teto e mais dois a morar a um uivo de distância. Vamos a votos e…Basicamente, Irmão, estás fodido.»
«Não. Irmão.» disse Dare gozando. «Tu estás.»
Antes que Fury pudesse piscar, Dare empunhou uma arma e apontou-a à cabeça de Fury. Este agarrou o punho de Dare no momento em que este disparou a arma. Agachando-se e girando, ele caiu de joelhos, puxando a arma de Dare com ele.
O som alto de gritos rodeou-os.
«Arma», gritou alguém, o que levou a que os clientes humanos entrassem em pânico e começassem a fugir pela porta.
Angelia agarrou Fury pela garganta.
«Solta-o!» grito Dare, enquanto tentava soltar a mão da de Fury. Fury recusou-se a soltá-lo. Se o fizesse, o bastardo atingi-lo-ia com aquilo com que atingira o leão.
Angelia passou o braço pela sua garganta, estrangulando-o.
«Larga-o Fury.»
Antes que ele pudesse responder, os três foram separados. Fury tentou levantar-se, mas alguém o mantinha no chão com um campo de força infernal.
Grunhindo, lutou, usando os seus poderes com raiva. Em vez de se libertar, transformou-se num lobo.
Ladrou à mama Peltier, que estava de pé entre eles. Mas ele sabia por experiência própria, que não era os poderes dela que sentia. O problema era que ele não sabia a quem pertenciam.
«Ninguém vem até minha casa e faz isto», espetou ela. «Os três estão banidos daqui, e se vos apanhar dentro do Santuário outra vez, não viverão o tempo suficiente para se arrependerem.»
«Ele atacou-nos», disse Dare. «Porque deveríamos ser banidos?»
Dev içou-o do chão. «Todos os que tenham participado numa luta são expulsos. Assim diz a lei.»
Colt foi bem mais gentil a levantar Angelia.
«Não houve derramamento de sangue» argumentou Angelia.
A mamã curvou o lábio. «Não interessa. Vocês quase nos expuseram aos humanos. Felizmente para vocês, eles saíram depressa. Agora desapareçam.»
Fury tentou transformar-se em humano outra vez para lhes dizer o que tinha acontecido, mas a sua magia não estava a cooperar. Nem sequer os seus poderes mentais estavam a funcionar. Isso devia-se com certeza ao facto dos poderes de alguém o estarem a prender.
Raios!
Dare olhou para ele e fez um gesto para lhe dizer que ainda não tinha acabado. Depois ele e Angelia saíram.
«Aquilo era para ti também, lobo», grunhiu Dev. «Max, larga-o»
O campo de força desapareceu.
Finalmente podia retomar a forma humana. Não sem a nudez pública. Ao contrário dos outros Predadores do Homem, ele não podia fazer aparecer roupas ao mesmo tempo que a transformação. Ele realmente odiava os seus poderes…
Enquanto tentava apanhar as suas roupas, elas apareceram no seu corpo, confuso, ele olhou em volta e encontrou o olhar de Aimee. Ela inclinou a cabeça para lhe dar a saber que fora ela a ajudá-lo. Sem dúvida Fang tinha-lhe contado acerca da sua fraqueza.
Dev aproximou-se.
«Estou a ir», disse Fury. «Mas antes de ir, deixa-me congratular-vos pela vossa estupidez. Aqueles dois cretinos que saíram daqui agora, foram os que foderam o leão lá em cima. Eu estava a tentar sacar-lhes informações.»
Dev praguejou. «Porque não nos disseste?»
«Eu estava a tentar. A próxima vez que prenderem alguém ao chão, não deviam impedi-lo de falar também.»
O dragão Max, abanou a cabeça. «Pensei que apenas me ias insultar por te ter prendido. É o que normalmente fazes sempre que falas comigo.»
«E provavelmente fá-lo-ia, se não tivesse mais nada para te dizer.»
Dev aclarou a garganta para lhes chamar a atenção. «Eles são deste tempo?»
«Não»
A Mamã assentiu. «Então têm de estar algures na cidade. Não há lua cheia para saltarem no tempo.»
Fury desejava-o, mas havia outra verdade acerca da sua velha amiga. «A mulher é uma Aristos. Ela não se rege pela lua. Eles podem estar em qualquer lugar, em qualquer tempo.»
Dev suspirou. «Bem, pelo menos conseguimos que os humanos saíssem antes de verem acontecer algo sobrenatural.»
«Ainda bem.» Fury fechou o casaco. «Agora se me perdoam…»
«Ei» ele olhou para Dev.
«Continuas banido daqui.»
«Como se me importasse.» Estava banido de lugares muito melhores que este, onde houve pessoas que realmente se importavam com ele…pelo menos durante alguns anos. Sem olhar para trás, ele saiu de volta à Ursulines. A rua estava estranhamente sossegada, especialmente dada a grande quantidade de humanos que saiu a gritar para a noite ainda há poucos minutos. A ameaça de violência devia ter-se entranhado na sua pele.
Mas isso não mudava o facto de ainda ter um lobo para apanhar. Dois deles, para ser mais preciso. O senso comum dizia-lhe para voltar para a sua alcateia e dizer a Vane o que estava a acontecer.
Fury bufou. «Vivi a minha vida inteira sem senso comum. Porque devia começar agora?»
Assim que chegou à sua moto, uma estranha fissura de poder percorreu-lhe a coluna. Ele voltou-se na expectativa de uma luta, mas antes que se conseguisse sequer mover, foi atingido com um choque brutal. Praguejando, caiu no chão com força. As dores percorreram-lhe todo o corpo, enquanto ele mudava para a forma de lobo, depois humano, depois lobo outra vez. Ele estava completamente imobilizado, enquanto o seu corpo lutava para estabilizar e não conseguia.
Dare caminhou até ele lentamente, depois pontapeou-o com força nas costelas. «Devias ter morrido. Fury. Agora vais desejar estar morto.»
Fury virou-se para ele, mas os músculos não queriam cooperar. Se pudesse colocar-lhe a mão ou a pata em cima, arrancava-lhe a garganta.
Dirigiu o seu olhar a Angelia para encontrar simpatia no seu rosto um instante antes de Dare o atingir outra vez. Uma dor inacreditável percorreu-o, enquanto ele lutava para se manter consciente.
Ele estava a perder a batalha. Num instante, ficou tudo negro.
«O que estás a fazer?» perguntou Angelia a Dare.
«Precisamos de saber o que ele sabe acerca da experiência. Mais precisamente, precisamos de saber com quem ele tem falado. Não nos podemos dar ao luxo de ver o nosso segredo descoberto.»
Ela encolheu-se, enquanto via o corpo de Fury a continuar a mudar de humano para um lobo branco e vice-versa. Pelo menos até Dare lhe colocar uma coleira no pescoço para o manter humano, especialmente durante o dia, isso enfraquecê-lo-ia.
E ia doer.
Ela abanou a cabeça perante as suas ações. «Tu sabes que ele não nos vai dizer nada.»
«Eu não teria tanta certeza.»
O Fury que ela recordava nunca contava os segredos. Ele morreria antes e ele podia aguentar muita dor. Mesmo em criança, ele era mais forte que qualquer outro.
«Como podes ter a certeza?»
«Porque vou levá-lo até ao nosso Chacal.»
Angelia suspirou ruidosamente perante a ameaça. Óscar era um chacal cujo coração era tão negro, que era mais animal que homem. «Ele é teu irmão, Dare.»
Eu não tenho irmãos. Tu sabes o que os Katagaria fizeram à minha família. À nossa pátria.»
Era verdade. Ela estava lá na noite em que o pai Katagaria de Dare liderou o ataque ao acampamento Arcadiano. Como ainda era criança, ela foi escondida assim que os ataques começaram. A sua mãe encheu-a de terra para mascarar o seu cheiro, antes de a levar para a cave.
Ainda agora, ela conseguia ver os lobos a atacar e a matar a sua mãe, enquanto ela espreitava com horror pelas tábuas do chão.
Dare tinha razão. Eles tinham que proteger a sua gente. Tinham de despojar os animais dos seus poderes e abatê-los como as criaturas violentas que eram. Até mesmo Fury.
«Estás comigo?», perguntou ele.
Ela assentiu. «Não quero ver mais nenhuma criança a passar o que eu passei. Temos de nos proteger. Custe o que custar.»


Capítulo 3 


Angelia percorreu o pequeno acampamento que tinham construído, enquanto ouvia Fury insultar Óscar enquanto ele e Dare o torturavam para obter informações. Honestamente, ela não tinha estomago para isso. Nunca teve.
Talvez Dare tivesse razão. Afinal, talvez ela não devesse pertencer ao grupo.
Ainda assim, ela era uma guerreira sem precedentes. Numa batalha, ela não hesitava em ferir ou matar. Era apenas a ideia de bater em alguém que não conseguia defender-se, que a enojava.
Ele é um animal.
Sem dúvida que ele a mataria num instante. Ela sabia isso com todo o seu ser, mas ainda assim…
Ela estremeceu quando Fury uivou com dores.
Um instante depois, Óscar saiu e dirigiu-se a ela e à fogueira que haviam feito. Sem uma palavra, ele passou por ela e fez aparecer uma barra de ferro.
Franzindo o sobrolho, ela observou enquanto ele a colocava na fogueira. «O que estás a fazer?»
«Pensei que uma pequena marca podia soltar-lhe a língua.»
«Depois de quanto tempo? O Fury estava em muito mau estado e eu sei o quanto ele consegue aguentar e mesmo assim levantar-se e lutar. Para desmaiar como ele fez…alguém lhe bateu durante muito tempo.»
Angelia desviou o olhar envergonhada. Na realidade, magoava-a a um nível mais profundo do que elaão de Dare era feroz e cruel. «Estamos a proteger o nosso povo.»
Mas isto não era proteção. Isto era crueldade pura. Incapaz de o suportar, ela mudou de estratégia. «Deixem-me interrogá-lo.»
Dare franziu o sobrolho. «Porquê? Como tu própria disseste, ele não vai dizer nada.»
Ela encaminhou-se para a tenda, enquanto tentava manter a raiva sob controlo.
«Vocês estão a bater-lhe há horas e não chegaram a lado nenhum. Deixem-me tentar outra abordagem. O que é que custa?»
Óscar colocou a barra na fogueira. «De qualquer forma eu preciso de comer. Tens até eu acabar, e depois volto a tentar à minha maneira.»
Enojada com os dois, Angelia voltou-lhe as costas e entrou na tenda. A visão de Fury no chão, fê-la estacar. Ainda na forma humana, ele estava nu, com as mãos atadas num ângulo estranho por trás das costas. Outra corda prendia-lhe as pernas juntas. Estava coberto de nódoas negras e cortes, ao ponto de estar irreconhecível.
O facto de estar tão ferido e na forma humana devia ser agonizante para ele. Sempre que eram feridos, eles voltavam à forma natural. Para ela era humana. Para Fury…
Ele era um lobo.
Tentando ter isso em mente, ela ajoelhou-se ao seu lado.
Ele grunhiu ameaçadoramente antes de se virar e encontrar o seu olhar. A dor e tormento naqueles olhos azul-turquesa escuro, trespassou-a. E assim que desviou o olhar, ela viu a cicatriz no seu peito. A ferida onde ela o tinha apunhalado.
A culpa rasgou-a por algo que ela nunca devia ter feito.
«Porque é que não acabas o serviço?», disse ele, num tom hostil e mortal.
«Nós não queremos magoar-te.»
Ele riu-se amargamente. «Os meus ferimentos e a diversão no olhar deles enquanto mos infligiam, dizem-me outra coisa.»
Ela afastou-lhe o cabelo da testa, deixando visível um corte horrível no sobrolho. O sangue escorria do seu nariz e lábios.
«Desculpa.»
«Todos estamos arrependidos por algo. Porque é que não és um animal, para variar, e me matas?», olhou-a fixamente. «Podes tentar, mas não te vou dizer nada.»
«Nós precisamos de saber o que aconteceu ao leão.»
«Vai para o inferno.»
«Fury»
«Não ouses dizer o meu nome. Não passo de um animal para todos vocês. Acredita, todos vocês deixaram isso bem claro há quatrocentos anos quando me batera e me apunhalaste e abandonaste para morrer.»
«Fury»
Ele ladrou-lhe como um lobo.
«Podes parar?» Ele continuou a fazer barulhos de lobo.  
Suspirando, Angelia abanou a cabeça. «Não admira que te tenham batido.»
Mostrando-lhe os dentes de maneira bastante canina, ele grunhiu, depois ladrou. Não havia nada de humano nos sons que fazia.
Angelia afastou-se.
No momento em que se afastou, Fury caiu no chão, deixando de fazer qualquer som. Estava completamente parado.
Estaria morto?
Não, o peito ainda se movia. Ela podia ainda ouvir a sua fraca respiração. Enquanto o observava, os seus pensamentos transportaram-na ao passado. Ao jovem rapaz de quem fora amiga. Apesar de ele ser mais novo que ela quatro anos, havia qualquer coisa nele que a comovia.
Enquanto Dare sempre foi arrogante e mandão, Fury tinha uma vulnerabilidade que a fazia sentir-se protetora em relação a ele. Mais que isso, ele nunca a tratou como inferior. Ele tinha-a visto como parceira e confidente.
«Eu serei a tua família, Lia.» Aquelas palavras assombravam-na. Tinha sido esta a promessa de Fury assim que ela lhe disse que a sua família tinha sido assassinada por Katagaria, pela alcateia do seu pai. «Nunca deixarei que os lobos te magoem. Juro.»
Mas ela ali estava, enquanto o torturavam repetidamente a manhã inteira.
Não é nada comparado com o que lhe fizeste a ultima vez que o viste.
Era verdade. Ela não estava lá para ele na altura, e ele foi espancado muito mais que agora.
«Fury», tentou ela novamente. «Diz-me o que precisamos de saber, e prometo-te que paramos.»
Ele levantou a cabeça para a encarar com um olhar furioso. «Eu não traio os meus amigos.»
«Não te atrevas a dizer-me isso. Eu estava a proteger a minha gente quando te ataquei.»
Ele deixou escapar um sopro de incredulidade. «De mim? Eles eram a minha gente, também.»
Ela abanou a cabeça em negação. «Tu não tens gente. Vocês são animais.»
Ele curvou os lábios numa careta cruel. «Querida, desata-me, e eu mostro-te o quanto de animal há no homem em mim. Acredita. É muito mais cruel que o lobo.»
«Eu avisei-te», disse Óscar assim que se juntou a eles na tenda. Ele inclinou a ponta flamejante da barra na direção do seu torso. «É melhor saíres. O cheiro a carne queimada vai ser demasiado para o teu sensível nariz.»
Ela viu pânico nos olhos de Fury, enquanto se tentava afastar deles.
Óscar agarrou-o pelos cabelos e trouxe-o de volta. Fury tentou pontapeá-lo, mas não podia fazer muito, dado que estava amarrado. Ainda assim lutou com uma coragem admirável.
«Sai», disse Dare assim que entrou na tenda.
Enquanto se encaminhava para a rua, Fury deixou escapar um uivo tão feroz e dolorido que despedaçou a sua alma. Voltando-se, ela viu que Óscar tinha a barra sobre a sua anca esquerda, onde queimava com um cheiro nauseabundo.
Certo ou errado, ela não podia deixá-los continuar a fazer isto.
Ela empurrou Dare do seu caminho, depois pontapeou Óscar nas costas para o afastar de Fury. Antes que eles dessem conta do que estava a acontecer, ela ajoelhou-se ao lado de Fury e colocou-lhe a mão seu ombro. Usando os seus poderes, levou-os para fora da tenda e depois para o pântano, longe do lugar onde estavam acampados. Uma vez que não conhecia muito bem a área, era o lugar mais seguro para onde o podia levar.
Quando encontrou o seu olhar, não viu gratidão neles. Apenas raiva e ódio, tão aguçado que queimava. «O que vais fazer agora? Deixar-me aqui para os crocodilos me comerem?»
«Devia.» Em vez disso, ela fez aparecer uma faca para lhe cortar as cordas que lhe prendiam as mãos.
Fury estava atónito com as suas ações. «Porque me estás a ajudar?»
«Não sei. Aparentemente estou a ter um momento de estupidez extrema.»
Ele limpou o sangue no seu rosto, enquanto ela cortava as cordas que lhe prendiam as pernas.
«Gostava que esse momento de estupidez tivesse aparecido mais cedo.»
Ela pousou o olhar sobre o local onde o chacal o tinha queimado com a barra. Aquilo devia estar a matá-lo. «Desculpa.»
Fury agarrou o colar no seu pescoço e arrancou-o.
Angelia ficou ofegante. Ninguém deveria conseguir arrancar o colar. Ninguém.
«Como é que fizeste isso?»
Ele curvou os lábios para ela. «Eu consigo fazer muitas coisas quando não estou a levar choques.»
Ela começou a afastar-se, mas antes que conseguisse, ele fechou o colar no seu pescoço. Sacudindo-se, ela tentou usar os seus poderes para atacá-lo e remover o colar.
Era inútil.
«Eu salvei-te!»
«Vai-te foder!», espetou ele. «Eu não estaria nesta situação se vocês dois não me tivessem saltado para cima ontem à noite. Tens sorte de eu não te devolver o favor.»
O pânico puro atravessou-a quando percebeu que ele poderia fazer com ela o que quisesse e não poderia impedi-lo.
«O que vais fazer?»
Não havia misericórdia na sua expressão. Nenhum perdão. «Eu devia arrancar-te a garganta. Mas felizmente para ti, sou um animal burro e matar por vingança não está na minha natureza.» Ele fez mais pressão no braço dela. «Matar para me proteger e à minha alcateia é outra história. É melhor teres isso em mente.»
Assim que ela abriu a boca para responder, Fury fê-los sair do pântano e aparecer na grande casa vitoriana do seu irmão Vane.
A companheira de Vane estava na sala, de pé, junto ao sofá, onde o filho estava a dormir. Alta e curvilínea, com cabelo curto e acobreado, Bride era uma das poucas pessoas em quem Fury realmente confiava. Ela deixou escapar um quase uivo de lobo, antes de lhes virar as costas.
«Por Deus Fury, avisa-me quando apareceres por aqui nu.»
«Desculpa Bride.», disse ele, tentando manter-se focado. Mas estava a ser difícil devido aos ferimentos.
«O que te aconteceu?»
Ele olhou por cima do ombro para ver Vane parado junto à porta de entrada. Ele queria responder, mas a drenagem dos seus poderes junto com os ferimentos era mais do que podia aguentar. Tinha um zumbido nos ouvidos. E sem dar por isso, ele era um lobo outra vez e a exaustão estava a levar a melhor.
«Não a deixes fugir e não lhe tires o colar.», projetou ele para Vane, antes de se deixar levar pela escuridão outra vez.
Angelia com um salto, afastou-se de Fury na forma de lobo. Dando-se conta de que ele estava inconsciente, ela tentou chegar à porta, apenas para dar de caras com um homem que tinha uma assustadora semelhança com Dare. Ainda assim, este tipo, era muito mais intimidante e ainda mais bonito.
«Eu preciso de sair.»
Ele olhou para a mulher junto ao sofá.
«Bride, agarra o bebé e vai para cima.» Apesar do seu tom ser de comando, era também gentil e protetor.
Ela ouviu a mulher sair sem sequer questionar.
Assim que ela saiu, ele pousou nela aqueles peculiares olhos de avelã, que eram mais de lobo que de homem.
«O que estás a fazer aqui e o que aconteceu com o meu irmão?»
Fez-se luz na sua cabeça. Aquele cheiro…era inconfundível.
«Tu és Arcadiano, um Sentinela como eu.» Mas ao contrário dela, ele optou por esconder as marcas na sua cara, que o designavam como parte de uma rara e sagrada raça.
Ele curvou os lábios. «Não sou nada como tu. A minha lealdade é para com os Katagaria e para com o meu irmão. Ele disse-me para te manter aqui e é o que eu vou fazer.»
A raiva atravessou-a. Ela não tinha intenção de ali ficar. «Eu tenho de voltar para a minha gente.»
Ele negou com a cabeça, o rosto marcado pela determinação. «Fazes parte da gente da minha mãe, o que faz de ti minha inimiga mortal. Não vais sair daqui enquanto Fury não o permitir.» Ele passou por ela e aproximou-se de onde Fury estava deitado.
Ela estava aturdida pelas suas ações. «Estás a raptar-me?»
Sem esforço, ele levantou Fury do chão. Uma tarefa nada fácil, dado o tamanho do lobo.
«A minha mãe sequestrou a minha companheira e levou-a para a Inglaterra medieval, onde os membros masculinos da tua gente a violaram. Está grata por não te devolver o favor.»
Aquelas palavras, particularmente similares às de Fury fizeram-na sentir calafrios. «Só quero ir para casa.»
«Estás segura aqui. Ninguém te vai magoar…a não ser que tentes fugir.» Ele virou-se e carregou Fury pelas mesmas escadas que a mulher tinha usado momentos antes.
Angelia observou-o até estar fora do seu campo de visão. Depois correu para a porta da frente. Tinha dado apenas três passos, quando três lobos apareceram diante dela.
Mostrando os dentes, aproximaram-se e bloquearam-lhe o caminho.
Katagaria.
Sabia pelo cheiro deles. Aquele cheiro a lobo misturado com humano e magia. Era dia, pelo que era difícil para eles aparecer como humanos. Não impossível, mas difícil, especialmente se fossem jovens e inexperientes.
Ela tentou furar entre eles, mas os animais impediram-na.
«Faz o que Vane te disse.»
Ela virou-se e estacou em choque. Na forma humana, este lobo era tão parecido com Dare, que podia ser seu gémeo.
«Quem és tu?»
«Fang Kattalakis, e é melhor rezares a um qualquer deus que adores para não acontecer nada ao Fury. Se o meu irmão morrer arranco-te a garganta.»
Ele olhou os lobos à volta dela. «Guardem-na.» Depois retomou a forma de lobo e correu escadas acima.
Angelia recuou lentamente para dentro da sala. Assim que viu outra porta para o exterior, ela tentou sair, apenas para encontrar mais lobos.
O medo atravessou-a, enquanto se lembrava de quando era uma criança indefesa e os lobos mataram a sua mãe. Uma e outra vez, ela ouvia os gritos e revivia o pesadelo de ver os seus pais em pedaços. Ela tentou explodir os lobos à sua volta, mas o colar fazia com que os seus poderes fossem inúteis.
Ela estava à mercê deles.
«Afastem-se.», exclamou ela, lançando um candeeiro a um deles. Os outros uivaram e ladraram, cercando-a. Ela não conseguia respirar, enquanto o pânico se instalava. Eles iam matá-la.

Vane queria sangue, desde que viu os graves ferimentos no corpo de Fury.
«O que aconteceu?» Ele virou-se para encontrar Fang parado na porta.
«Ao que parece os Arcadianos divertiram-se com ele.»
As fossas nasais de Fang dilataram-se. «Eu vi uma das cabras deles lá em baixo. Queres que a mate?»
«Não»
Vane franziu o sobrolho assim que ouviu a voz de Fury na sua cabeça. Fury abriu os olhos e olhou para ele.
«Onde está ela?»
«Lá em baixo. Tenho a alcateia a vigiá-la.» Fury assumiu forma humana imediatamente.
«Não podes fazer isso.»
«Porquê?»
«Os pais dela foram assassinados pela nossa alcateia. Desfeitos em pedaços à frente dela quando ela tinha apenas três anos. Deve estar aterrorizada.»
Antes que Vane pudesse responder, Fury desapareceu.
Angelia continuava a balançar o candeeiro partido enquanto os lobos lhe iam fechando o cerco. Aterrorizada, ela queria gritar, mas o som estava preso na garganta. Ela só conseguia ver sangue, e sentir o mesmo horror que sentiu naquela noite, os gritos dos seus pais faziam eco na sua cabeça. Ela não conseguia respirar nem pensar.
Num instante, alguém estava a agarrá-la pelas costas.
Ela virou-se, tentando atacar o seu novo agressor, depois estacou assim que viu Fury na sua forma humana.
O seu toque era gentil, tirou-lhe o candeeiro da mão e pousou-o no chão. A expressão era estoica, os olhos um pouco esbranquiçados. «Não vou deixar ninguém magoar-te.» Disse ele num tom suave. «Não esqueci a minha promessa.»
Um soluço saiu do mais profundo do seu ser, enquanto ele a puxava para si.
Fury praguejou quando a sentiu tremer nos seus braços. Ele nunca tinha visto alguém tão frágil e isso irritou-o.
«Afastem-se.», Ladrou aos outros. «Vocês estão a agir como humanos estúpidos.»
Zangado pela crueldade, ele levou-a em direção das escadas.
«Eu não precisava da tua ajuda.» Grunhiu ela.
Mas ele notou que ela não se afastou. «Acredita, estou bem familiarizado com o teu à vontade para esfaquear e matar a sangue frio.»
Angelia tropeçou com aquelas palavras duras, que foram ditas com, uma bem merecida hostilidade. Era verdade. Ele estava desarmado quando o atacou e o entregou à mercê da sua família e da sua brutalidade.
Vergonha e horror trespassaram-na. «Porque me salvaste agora mesmo?»
«Sou um cão, lembras-te? Somos leais, mesmo quando é estúpido.»
Ela abanou a cabeça em negação. «És um lobo.»
«É a mesma coisa para muita gente.» Ele parou junto a uma porta e bateu.
Uma voz gentil disse para entrar.
Fury abriu a porta e empurrou-a para dentro. «Sou eu Bride. Ainda estou nu, por isso fico aqui fora. Esta é a Angelia. Ela não é muito fã de lobos, por isso pensei que ela preferisse ficar aqui contigo…se não te importares?»
Bride levantou-se da cadeira de balanço, onde embalava uma pequena criança nos braços. «Estás bem, Fury?»
Angelia reparou no seu rosto cansado e só podia imaginar o quanto ele devia estar a sofrer. Ainda assim, ele tinha vindo por ela…
Era espantoso.
«Sim» Disse em tom tenso. «Mas preciso de me deitar e descansar um pouco.»
«Vai dormir, querido.»
Fury pousou o olhar em Angelia e dirigiu-se a ela com uma hostilidade tão feroz, que a congelou até à alma. «Se a magoares. Basta olhares de lado de forma a ferir os seus sentimentos que, juro que te desfaço como se fosse a refeição de ontem, e nenhum poder teu ou de alguém te poderá salvar. Entendeste?»
Ela assentiu.
«Não estou a brincar.» Avisou novamente.
«Eu sei que não.»
Ele fez-lhe uma pequena vénia antes de fechar a porta.
Angelia virou-se para encontrar Bride a aproximar-se dela. Sem uma palavra, e ainda a agarrar a pequena criança, Bride passou ao seu lado e abriu a porta. Fury estava novamente em forma de lobo, deitado no corredor onde deve ter colapsado assim que fechou a porta.
Com uma expressão preocupada, Bride ajoelhou-se no chão e enterrou uma mão na branca plumagem. «Vane?»
Ele apareceu no corredor a seu lado.
«O que raio está ele a fazer aqui? Eu andava à procura dele lá em baixo?»
«Ele queria que vigiasse a Angelia.»
Vane olhou para Angelia e fez-lhe um esgar. «Porquê?»
«Ele disse que ela estava assustada e quis que eu ficasse com ela. O que se passa?»
O rosto de Vane suavizou assim que olhou para a sua companheira. O amor que ele sentia por ela era mais que óbvio e tocou fundo no coração de Angelia. Nenhum homem alguma vez olhou para ela com aquela ternura.
Ele afastou uma madeixa de cabelo do seu rosto, antes de baixar a mão para o cabelo do infante adormecido.
«Também não sei, amor. O Fury sempre falou mais contigo do que comigo.»
Ele voltou o olhar para Angelia e soou frio e letal. «Aviso-te já. Se alguma coisa acontecer com a minha companheira ou o meu filho, vou caçar-te e desfazer-te em tantos bocados que nunca os vão encontrar todos.»
Angelia ficou rígida. «Eu não sou um animal. Não caço a família das pessoas para me vingar.»
Vane grunhiu. «Oh rapariga, acredita. Os animais não matam ou atacam por vingança. Isso é exclusividade humana. Por isso, neste caso, é melhor agires como um animal e protegê-la com a tua vida. Porque é isso que eu vou tirar se ela aparecer com um corte de papel que seja.»
Angelia devolveu o olhar letal com um dos seus. Se ele pensava em atacá-la, ele ia descobrir que ela não era fraca. Ela era uma guerreira treinada e não cederia sem uma luta brutal.
«Sabes, estou a ficar cansada de ser ameaçada por toda a gente.»
«Não é uma ameaça. Só estou a constatar um facto.»
Angelia olhou para ele, e desejou saltar-lhe para a garganta. Se ao menos não estivesse a usar aquele colar.
«Então pessoal.» Disse Bride. «Já chega. Tu.» Disse ela a Vane. «Leva o Fury para a cama e toma conta dele.»
Ela levantou e encaminhou-se para Angelia. «Tu, segue-me e prometo que não serás ameaçada enquanto não fizeres algo para o merecer.»
Vane riu baixinho. «E tem em mente que, apesar de ela ser humana, perseguiu a minha mãe e enjaulou-a. Não deixes que a sua humanidade te engane. Ela pode ser tão cruel como qualquer um.»
Bride enviou no ar um beijo a Vane, enquanto passava a mão na cabeça do seu filho.
«Apenas quando tenho de te proteger e ao bebé Boo, querido. Agora coloca o Fuzzhead (cabeça de penugem, caçula) na cama. Ele vai ficar bem.»
Angelia afastou-se para permitir a Bride que indicasse o caminho de volta ao berçário. As paredes eram azul-bebé, decoradas com ursinhos de peluche e estrelas. Ela colocou a criança no berço branco e azul a condizer, antes de levantar as barras laterais.
Sentindo-se estranha, Angelia cruzou os braços sobre o peito.
«Que idade tem o teu filho?»
«Dois anos. Eu sei que deveria tirá-lo do berço, mas ele é um grande dorminhoco e eu não estou preparada para ele cair acidentalmente da cama. Tolice, não?»
Ela esboçou um sorriso perante a preocupação de Bride.
«Proteger a família nunca é tolice.»
«Pois não.» Murmurou Bride enquanto penteava o cabelo negro do bebé com a mão. Voltando-se, encarou Angelia. «Então, vais contar-me o que se passa?»
Angelia debateu-se sobre a sensatez de o fazer. Dizer-lhe que ela ajudou a raptar Fury e que depois não fez nada enquanto o seu grupo o torturava, não parecia ser muito inteligente. Seria suicídio, dada a natureza daquela “gente”.
«Não sei bem como te responder a isso.»
Bride semicerrou o olhar. «Então deves ser uma das pessoas que o magoaram.»
«Não», disse ela indignada. «Não o torturei. Não faria isso a ninguém.»
Bride levantou a cabeça desconfiada. «Mas deixaste que o fizessem.»
Ela era mais esperta do que Angelia supunha. «Mas detive-os.»
pensava ser possível, o facto de não ter intervindo mais cedo. Que tipo de pessoa ficava impassível enquanto alguém era brutalizado? Especialmente alguém a quem ela um dia chamou amigo.
Agora, por duas vezes na sua vida, ela permitiu que Fury quase morresse e nada fez para o proteger.
Ela não era melhor que os animais que odiava, e odiava essa parte dela ainda mais.
«Não estou orgulhosa disso, está bem? Devia ter feito alguma coisa mais cedo e eu sei disso. Mas impedi-os de lhe fazer mais alguma coisa.»
«Estás a racionalizar a tua crueldade.»
Angelia cerrou os dentes. «Não estou a racionalizar nada. Honestamente, eu só quero ir para casa. Não gosto deste período de tempo e não gosto de estar com os meus inimigos.»
Bride não lhe deu escapatória. «E eu não gosto do que fizeram ao Fury, mas enquanto não souber o que realmente aconteceu, não somos inimigas. A hostilidade é apenas da tua parte. Eu disse ao Fury que te faria companhia e é o que eu vou fazer. Nada de animosidade aqui.»
Angelia devolveu um olhar cortante à mulher e ao seu tom condescendente.
«Não fazes a mínima ideia de como me estou a sentir.»
«Oh espera…» Disse Bride com uma gargalhada sarcástica. «Eu estava na minha vidinha quando a Bryani enviou um demónio raptar-me e levar-me para uma aldeia da Inglaterra medieval, isto quando eu nem sequer sabia que isso era possível. Uma vez aí, toda a gente com quem mantive contato me ameaçava quando eu nada tinha feito a nenhum deles, nunca. E isso incluía Dare Kattalakis. Depois os homens da tua gente tentaram violar-me, apenas porque eu era a companheira de Vane…oh, espera, o que estou a dizer? Ainda não tínhamos concretizado o ritual. Eles estavam dispostos a atacar-me por nada mais do que ter a marca dele. Por isso, acho que tenho uma pequena pista sobre o que estás a sentir aqui. E em nossa defesa, não estás a ser manietada.»
Angelia aumentou a distância entre elas. O que Bride descreveu tinha acontecido há quatro anos. E apesar de ela não ter participado, ela soube por outros o mal que tentaram infligir à mulher diante dela, e isso também a deixou doente.
«Eu não estava lá quando te fizeram isso. Estava em patrulha. Só soube disso mais tarde.»
«Bem, sorte a tua. Foi bastante traumático para mim. E ao contrário da tua gente, posso assegurar-te que nem um só lobo desta casa te atacará, a menos que os provoques com alguma coisa que faças contra eles.»
Angelia bufou perante a arrogância e atrevimento. «Tu és humana. Como podes confiar a tua vida a animais? Não percebes o quanto são selvagens?»
Bride encolheu os ombros. «O meu pai é veterinário. Fui criada perto de todo o tipo de animais, selvagens e dóceis, emplumados, peludos, pequenos e outros. E honestamente, acho-os muito mais previsíveis que os humanos. Não dão punhaladas nas costas, mentem ou traem. Em toda a minha vida, nunca tive um animal que me magoasse ou me fizesse chorar por algo que tenham feito.»
«Considera-te sortuda.», desdenhou Angelia. «Eu vi a minha família toda ser comida viva pela mesma alcateia que está lá em baixo, na tua casa com o teu filho. O sangue dos meus pais escorria dos seus corpos pelas tábuas de madeira e ensopava-me, enquanto eu estava encolhida e aterrorizada de também ser despedaçada por deles.»
Ela olhou para o berço onde dormia o filho de Bride, ignorando pacificamente o perigo que corria devido à estupidez da sua mãe.
«Era apenas um ano mais velha que o teu filho quando aconteceu. Os meus pais deram a vida pela minha e eu vi enquanto o faziam. Por isso, desculpa se tenho dificuldade em acreditar em qualquer animal, exceto naqueles que estão presos ou mortos.»
«Realmente faz-nos pensar no que será que provocou os animais, não faz?»
Angelia virou-se para o som da baixa e profunda voz de trovão que lhe enviou calafrios pelo corpo todo. Mais alto que ela uma cabeça e ombros, este homem tinha uma má atitude, tão feroz que se desprendia de cada poro da sua pele.
Vestido todo de negro, usava calças, botas de motoqueiro Harley, e uma t-shirt de manga curta que deixava transparecer um corpo masculino perfeito. Tinha um brinco de prata com uma espada comprida no seu lóbulo esquerdo com um punho feito de caveiras e osso cruzados.
Enquanto a observava, os lábios torceram-se num esgar ainda mais detestável por causa da sua pera de bode. Cabelo liso preto que lhe chegava aos ombros, puxado para trás, descobriam um par de olhos azul brilhante.
Os seus movimentos duros e letais, lembrava-a um assassino a sangue frio. E quando ele olhou para ela, teve a sensação que lhe estava a tirar as medidas para o caixão.
Com o coração a bater desenfreado, olhou de relance para a sua mão esquerda. Cada dedo, incluindo o polegar, estava coberto por uma longa e articulada garra prateada, adornada com umas pontas tão afiadas, que eram obviamente a sua arma de eleição. Este homem gostava de descer baixo e sujar-se com as suas mortes.
Dizer que ele era psicótico era pouco para ele.
Instintivamente, ela recuou três passos.
Bride riu feliz assim que o viu, apesar de, obviamente, ele não ser bom da cabeça e provavelmente uma ameaça maior ainda que os lobos ao fundo das escadas.
«Z…o que raio estás a fazer aqui?»
Ele desviou aqueles olhos frios dela e focou-se em Bride. «A Astrid queria que eu visse como está o Sasha. Aparentemente, alguma coisa má se passou ontem no Santuário e ela está preocupada com a segurança dele.»
Os olhos de Bride abriram-se. «Então o que sabes?»
Ele lançou um olhar desconfiado a Angelia, que fez o sangue gelar.
«Alguns Arcadianos encontraram uma forma para prender os Katagaria na sua forma animal e despojá-los de toda a magia. O Sasha disse que os responsáveis atacaram Fury e ninguém o viu desde então. Daí a minha presença não anunciada aqui e sem o companheiro de brincadeira de Trace. Se o Sasha está em perigo, a Astrid fica triste. Se a Astrid fica triste, eu mato tudo o que a estiver a entristecer, até ela ficar feliz outra vez. Então, onde está Fury?»
Dito por qualquer outro homem, aquilo poderia parecer uma anedota, mas Angelia não duvidava, por um instante que fosse, que Z tinha intenção de cumprir a ameaça. Especialmente pela forma como fletia as garras na sua mão.
«Uau, Zarek.» Disse Bride devagar, os olhos a brilhar divertidos. «Acho que esta foi a maior quantidade de palavras que me disseste numa só visita. Talvez mais do que todas as visitas juntas. Estou impressionada. Quanto a Fury, acho que te devo dizer que ele não é um dos que entristeceu Sasha, por isso, por favor, não o mates. Iria sentir a falta dele. Ele estava ferido com gravidade e desmaiou assim que chegou a casa.»
Ele praguejou de forma tão suja, que Angelia até corou.
Zarek estreitou o olhar na sua direção. «E ela? Ela sabe alguma coisa?»
Pelo tom com que o disse não era uma pergunta. Era uma inegável ameaça.
Angelia endireitou-se e ficou tensa, pronta a lutar se fosse necessário.
«Eu sou uma Aristos. Acho que não queres meter-te comigo.»
Ele bufou perante a sua audácia.
«Como se eu me importasse. Querida, eu sou um deus, por isso no panorama geral, se eu quisesse arrancar-te a cabeça e usá-la como uma bola de bowling, não haveria muita gente que me pudesse impedir, e os que poderiam, têm demasiado medo de mim para sequer tentar.»
Ela tinha a sensação de que ele não estava a brincar.
«Zarek.» Disse Bride num tom de recriminação. «Acho que ao torturá-la não vais conseguir a informação que queres.»
Um lento e sinistro sorriso curvou aqueles belos lábios. «Sim, mas podia ser divertido. Eu digo para experimentarmos para ver.» Ele avançou um passo.
Bride colocou-se à frente dele. «Eu sei que queres agradar à tua mulher, e realmente aprecio isso, mas eu disse ao Fury que ela ficaria em segurança. Por favor Z, não me faças passar por mentirosa.»
Ele grunhiu profundamente e pela primeira vez Angelia sentiu respeito por Bride, que não vacilou debaixo do violento escrutínio dele.
«Está bem Bride. Mas quero saber o que se passa, e se tenho de ficar aqui sem a minha mulher e filho por muito tempo…digamos que não iria ser bom para nenhum de vocês. Onde está Vane?»
«Com o Fury. Primeira porta à direita.»
Ele fletiu as garras antes de se virar e sair. Ele pensou em bater a porta, depois olhou de relance para trás, para a criança adormecida e mudou de ideias. Fechou-a sem barulho.
«Obrigada», disse Angelia assim que ficaram sozinhas.
«De nada.»
Ela esfregou os braços com as mãos, num esforço para dispersar os calafrios que a presença dele tinha deixado. «Ele é sempre assim?»
Bride tapou o bebé com uma pequena manta azul. «Por acaso, disseram-me que ele está muito melhor agora. Quando o Vane o conheceu, ele era suicida e psicótico.»
«E achas que ele mudou…como?»
Bride sorriu. «Bem visto, mas acredites ou não, quando ele trás o filho para brincar com o meu, ele é mesmo muito meigo com os dois.»
Isso ela pagava para ver. Ela não conseguia imaginar alguém tão insano a ser paternal e gentil.
Tirando Zarek dos seus pensamentos, Angelia caminhou até à janela para olhar a rua. Era tão diferente da sua casa. Mas ela sabia que Dare e Óscar estariam à procura dela. Dare era um dos melhores caçadores da sua gente. Ela não devia ter dificuldade nenhuma em encontra-la e trazer ajuda.
Que os deuses tivessem piedade daquela alcateia quando eles chegassem…
«Então…», disse Bride, deixando a voz arrastar-se um pouco. «Podes dizer-me que arma é essa que vocês inventaram?»
Angelia não falou. A arma era de génio, e era algo que morreriam para proteger. Com ela, provaram que a humanidade estava no topo da cadeia alimentar.
Nenhum dos animais Katagaria seria capaz sequer de a desenhar. Era a única coisa que a poderia proteger deles para sempre.
«Realmente faz-nos pensar no que será que provocou os animais, não faz?» As palavras de Z atormentavam-na. Honestamente, ela nunca tinha pensado nisso. Tudo o que lhe haviam dito era que o ataque não tinha sido provocado nem merecido.
Ela não tinha motivos para duvidar disso.
Mas e se não tivesse sido bem assim?
«Porque é que a Bryani te atacou?», perguntou a Bride.
«Ela alegava que estava a tentar salvar-me de ser emparelhada com o monstro do filho. Pessoalmente, eu achei que ela era um bocado maluca.»
Isso era um facto indiscutível. Bryani era a filha do líder deles. Como tal, a sua história era conhecida por toda a gente. Era a história com que as mães do seu povo assustavam as crianças mal comportadas. Apesar do que os Katagaria fizeram aquela pobre mulher, era espantoso que ela ainda tivesse alguma réstia de sanidade.
«Eles mantiveram-na presa e violaram-na repetidamente. Sabias disso?»
A expressão de Bride tornou-se triste e compreensiva. Era óbvio que a tragédia de tudo aquilo não lhe era desconhecida. «Só o pai de Vane fez isso, mas sim. O Vane contou-me tudo sobre a sua família.»
«E ele alguma vez disse porque nos atacaram aquela noite?»
Bride franziu o sobrolho. «Não sabes?»
«Nós temos teorias. Pensamos que os lobos deviam estar famintos e que o cheiro dos nossos mantimentos os tornou predadores sedentos de beber o nosso sangue. Mas não, ninguém sabe porque eles nos atacaram.»
Bride estava atónita com as palavras dela. A sua expressão passou de incredulidade para desgosto. «Oh, eles sabem exatamente porque o fizeram. Eles só não querem que mais ninguém saiba. Aqueles cães mentirosos…»
Agora era a vez de Angelia  ficar perplexa. «Do que estás a falar?»
Quando Bride respondeu, o seu tom era recheado de raiva e desdém. «Nenhum macho da tua alcateia confessou o que fizeram?»
«Nós fomos vítimas inocentes.»
«Sim, e eu sou a fada dos dentes. Acredita em mim. O ataque foi provocado.» Bride abanou a cabeça. «Sabes, vou dizer-te uma coisa, ao menos os Katagaria admitem o que fazem. Não mentem para encobri-lo.»
«Bem, se sabes tanto, por favor esclarece-me sobre o que aconteceu.»
«Está bem. Os Katagaria tinham um grupo de fémeas grávidas e impossibilitadas de viajar.»
Isso era comum tanto para Katagaria como para Arcadianos. Assim que uma fémea ficava grávida, não podia mudar de forma nem usar os seus poderes para se teletransportar, não enquanto as crianças ou as crias não nascessem.
Bride cruzou os braços sobre o peito.
«Uma vez que estavam na Inglaterra medieval quando as fêmeas conceberam, os machos levaram-nas para os bosques, longe das pessoas e das suas aldeias, de forma a manter a toca segura. Ficaram aí durante várias semanas sem problemas. Depois, uma noite, os machos saíram para caçar. Eles encontraram veados e estavam a persegui-los quando dois dos lobos caíram em armadilhas.»
«O pai de Vane, Markus, assumiu a forma humana para libertar os lobos presos e enquanto o fazia, um grupo de machos Arcadianos aproximou-se, os mesmos que tinham montado a armadilha. O Markus tentou explicar que não lhes iam fazer mal, mas antes que o fizesse, os Arcadianos mataram os lobos na armadilha, depois atiraram setas aos outros. Em inferioridade numérica, os lobos voltaram para o ninho onde se deram conta que as mulheres e as crianças haviam desaparecido.»
Angelia engoliu em seco, enquanto um mau pressentimento a trespassou.
«Os lobos seguiram o rasto do cheiro até ao acampamento de Bryani, onde encontraram os restos da maioria das suas mulheres. Elas foram massacradas e as suas peles estavam penduradas a curtir. Algumas das crias ainda estavam vivas, mas enjauladas. Então os lobos esperaram que anoitecesse…Ao crepúsculo, um grupo de Katagaria atraíram os machos Arcadianos para fora do acampamento, para que os outros pudessem libertar as mulheres e crianças que restavam.
O pai de Bryani e outros atacaram-nos e aconteceu a luta de que te recordas.»
Angelia abanou a cabeça em negação. «Mentes. Eles atacaram sem provocação. Não havia motivo para o que eles fizeram. Nenhuma.»
«Querida», disse Bride em tom gentil, «tu não sabes o que realmente aconteceu, assim como eu. Só te posso dizer aquilo que a alcateia de Vane me contou sobre o acontecimento. Honestamente, acredito neles por várias razões. A primeira, eles não têm fémeas daquela idade. Alguma coisa aconteceu que as matou. E agora, cada macho da alcateia com mais de quatrocentos anos é excessivamente protetor com as fémeas grávidas. Eu estive com eles nos últimos quatro anos e nunca os vi serem agressivos para ninguém, a menos que eles ou a alcateia se sintam ameaçados. E nunca vi um deles mentir. Pelo contrário, são brutalmente honestos.
Angelia ainda se recusava a acreditar. «A minha gente nunca atacaria mulheres e crianças.»
«Eles tentaram atacar-me.»
«Em retaliação.»
«Por quê? O Vane não lhes fez nada e eu de certeza também não. Nenhum macho de toda a tua gente, incluindo o vosso líder, o próprio avô de Vane, veio em minha defesa. Nenhum. Mas digo-te uma coisa. Se alguém ou alguma coisa vier a esta casa ameaçar-me, não há um único lobo, dos que estão lá em baixo, que não daria a vida para me manter segura. E isto também é válido para qualquer fémea da alcateia.»
O bebé acordou e começou a chorar pela mãe.
Bride deixou-a e agarrou-o. «Está tudo bem Trace. A mamã está aqui.»
Ele deitou a cabeça no seu ombro e esfregou os olhos. «O papá?»
«Ele está com o tio Fury e o tio Z.»
O rapaz animou-se instantaneamente. «O Bob brincar com Trace?»
Ela sorriu indulgentemente. «Não, querido. O Bob não veio com o tio Z desta vez. Desculpa.»
Ele fez beicinho até ver Angelia. Depois ficou tímido e enterrou a cabeça no ombro de Bride.
Bride beijou-lhe a bochecha. «Trace, esta é a Angelia. Podes dizer olá?»
Ele saudou-a com a mão, mas sem olhar para ela.
Apesar disso, Angelia estava estranhamente encantada com o pequeno rapaz. Ela sempre adorou crianças e tinha esperança de um dia ter uma ninhada dela. «Olá Trace.»
Ele espreitou na segurança do ombro da mãe. Depois murmurou ao ouvido de Bride enquanto a mãe lhe esfregava as costas afetuosamente.
Nesse momento, uma memória reprimida atingiu-a. Era algo em que ela não pensava há séculos. Fury e outros rapazes magoaram-se quando subiam uma árvore. Eles esfolaram as mãos e os joelhos e correram para as mães em busca de conforto. Fury tinha partido o braço. A chorar, foi ter com a mãe também. Mas quando encontrou Bryani, ela enxotou-o zangada.
O tio de Angelia começou a confortar Fury, mas Bryani impediu-o com um grunhido feroz. «Não te atrevas a confortar esse rapaz.»
«Mas ele está ferido.»
«A vida é dor e não há conforto para isso. Quanto mais cedo Fury aceitar isso, melhor. Deixa-o aprender já que a única pessoa de quem ele vai depender, é dele mesmo. Ele partiu o braço porque foi estúpido. Agora aguente.»
O tio dela ficou escandalizado. «Ele é só uma criança.»
«Não. Ele é a minha vingança e um dia vou jogá-lo contra o próprio pai.»
Angelia estremeceu com a memória. Como é que ela o pode esquecer? É certo que Bryani nunca foi uma mãe carinhosa, então porque é que este momento ficou na sua memória mais marcado do que todos os outros em que ela foi fria com os filhos? Era por isso que Dare era tão frio para toda a gente à sua volta. Ele passou a vida a tentar conseguir a aceitação da mãe.
E essa era a única coisa que ela era incapaz de dar aos seus filhos.
«Sabe bem ser abraçado?» Ela ainda podia ouvir o tom desconcertado com que Fury perguntou. Era o seu décimo quarto aniversário dela e o seu tio abraçou-a antes de permitir que ela fosse brincar com Fury.
«Já foste abraçado Fury.»
Ele abanou a cabeça. «Não, não fui. Pelo menos, não que eu me lembre.»
Ela tentou lembrar-se de algum momento em que alguém o tivesse abraçado, mas verdade seja dita, ela não conseguia lembrar-se de nenhuma. De coração partido, ela colocou os braços à volta dele e deu-lhe o primeiro abraço.
Em vez de a abraçar de volta, ele ficou parado com os braços ao longo do corpo. Rígido. Imóvel. Sem respirar. Como se tivesse medo que ao mover-se, ela o pudesse magoar ou abandonar.
«Então?», perguntou, depois de o largar.
«Cheiras bem.»
Ela sorriu. «Mas gostaste do abraço?»
Ele caminhou em direção a ela e roçou a cabeça contra o ombro dela, em jeito de lobo, até que ela o abraçou outra vez. Só então ele parou de se mexer.
«Eu gosto dos teus abraços Lia.»
Depois ele fugiu e escondeu-se dela durante três dias.
Ele nunca mais lhe permitiu que o abraçasse ou tocasse outra vez.
Mesmo com todos os segredos que partilhavam. Mesmo quando ela chorava. Ele nunca a tocou. Só lhe estendia um lenço para enxugar os olhos e ouvia-a até que se sentisse melhor. Mas nunca se aproximou o bastante para tocá-la outra vez.
Até hoje, quando a protegeu dos outros lobos.
Porque é que ele fez isso?
Não fazia sentido. Ele era um animal. Nojento. Brutal. Violento. Não havia nada que abonasse a seu favor. No entanto, ela não conseguia apagar as imagens do seu passado.
As vezes em que Fury, o animal, estava mais próximo dela que qualquer outra pessoa.
«Sou uma Sentinela, Fury!» Tinha descoberto as marcas ao acordar e escapuliu-se para fora da tenda ao amanhecer para encontrar Fury na margem do rio para onde havia ido dormir. Era um estranho costume que ela não entendia na altura. Só mais tarde soube que ele dormia lá porque era um lobo e tinha medo que a sua família descobrisse o seu segredo.
Ele sorriu abertamente. Ao contrário dos outros machos que tiveram inveja quando descobriram que ela havia sido escolhida, Fury ficou genuinamente feliz por ela.
«Já contaste ao teu tio?»
«Ainda não. Queria que tu fosses o primeiro a saber.»
Ela virou a cabeça para lhe mostrar as marcas suaves que ainda não estavam completamente formadas.
«Achas que ficarei bonita quando as marcas se preencherem?»
«Tu és a mais bonita wolfswan aqui. Como podem as marcas alterar isso?»
Ela ia abraça-lo, mas ele afastou-se antes que o fizesse.
Apesar de ela dizer a si própria que ele não era mais do que um animal, a verdade era que, ela amava-o. E sentiu horrivelmente a sua falta.
Agora ele estava de volta.
E nada tinha mudado. Ele continuava um animal, e ela estava aqui para matá-lo ou mutilá-lo, de forma a ele ser incapaz de magoar outro ser humano outra vez.

Capítulo 4

Fury acordou lentamente, o corpo dorido. Por um momento, ele pensou que ainda estava preso na forma humana. Mas ao piscar os olhos para despertar, ele respirou de alívio. Ele era um lobo e estava em casa.
Ele esfregou o focinho nos lençóis com cheiro a lilases. A Bride costumava perfumá-los com água-de-colónia quando fazia a cama. Normalmente odiava o cheiro, mas hoje era o paraíso.
«Como te sentes?»
Ele levantou a cabeça e encontrou Vane encostado à parede, a olhar para ele.
Voltando à forma humana, ele estava grato por Vane o ter colocado debaixo dos lençóis.
«Estou bem.»
«Pareces uma merda.»
«Sim, bem, também não saía contigo, cretino.»
Vane deu uma curta gargalhada. «Deves sentir-te melhor. Voltaste ao teu mau humor habitual. E por falar em mau génio, o Zarek está cá. Ele quer falar contigo quando estiveres de pé e preparado.»
Porque queria um ex-predador-da-noite-agora-deus falar com ele?
«O que é que ele quer?»
«Ele inteirou-me sobre o que se passou no Santuário. Eles cancelaram a celebração e fecharam o espaço enquanto não descobrirem tudo sobre este novo ataque. Ninguém entra ou sai.»
«Ainda bem. Onde está a Angelia?»
«Está no berçário e recusa-se a sair. Acho que ela espera que a gente dela a consiga rastrear e a liberte dos animais.»
Fury grunhiu com a ideia. «Nah, certamente está a planear o meu desmembramento.»
Sentando-se, ele respirou fundo antes de se levantar e tirar as roupas da gaveta da cómoda.
«Tu sabes que eu posso vestir-te.»
Fury bufou perante a oferta do seu irmão. «Não preciso da tua ajuda.»
«Então, com essa nota, vou descer e jantar.»
As orelhas de Fury endireitaram-se. «O que fez a Bride?»
«Sobras de peru e presunto.»
«Puré de batata?»
«Claro. Ela sabe o quanto gostas.»
Aquilo fez o estômago rugir de fome. Fury debateu-se se devia ir jantar ou ver Angelia. Ele estava mesmo esfomeado…mas…
«Guarda-me algum.»
Vane inclinou a cabeça. «Nem me ocorreria pensar o contrário. Ah, e Fang está mortinho por saber se a Aimee recebeu o bilhete.»
Ele vestiu as calças. «Eu entreguei-o em mão ao Sasha. Por isso, acho que o deve ter, a não ser que o Dare tenha comido o Sasha antes de ele cumprir a missão.»
«Duvido. O Z estaria de muito mau humor se isso tivesse acontecido. Eu digo-lhe.» Vane saiu do quarto.
Fury acabou de se vestir, depois saiu para ver Angelia. Bateu à porta antes de abrir e encontrá-la sentada na cadeira de baloiço com as costas contra a parede.
Ela endireitou-se como se tivesse estado a dormitar.
Raios, ela era a coisa mais sexy que tinha visto. Especialmente com os lábios entumecidos pelo sono.
Ela quase sorriu antes de estacar assim que se recordou que não era suposto ser simpática com ele.
«O que queres?»
«Queria ter a certeza de que estavas bem.»
Ela cerrou os dedos nos braços da cadeira.
«Não, não estou bem. Estou presa aqui com animais, que ambos sabemos que odeio. Como posso estar bem com isso?»
Ele olhou-a divertido. «Sim, bem, ninguém te está a bater. De onde estou, pareces-me perfeitamente bem.»
Angelia afastou os olhos daquele penetrante olhar e tentou não focar-se no quanto ele estava bonito. No quanto aqueles olhos azul-turquesa eram belos…
Mais quanto mais tempo ele ali ficava, mais difícil era lembrar-se de que ele não passava de um animal como aqueles que a ameaçaram lá em baixo.
Ele entrou no quarto.
Ela recuou, de forma a manter a distância entre eles. «Afasta-te»
«Eu não vou magoar-te…»
A voz dele tornou-se arrastada e os olhos perigosamente dilatados.
Angelia engoliu em seco ao reconhecer que o seu pior receio se manifestou.
Ele sentiu-lhe o cheiro. Aterrorizada, ela recuou até à parede e preparou-se para lutar até um deles morrer.
Fury não se conseguia mexer enquanto uma luxuria crua se apoderava dele. O seu corpo ficou instantaneamente duro, era tudo o que podia fazer para não atacá-la. Não admirava que ela se tivesse trancado neste quarto.
«Estás no cio.»
Ela agarrou no mealheiro de metal, em forma de porco, de Trace e estava pronta a atirá-lo.
«Afasta-te de mim.»
Isso era bem mais fácil de dizer do que fazer, uma vez que cada partícula dele estava sintonizada nela de uma forma que era virtualmente irresistível. O lobo nele salivava com o cheiro dela e não queria mais nada do que atirá-la ao chão e montá-la.
Felizmente para ela, ele não era o animal que ela pensava que era.
Aproximou-se dela lentamente. «Eu não vou tocar-te.»
Ela atirou o mealheiro à sua cabeça.
Ele apanhou-o com uma mão e voltou a colocá-lo no lugar onde estava.
«Eu não estou a brincar Fury.», grunhiu ela.
«Nem eu. Eu disse-te que não te magoaria e não tenho nenhuma intenção de faltar com a minha palavra.»
O olhar dela caiu sobre o volume nas suas calças. «Eu não vou acasalar contigo de livre vontade. Nunca.»
Aquelas palavras magoaram-no mais do que deveriam.
«Acredita, querida, não vales os arranhões. Ao contrário dos bastardos Arcadianos a que estás habituada, não preciso de forçar uma mulher a ir para a cama comigo. Senta-te e apodrece a ver se eu me importo.»
Ele saiu e bateu com a porta.
Angelia não se moveu durante vários assustadores bater de coração à espera que ele regressasse. Mas ele tinha ido embora e ela estava segura…esperava.
Uma e outra vez, ela ouviu as histórias na sua cabeça sobre como os Katagaria tratavam as fêmeas quando estavam com o cio. Se não estivessem emparelhadas, as mulheres eram entregues aos machos não emparelhados da alcateia, e iam-nas passando até que ficassem satisfeitos.
A mulher não tinha voz ou voto no assunto.
«São animais.», grunhiu ela, amaldiçoando o facto de estar em período fértil e estar presa com eles. «Onde estás tu, Dare?»
Como em resposta, uma luz encadeou-a.
Ficou tensa assim que se apercebeu que não era Dare para a salvar.
«Era Fury. Com os olhos a brilhar com raiva, ele aproximou-se dela. Um verdadeiro predador curvou-se perante sabe os deuses o quê.
«Não me toques!», gritou-lhe ela.
Ele agarrou-lhe a mão e segurou-a. «Sabes uma coisa? Vou ensinar-te uma lição muito valiosa.»
Antes que ela pudesse perguntar o quê, ele teletransportou-os para fora do berçário para a sala de jantar.
Angelia entrou em pânico assim que percebeu que a sala estava cheia com oitos lobos machos na forma humana. Pelos seus odores, ela sabia que eles não eram emparelhados, tal como Fury.
Com o coração a martelar, ela tentou fugir, mas Fury não a deixou. Bloqueando a fuga, ele rapidamente colocou a roupa.
«Tu vais sentar-te e vais comer», disse ele num grunhido baixo e saído da garganta. «Como uma humana educada», cuspiu a palavra como se fosse a coisa mais baixa imaginável.
Como ela desejava ter os seus poderes para o fazer explodir e fazê-lo pagar por isto.
Sem dúvida, ela seria o prato principal e ele provavelmente segurá-la-ia enquanto os outros a violavam.
Fury levou-a para junto da mesa, para o lado direito de Bride, onde um jovem e bonito wolfswan estava sentado. Os olhos escureceram assim que lhe apanhou o odor. Angelia preparou-se para o ataque.
Com os olhos pretos e dilatados, ele levantou-se lentamente. Era agora….
Ele ia atirá-la ao chão para proveito de todos eles.
Assim que teve a certeza que o faria, ele inclinou a cabeça respeitosamente a Fury, pegou no prato e copo e saiu para se sentar noutro canto da mesa.
Fury sentou-a na cadeira vaga.
Bride, que estava a observar curiosa, suspirou ruidosamente. «Depreendo que os dois se vão juntar a nós.»
Fury assentiu. «Vamos»
Um wolfswan ainda mais jovem, sentado do outro lado da mesa, levantou-se imediatamente, fazendo Angelia encolher-se. «Vou buscar pratos para eles.»
Bride sorriu amavelmente. «Obrigada Keegan.»
Magro e louro, ele praticamente correu para a outra sala para logo regressar com louça chinesa e talheres de prata. Estendeu o serviço a Fury, depois voltou-se para Angelia. «Queres que eu te sirva?»
«Senta-te Keegan», ladrou Fury.
Ele colocou rapidamente o prato em frente dela e voltou para o seu lugar.
Havia tanta tensão naquela sala que Angelia quase a conseguia provar. Ignorando, Fury colocou comida nos pratos e depois colocou um em frente dela.
«Tio Furry!»
Ela levantou o olhar para ver Trace entrar na sala com Fang. A criança correu de Fang para Fury, que o envolveu e lhe deu um abraço apertado.
«Olá miúdo». Apertou-o ainda mais, enquanto o menino ria de alegria.
«O Trace atingiu o alvo!»
Fury riu, o rosto a suavizar-se numa expressão que ela conhecia tão bem da juventude de ambos…antes de serem inimigos. «Ainda bem que eu não estava aqui para o treino do penico. Bom trabalho Fang.»
Trace retorceu-se para se libertar de Fury e correu para a mãe. «Trace acertou em três patos, mamã.»
«Que maravilha, querido. Bom trabalho.», ela agarrou-se e colocou-o no colo.
Os olhos de Fang abriram-se assim que se aproximou deles e, também ele, sentiu o odor. Ele inspirou ruidosamente, antes de se sentar ao lado de Fury.
«Lamento que tenhas perdido a Ação de Graças esta tarde.»
Fury colocou mais puré de batata no prato. «Pois, eu também.»
Angelia não percebia porque é que isso o deixava triste. «Ação de Graças?»
Fury olhou-a enquanto cortava um pedaço de peru. «É um feriado Americano. Todos os anos eles reúnem a família para dar graças pelas suas vidas e por estarem juntos.»
«É por isso que os lobos estão cá.», disse Bride. «Os emparelhados foram mais cedo para casa, com as respetivas esposas. Por tradição, os não emparelhados ficam aqui a jantar e fazem maratonas de torneios de jogos.»
Outra vez, ela não fazia ideia do que eles estavam a falar. «Torneios de jogos?»
«Jogos de vídeo.», disse Keegan.
Fury bufou para o entusiasmado jovem lobo. «Ela é da Inglaterra medieval miúdo. Ela não faz ideia do que estás a falar.»
«Eu posso mostrar-te.»
Fang rebolou os olhos. «Menos rapaz. As mulheres Arcadianas comparam-nos a bestas.»
Com uma expressão de sofrimento, Keegan voltou para a comida e não se incomodou em olhar para ela outra vez.»
Um dos machos mais velhos na mesa empurrou o prato. «Perdi o apetite. Obrigada Bride, pela comida.», ele olhou para Vane. «Precisas que eu fique pata ajudar a proteger a tua casa?»
«Gostaria muito que o fizesses. Nós ainda não sabemos quantos estão habilitados a usar o que quer que seja que atingiu o leão.»
Ele inclinou a cabeça antes de se dirigir à sala de estar.
Dois dos outros juntaram-se-lhe.
Fang passou a cesta do pão a Fury. «Então, Kegg, tens praticado “Soul Calibur?”»
Keegan sorriu. «Vais levar uma abada, amigo. Desta vez não vou ficar sem vidas.»
Vane riu-se. «Cuidado Keegan, ele está a preparar-te uma armadilha. O Fang sabe todos os movimentos especiais de metade dos personagens.»
O tema desencadeou uma conversa sobre um assunto que Angelia não percebia, mas enquanto eles conversavam e brincavam uns com os outros, ela relaxou.
Estranho, eles não pareciam assim tão animalescos…
Pareciam quase humanos.
Trace, lentamente, saiu do colo da mãe e contornou a mesa passando pelo colo de todos os que estavam dispostos a segurá-lo por um bocadinho. Quando chegou a Fury, parou junto às suas pernas e aproximou-se dela.
«Tu tens desenhos na cara como o meu pai às vezes.»
Ela corou assim que se apercebeu que isso atraiu novamente a atenção de todos os lobos para ela.
O lobo do outro lado de Keegan suspirou profundamente.
«Raios mulher, para de entrar em pânico sempre que olhamos para ti. Nós não vamos atirar-te ao chão e…»
Ele parou assim que olhou para Trace. «…fazer aquilo que tu pensas. Sim, nós sabemos o que se passa contigo. E não, nós não fazemos isso às mulheres.»
Bride agarrou Trace dos braços de Fury. Ela deu-lhe um rolinho a comer, enquanto dirigia a atenção a Angelia.
«Eu sei que não sabes os costumes Katagaria. Quando uma mulher está…» Ela fez uma pausa e olhou para o bebé antes de continuar. «…na tua condição,  seleciona o macho que quer. Se ela não conseguir decidir, eles lutam e normalmente, ela fica com o vencedor, e se ele não a satisfizer, escolhe outro. Mas a escolha é sempre da mulher. Os machos dão a lealdade e a vida às suas mulheres. Uma vez que a sua sobrevivência depende da capacidade de procriação, isso está enraizado neles.»
Assim que Bride começou a levantar-se, Keegan agarrou em Trace. «Precisas de alguma coisa?», perguntou-lhe ele.
«Vou só à casa de banho, querido.» Ela deu-lhe uma palmadinha no braço quando passou por ele.
Angelia olhou para Fury enquanto ele ignorava a sua presença.
Foi por isso que ele nunca a tocou? Pensando bem, ela lembrava-se que ele sempre tinha sido mais respeitador para a mãe, irmã e mesmo para ela, do que Dare. Sempre preocupado com elas e com o seu bem-estar. Se elas precisassem de alguma coisa, ele estava ali para elas.
«Porque me trouxeste para aqui?», perguntou-lhe ela.
Ele engoliu a comida antes de falar. «Eu quero saber que arma é aquela.»
A atenção de todos focou-se nela e todos os pelos do seu corpo se arrepiaram em alerta. Eles estavam prontos a atacar e ela estava a ter dificuldade em controlar o pânico.
«Já tivemos essa discussão», disse ela entre dentes. «Podes torturar-me o quanto quiseres, mas não te vou dizer nada.»
Vane riu. «Os Katagaria não torturam…matam.»
Dois dos lobos mais velhos levantaram-se. «Então matamo-la?», perguntaram em uníssono, sem uma pinga de emoção na voz.
«Não», disse Fury. «Eu dei-lhe a minha proteção.»
«Ah». O mais jovem dos que tinham falado agarrou no prato e levou-o para a cozinha.
Bride voltou para a mesa e sentou-se na sua cadeira.
Um por um, todos os homens saíram, exceto Vane, Fury, Fang e Trace.
«Que aconteceu ao Zarek?», perguntou Fury.
Fang girou o vinho no seu copo, uma atitude que lhe pareceu muito humana.
«Ele e Sasha foram a caçar o Dare.»
«Espero que eles não o matem antes de mim.»
«Ele é teu irmão», relembrou-lhe Angelia.
Fury dirigiu-lhe um olhar cortante. «Deixa-me explicar-te uma coisa, querida. Quando Fang e Anya descobriram que Vane era humano, eles protegeram-no do nosso pai. Se ele estivesse ferido ou a dormir, eles guardavam-no na forma humana por turnos, para terem a certeza que ninguém descobria o seu segredo. No instante em que Dare descobriu que eu era lobo, ele chamou toda a gente para me matar. Eu acho que devo retribuir-lhe o favor em dobro. Pelo menos ele é um homem adulto, não um adolescente que não tinha maneira de se proteger de guerreiros mais velhos e mais fortes.
«Ele tem também uma arma injusta. Acho que lha devíamos tirar e…» Fang fez uma pausa quando olhou para Trace. «…coloca-la num local realmente desconfortável.»
O olhar de Fury não se desviou dela. «Eu queria colocá-la no mesmo sítio onde ele queria colocar a barra de ferro em brasa.»
Angelia abanou a cabeça perante tamanha brutalidade. «Todos vocês sabem que manter-me aqui é uma declaração de guerra.»
«Fury levantou uma sobrancelha. «Como?»
«Vocês são lobos, a manter refém um membro de outra pátria.»
Vane bufou. «E eu sou o Regis da vossa pátria. Ausente, verdade, mas eu sou o líder dos Lykos Kattalakis Arcadianos. Assim sendo, estás sob a minha governação. Para declarar guerra a Fury e à alcateia Katagaria têm de requerer a minha autorização, o que eu nunca darei.»
«Então perdoas o seu comportamento?»
«Pela primeira vez no nosso relacionamento, e por mais assustador que esse pensamento seja…sim. E como Regis, eu quero saber que arma é que usaram no leão. Se não me disseres, serás julgada e tu sabes o que os membros do conselho Katagaria vão exigir como punição.»
A vida dela. Não sem antes ser espancada. Uma vez Regis, especialmente um que governa a tua gente te exige alguma coisa, somos compelidos a dar-lhe o que quer.
Ela nunca odiou essa lei tanto como agora. «Nós chamamos-lhe Pulso»
Fury franziu o sobrolho. «Que raio é isso?»
«Manda pequenas descargas elétricas. Não demasiado que nos faça saltar entre formas, mas o bastante para nos manter presos na nossa forma original.»
Bride suspirou. «Como o colar que trazes?»
Ela assentiu. «Só que o Pulso é permanente.»
Fang abanou a cabeça. «Não pode ser. Se funciona com impulsos elétricos, tem de ter uma bateria.»
«Ele usa os químicos corporais para se recarregar.»
Vane ficou doente só de imaginar. «Não se pode retirar?»
«É demasiado pequeno para se ver. Não há ferimento de entrada e assim que entra no corpo não há forma de o localizar.»
Fang assentiu. «Foi o que o Carson também disse.»
Bride gesticulou horrorizada. «Quem inventaria uma coisa dessas?»
«Uma Pantera no ano 3062», disse Angelia com um suspiro. «Ele está agora a vendê-la pela melhor oferta.»
«Porquê?», perguntou Vane. «Nós não precisamos assim de tanto dinheiro.»
Fury fulminou-o com um olhar zangado. «Vane, estás a pensar como um de nós. A Pantera é Arcadiana. Pensa como humano por um minuto. A ganância é o deus deles.»
Angelia também estava a começar a perceber as diferenças.
Vane olhou para Fury. «Tu devias levá-la ao leão no Santuário. Deixa-a conhecer a companheira dele, que já não consegue comunicar com ele. Ou melhor ainda, deixa-a conhecer os filhos dele, que nunca vão saber o quanto o pai os ama. Nunca vão ouvir a voz dele a dizer-lhes o quanto está orgulhoso. Ou avisá-los dos perigos. Realmente, fizeram um bom trabalho. Não posso estar mais orgulhoso da vossa brutalidade.»
Angelia recusou-se a sentir-se intimidada por ele. Ela sabia a verdade.
«Os animais não fazem isso.»
Fury engasgou-se com a comida antes de fixá-la ferozmente. «Claro, eu nunca te disse nada parecido, pois não?»
Ele levantou-se e limpou a boca. «Sabes uma coisa? Olhar para ti põe-me doente. Eu lembro-me de uma rapariga que costumava preocupar-se com os outros. Alguém que dava às pessoas o benefício da dúvida antes de os atacar. Mas é óbvio que ela morreu. Quero-te fora daqui antes que acabes por destruir as poucas boas memórias que tenho dessa rapariga.»
Ele arrancou-lhe o colar do pescoço e saiu da sala.
Atónita, Angelia ficou ali, incapaz de acreditar no que tinha acontecido.
Ela estava livre…
«Tio Furry?» Trace olhou para a mãe. «Mamã, porque é que o Furry está zangado?»
«Tem os sentimentos feridos, querido. Ele vai ficar bem.»
Vane encontrou o olhar perplexo de Angelia. «És livre para ir embora. E devo avisar-te, os leões andam à procura de sangue. O tipo que lixaram…o irmão é Paris Sabastienne, e vocês mataram-lhe o irmão mais novo. Enquanto que, por regra, os animais não são grande coisa em vingança, pelo contrário, são ótimos a proteger a família. Vocês atacaram-nos sem provocação e eles tencionam massacra-vos a todos quando vos encontrarem, de forma a impedir que façam isto a mais algum membro da família. Vocês são as presas. Boa sorte.»
Angelia engoliu em seco com o pânico. «Mas eu não o matei.»
Fang encolheu os ombros despreocupadamente. «São animais. Não lhes importa quem premiu o gatilho. Ele caçam pelo cheiro, e o Jake estava coberto do teu. Tem uma vida boa, docinho, pelo menos nas próximas horas.»
Angelia susteve a respiração perante o mórbido prognóstico. Por muito que lhe custasse admitir, sabia que ele tinha razão. Ela não iria longe e não havia nada que ela pudesse fazer.
Ela tinha feito parte daquilo. De livre vontade.
Não havia maneira de alterar o passado. Tal como não havia forma de impedir que os leões a matassem. Eles não ouviriam a razão, e honestamente, se fizessem algo assim com alguém que ela amasse, ela também não perdoaria.
Isto era o que ela merecia por fazer parte do brilhante plano de Dare. Ela lutaria, mas fugir não. Não era do seu feitio. Se era o seu destino, então ela enfrentá-lo-ia com dignidade.
No entanto, ela não queria morrer sem dizer a alguém que estava arrependida. Pedindo desculpa, ela teletransportou-se da mesa para o quarto de Fury.
O que encontrou deixou-a antes de mais, perplexa.
Fury estava em frente à comoda, a segurar o pequeno medalhão que ela lhe havia dado quando ele atingiu a puberdade aos vinte e sete anos.
«Para que é isto?», tinha ele perguntado quando ela lho entregou.
«Agora és um homem, Fury. Tens de ter algo que assinale a ocasião.»
Não era nada caro, nem particularmente bonito. Apenas um pequeno circulo com um X. Contudo, ele guardou-o durante todos estes séculos.
Mesmo depois de ela o trair.
Enrolando-o no pulso, ele olhou para ela. «Porque estás aqui?»
Realmente não sabia. Não, não era verdade, ela sabia exatamente porque tinha vindo.
«Não podia ir embora sem te dizer uma coisa.»
Respondeu-lhe com um tom seco e quebrado. «Tu odeias-me. Eu não presto. Sou um animal indigno de respirar o mesmo ar.»
Ele deixou cair o fio de volta para a gaveta de cima e fechou-a. «Já sei a ladainha. Ouvi-a a minha vida inteira. Por isso vai-te embora.»
«Não», disse ela, a voz quebrada sob o peso do medo e da culpa.
«Não era isso que eu ia dizer.» Insegura da sua reação, ela aproximou-se dele lentamente, como a um animal ferido.
Ela colocou a mão num dos seus punhos cerrados. «Desculpa Fury. Tu deste-me a tua amizade e lealdade, e quando eu os devia ter guardado como uma preciosidade, virei-me contra ti. Não tenho perdão para isso. Podia dizer que estava com medo, mas eu não devia ter medo de ti.»
Fury olhou para a mão dela na sua. Toda a sua vida tinha sido rejeitado. Depois de deixar o povo da sua mãe, ele não se aproximou de ninguém por medo de ser magoado outra vez. Por causa dos seu poderes inexperientes, ele sempre se sentiu esquisito perto das outras pessoas.
A única pessoa que o tinha feito sentir o homem que ele queria ser era…
Ela.
«Tu apunhalaste-me.»
«Não», disse ela, apertando-lhe a mão. «Eu apunhalei uma memória dolorosa. Tu conheces-me Fury, mas o que tu não sabes é que eu nunca na minha vida me transformei num lobo. Apesar de ser parte de mim, é uma parte que eu nunca consegui aceitar. Vivi a minha vida inteira a tentar apagar o pesadelo sem nunca conseguir. Nós eramos amigos, tu e eu. E nem uma vez, desde que foste embora, eu consegui encontrar alguém que me fizesse sentir o que tu fazias. Aos teus olhos, sempre fui bonita.»
Ele olhou-a e a dor dentro daqueles olhos queimaram-na.
«E aos teus olhos, eu sou um monstro.»
«Um monstro chamado Furry?»
Ele soltou rapidamente a mão da dela. «Ele ainda não consegue pronunciar o meu nome.»
«Não, mas respondes a ele e protegeste a mulher que te feriu duas vezes.»
«E então? Sou um estupido cretino.»
Ela estendeu a mão e tocou-lhe no rosto. «Nunca foste estupido.»
Ele virou a cara ao lado. «Não me toques. Já é difícil lutar contra o teu odor. Afinal de contas, eu sou um animal e tu estás com o cio.»
Sim, ela estava, e quanto mais próxima estava dele, mais aquela básica parte dela queria estar com ele. Cada hormona do seu corpo estava em fogo e estava a enfraquecer-lhe a vontade.
Ou estava apenas a usar isso como desculpa? A verdade era que, mesmo sem isso, ela passou horas à noite, a recordar-se dele. A relembrar o seu odor e a sua bondade.
A imaginar como teria sido se ele fosse Arcadiano e ainda estivesse com ela.
Em todos estes séculos, ele tinha sido o seu único amigo e ela sentia terrivelmente a sua falta.
Engolindo o medo, ela forçou-se a dizer o que realmente queria. «Sacia-me Fury.»
Ele piscou os olhos perante as palavras dela. «O quê?»
«Eu quero-te.»
Ele abanou a cabeça e olhou-a ferozmente. «Isso é as tuas hormonas a falar. Tu não me queres. Só precisas de ir para a cama com alguém.»
«A casa lá em baixo, está cheia de homens que eu podia escolher. Ou podia ir para casa e encontrar um. Mas eu não os quero.»
Ele afastou-se dela.
Ela seguiu-o e abraçou-o na cintura. «O teu irmão disse-me que os leões nos andam a caçar. Não tenho a menor dúvida que me vão encontrar e matar. Mas antes de morrer, quero fazer a única coisa com que sempre sonhei.»
«E isso seria?»
«Estar contigo. Porque achas que, enquanto estavas connosco, eu nunca escolhi um macho com quem dormir quando atingi a maturidade?»
«Supus que achavas que eles eram uns coxos.»
Ela sorriu com o insulto. Era tão clássico de Fury. «Não. Eu estava à tua espera. Eu queria que fosses o meu primeiro.»
Ela arrastou a mão para baixo para o acomodar na sua mão.
Fury inspirou ruidosamente. Era tão difícil pensar enquanto ela o afagava.
Difícil de se lembrar porque queria que ela saísse.
«Fica comigo só desta vez.», sussurrou ela ao ouvido.
Arrepios percorreram-lhe todo o corpo, enquanto o lobo nele uivava de prazer. Com toda a sinceridade, ele nunca havia tido muitas amantes. Principalmente por causa da mulher cuja mão o estava a acariciar por cima dos jeans. Como podia ele confiar em alguém, depois da maneira como ela o havia traído?
Ele sempre se tinha afastado das outras wolfswans. Quando elas estavam com o cio, ele desaparecia até que a mulher tivesse reclamado outro lobo.
Era mais fácil assim. Ele não gostava de emoções humanas, e não gostava de nenhum tipo de intimidade. Deixava-o demasiado vulnerável. Deixava-o aberto ao sofrimento, e ele não gostava de ser magoado.
Ele devia afastá-la e esquecer o quão bom era ser desejado. Ele estava prestes a fazer isso quando ela colocou os braços à sua volta e lhe deu a única coisa que ele nunca tinha tido de ninguém para além do seu sobrinho.
Um abraço.
«Tens alguém que te abrace?»
Aquela pergunta acabou com a última resistência. «Não»
Ela deu-lhe a volta e colocou-se em bicos dos pés para lhe chegar aos lábios. Fury hesitou. Os lobos não beijavam quando acasalavam. Era uma atitude humana e uma que ele nunca experimentara.
Mas assim que os lábios dela o tocaram, ele percebeu porque era tão importante para os humanos.
A carícia da sua respiração a fazer-lhe cócegas na pele. Ou a respiração partilhada enquanto ela lhe entreabria os lábios para o provar. Isso era algo que o lobo nele entendia.
Grunhindo, ele puxou-a para os seus braços, saboreando-a profundamente.
Angelia gemeu perante a gentil ferocidade do seu beijo. Ele segurou-lhe o rosto com as mãos enquanto explorava cada recanto da sua boca. Parte dela não acreditava que estava a ser tocada por um lobo.
Mas era Fury…
O Fury dela.
Apesar de eles não poderem escolher os companheiros, ele era o único homem a quem ela dera o coração, mesmo quando era ainda uma criança.
«Tu serás sempre o meu melhor amigo Fury, e um dia quando formos crescidos, lutaremos juntos. Tu proteges a minha retaguarda e eu protejo a tua.»
Quão inocente havia sido aquela promessa. E tão difícil de cumprir.
Fury afastou-se do beijo para olhá-la com aqueles olhos que a queimavam com dor e incerteza. Ela tinha medo. Ele cheirava-o. Só não sabia do que tinha ela medo.
«Tu sabes o que eu sou Lia. Estás prestes a foder com um animal. Estás preparada para isso?»
Foder…isso era calão Katagaria e repugnante para os Arcadianos.
Angelia traçou o contorno dos seus lábios.
«Se esta é a minha última noite com vida, quero que seja passada contigo Fury. Não tivesse o Destino sido cruel connosco e te tivesse transformado num animal quando atingiste a puberdade, nós estaríamos a fazer isto há séculos atrás. Eu sei exatamente o que tu és e ainda assim eu amo-te.» Ela suavizou-lhe o sobrolho zangado e franzido.
«Mais importante, eu amo-te por causa do que tu és.»
Fury não conseguia respirar enquanto ouvia as palavras que não acreditava ouvir alguém um dia pronunciar.
Amor.
Mas ela sabia o que isso significava?
«Morrerias por mim, Lia?»
Era a vez dela de franzir o sobrolho. «Porque me perguntas isso?»
«Porque eu morreria para te manter segura. Isso é que é para mim o amor. Quero ter a certeza que desta vez, ambos compreendemos os termos. Porque se amar para ti é apunhalar-me e deixar-me a morrer, então não estou interessado.»
Ela engasgou-se com um soluço perante aquelas palavras tão sentidas. «Não, meu lindo. Isso não era amor. Isso era ser estúpida, e juro-te que se pudesse voltar atrás e mudar aquele momento, eu ficaria a teu lado e lutaríamos juntos…tal como eu prometi que faria.»
Fechando os olhos, ele esfregou o rosto contra a sua bochecha, acariciando-lhe a pele com a barba. Angelia sorriu perante a ação assumidamente de lobo. Ele estava a marcá-la como sendo dele.
Misturando o cheiro de ambos.
E sinceramente, ela queria o odor dele na sua pele. Era quente e masculino. Puro Fury.
Ele afastou-se e tirou-lhe a camisola pela cabeça. Com os olhos a brilhar, ele levou as mãos ao seu soutien, massajando-a gentilmente. Ela sorriu perante a sua hesitação.
«Elas não te mordem.»
Ele curvou os lábios num sorriso. «Não, mas a dona pode.»
Rindo, ela mordiscou-lhe o queixo enquanto desabotoava o soutien.
Fury ofegou com força quando ela atirou o soutien ao chão. De longe, os seios dela eram os mais belos que ele alguma vez tinha visto. Com o sangue a zumbir-lhe nos ouvidos, ele afundou a cabeça nela para a saborear.
Angelia estremeceu quando a língua dele começou a brincar com o seu mamilo. Ele lambia-a e sugava-a de uma maneira que ela se veio instantes depois.
Gemendo, os joelhos cederam quando foi atingida por um violento orgasmo.
Fury levantou-a nos braços e abraçou-a enquanto a levava para a cama.
«Como fizeste isso?», perguntou ela sem folego. «Eu nem sabia que o que fizeste podia causar isto.»
Ele deixou escapar da garganta um profundo ronronar, puramente animal, enquanto a deitava no colchão. Ele baixou a cabeça para lhe afagar os peitos com o rosto enquanto lhe desabotoava as calças.
«Eu sou um lobo Lia. Lamber e provar faz parte de nós.»
Ele deslizou as calças e as cuequinhas pelas pernas dela antes de as tirar e aos sapatos.
Com o coração a martelar, ela esperou que ele voltasse para ela.
Ele tirou a t-shirt pela cabeça, mostrando-lhe um corpo perfeito, apesar das cicatrizes e nódoas negras que marcavam a pele fortemente bronzeada. Inclinando a cabeça, ele observou-a.
«Porque hesitas?»
«Não estou a hesitar.»
«Estás sim. Eu posso ser um lobo, mas eu sei o que as wolfswan Arcadianas fazem quando estão com um amante pela primeira vez. Estás a rejeitar-me?»
«Nunca», disse ela enfaticamente.
«Então porque não me estás a receber?»
«Estava com medo de te insultar. Eu não sei o que fazem os Katagaria. Devo virar-me?»
A fúria escureceu os seus olhos. «Queres ser comida por um animal, ou amada por um homem?»
Ela suspirou frustrada. Independentemente do que fizesse, ela enfurecia-o. «Eu quero estar com o Fury como sua amante.»
Fury saboreou aquelas palavras. «Então mostra-me o que farias com qualquer outro amante.»
O sorriso dela aqueceu-o completamente, enquanto ela afastava as pernas. O olhar dela nunca se afastou do seu, enquanto abria cuidadosamente as pequenas dobras do seu corpo para que ele pudesse ver o quanto estava molhada para ele.
Quão pronta e recetiva estava.
O costume Arcadiano ditava que ele entrasse nela quando ela estava assim. Eles deviam se emparelhar cara a cara sem grande contacto.
Mas não era isso que ele queria. Tirando as calças, rastejou lentamente pela cama até se colocar entre as suas pernas.
Angelia tremia, ansiosa que ele entrasse dentro dela com uma poderosa investida. Em vez disso ele chupou-lhe os dedos, lambendo-lhe os nós. Com o olhar cravado nela, ele agarrou-lhe as mãos, antes de a beijar no mais íntimo dela.
Arqueando as costas, ela gemeu com a sensação maravilhosa que sentia. A língua dele girando ao redor dela. Cavando profundamente dentro do seu corpo. A cabeça agitada pelo intenso prazer que continuava a subir mais e mais, até que ela temeu explodir com tamanha intensidade.
Incapaz de aguentar, ela agarrou-lhe o cabelo com a mão, enquanto ele continuava a dar-lhe prazer.
E quando ela se veio outra vez, ele ficou ali, recebendo cada espasmo que saia dela até que ela estava capaz de chorar de puro êxtase.
Fury estava a palpitar de dor, o seu membro ansioso de a tomar. Entre a sua espécie, a fémea tem de ficar completamente saciada. Se não, ela escolhe outro amante depois dele. Era um sinal de vergonha quando a fémea chamava outro macho para a satisfazer e apesar de ele não ter tido muitas amantes, nunca uma mulher teve de chamar uma segunda opção depois dele.
Não havia maneira de ele permitir que Angelia fosse a primeira.
Sentando-se sobre os calcanhares, agarrou-lhe a mão.
Surpreendida, franziu o sobrolho. «Há alguma coisa errada?»
Ele levantou-a lentamente até que ela estivesse sentada na cama. «Não. Tu querias saber como um lobo toma a sua mulher…» Ele moveu-a até aos pés da cama onde lhe colocou as mãos nas grades.
Angelia não estava segura disto. «O que estás a fazer?»
Ele beijou-a apaixonadamente antes de lhe indicar o guarda-fatos com um menear de cabeça.
«Olha para o espelho.»
Ela olhou e observou enquanto ele se movia para trás de si. No momento em que se posicionou, ele levantou-a de modo a que se estivessem ajoelhados na cama com o peito dele pressionando-lhe as costas. Ele afastou-lhe o cabelo do pescoço de modo a poder lambê-la. Abraçando-a, acariciou-a e respirou-lhe ao ouvido.
Com os músculos fletidos à sua volta, ele tomou-lhe os peitos nas mãos. Ele afastou-lhe as pernas, depois enterrou a mão no seu íntimo e acariciou-lhe as dobras suaves.
Angelia observava o seu jogo, extasiada. Como podia alguém tão feroz e perigoso ser tão gentil?
Quando ela estava molhada e ansiosa outra vez, ele levantou a cabeça para olhá-la no espelho. Com os olhares enlaçados, ele deslizou fundo para dentro dela. Ela ofegou com a grossura e comprimento dele. Mordendo o lábio, ele investiu contra as suas coxas, enterrando-se ainda mais, enquanto a mão dele continuava a provoca-la. Ela sentia os poderes imergir. O sexo sempre tinha feito os poderes dos da sua espécie mais poderosos. Mais fortes. Mas nunca se tinha sentido assim.
Era como se ele se estivesse a alimentá-la de uma fonte de poder primária.
Fury enterrou a cabeça na sua nuca e os seus sentidos giraram à sua volta com o bem que sabia. Não havia nada mais delicioso que sentir o corpo dela à volta dele. Se ela fosse uma loba, nesta altura ela estaria a enterrar-lhe as garras, exigindo que ele a montasse mais rápido e com mais força.
Em vez disso, ela permitiu que ele levasse o seu tempo e saboreá-la com gentileza. Saborear a beleza da intimidade. Este era um lado dele que ele manteve escondido de todas as fémeas com quem esteve. E no fundo do seu coração sabia porquê.
Porque elas nunca foram a sua Lia. Quantas vezes fechou os olhos e imaginou que era a ela que estava a abraçar? Imaginou que era a ela que cheirava.
Agora não era imaginação. Ela estava ali e era dele.
«Diz o meu nome Lia.», sussurou ao ouvido dela.
Ela franziu o sobrolho. «O quê?»
Ele investiu com força dentro dela e se deteve a olhá-la no espelho. «Eu quero ouvir o meu nome nos teus lábios enquanto estou dentro de ti. Olha para mim assim e diz-me outra vez que me amas.»
Angelia gemeu de prazer enquanto ele investia contra ela. «Eu amo-te Fury.»
Ela podia senti-lo a crescer dentro dela. Era algo que todos os machos da espécie deles faziam. Quanto mais prazer sentiam, mais se expandiam. A grossa plenitude fazia com que os seus poderes aumentassem ainda mais. Arqueando as costas, ela esticou-se para se esfregar na bochecha dele.
Ele acelerou as investidas enquanto a continuava a acariciar com a mão. Havia agora urgência nas investidas. Uma ferocidade intensa e possessiva. Ela sempre tinha ouvido a expressão ser possuída por um amante, mas era a primeira vez que o experimentava.
E desta vez quando se veio, ela até uivou pelo puro prazer que sentia.
Fury cerrou os dentes pelo som do seu orgasmo. Pela sensação dos espasmos do corpo dela contra o seu. Isso desencadeou os seus poderes, arqueando-se até que causou a explosão do candeeiro da mesa-de-cabeceira. Depois de a saciar, queria captar toda a réstia de prazer nela até ao último murmúrio.
Só depois de ela se deixar cair contra ele, se permitiu também atingir o orgasmo. Ele grunhiu com o repentino ardor quando explodiu de prazer e finalmente sentiu o seu próprio alívio.
Angelia sorriu com a visão de Fury ao espelho enquanto enterrava a cabeça contra o seu ombro e estremecia. A suas respirações misturadas enquanto a abraçava e a mantinha assim. Ao contrário dos homens normais, eles ficavam colados até que o orgasmo terminasse. O que levava alguns minutos.
Normalmente, um macho Arcadiano cairia sobre ela e esperava que acabasse.
Em vez disso, Fury sustentou todo o seu peso enquanto se esfregava ao seu pescoço e a abraçava.
«Magoei-te?», perguntou ele.
«Não»
Ele encostou a bochecha contra a dela e embalou-a gentilmente. Angelia sorriu, colocando a mão no seu rosto. Em toda a sua vida ela nunca experimentara um momento mais terno.
E pensar que o tinha descoberto nos braços de um animal. Era inconcebível.
Eles ficaram ali até que finalmente ele se conseguiu retirar dela sem a magoar. Angelia caiu sobre a cama.
Fury deitou-se a seu lado, de modo a conseguir olhar para o seu corpo nu. «És tão bonita.». Ele deslizou os dedos pelas marcas de Sentinela no seu rosto.
«Aposto que nunca pensaste acasalar com uma Arcadiana.»
«Pensei, até me transformar num lobo.»
Ela desviou o olhar perante aquela franca confissão. «Porque me escondeste esse segredo?»
Ele riu amargamente. «Oh sim, nem posso imaginar porquê. Talvez porque tinha medo que te passasses e me odiasses. Que pensamento tão ridículo, não?»
Corando, ela desviou o olhar, envergonhada pelo facto de ele estar certo acerca dela e não deveria. «Peço desculpa por isso.»
«Está tudo bem. Não foste a única a tentar matar-me.»
Não, todo o seu clã, incluindo a sua mãe, os seus irmãos e avô tentaram matá-lo. E ainda assim, ele arranjou maneira de sobreviver.
«O teu pai recebeu-te bem?»
«Nunca lhe dei hipótese de me rejeitar. Quando encontrei a alcateia e vi a forma pouco respeitosa com que tratava o Vane e o Fang, decidi ficar lá sem lhe dizer que era seu filho. Acho que uma experiencia de quase morte às mãos de um dos pais é suficiente para qualquer pessoa.»
Ele traçou círculos à volta dos seus mamilos. «Tu nunca te transformaste?»
«Porque o faria?»
Ele parou fixando o olhar nela. «Acho que o devias ter feito.»
«Porquê?»
«Porque é parte do que e de quem tu és.»
E então? «É uma parte que não tenho de gostar ou aceitar.»
«Sim, precisas.»
Ela ficou tensa com o seu tom. «O que estás a dizer?»
«Estou a dizer que, ou te transformas em lobo ou vou ter de dar um choque para te obrigar.»
Ela ofegou perante a ameaça. «Não te atreverias.»
«Experimenta.»
Horrorizada, ela sentou-se. «Não tem graça Fury. Eu não quero ser um lobo.»
Os olhos azul-turquesa dele, cheios de determinação. «Por um minuto, faz-me a vontade. Precisas de saber o que é que caças e o que é que odeias.»
«Porquê?»
«Porque é o que eu sou e quero que me percebas.»
Ela queria dizer-lhe para esquecer isso. Que ela o compreendia, mas antes que ela o pudesse dizer, parou.
Ele tinha razão. Como podia ela entender o que ele era, se nunca o tinha experimentado por si mesma? Se era importante para ele, então faria o que lhe pedia.
«Está bem, mas só por ti e apenas por um minuto.»
Ele inclinou a cabeça e esperou.
E esperou.
Quando já haviam passado três minutos e ela ainda estava em forma humana, arqueou uma sobrancelha para ela. «Então?»
«Espera, estou a tentar.» Olhando para ele, assumiu a sua forma de loba.
Fury sorriu com a visão dela na sua cama. Com pelo castanho-escuro e vermelho, ela era tão bonita na sua forma animal como na sua forma humana. Ele passou-lhe a mão. «Vês, não é assim tão mau, ou é?»
«Consegues perceber-me?»
«Claro que sim. Tal como me consegues entender a mim. Agora, olha à volta do quarto. Vê o quanto as coisas parecem diferentes. Quantos sons e odores mais intensos encontras?»
Ela olhou-o.
«Tu ainda és humana, Lia. Mesmo como loba. Manténs toda a tua essência, mesmo nesta forma.»
Ela voltou à forma humana. «Tu manténs?»
«Sim. O que somos numa forma, somos na outra. Nada muda.»
Angelia ficou parada ali, interiorizando. Ela tinha assumido que como lobos eles se tornavam completamente irracionais…mas isso não era verdade. Ela manteve todo o seu raciocínio. A única coisa que era diferente era que todos os seus sentidos ficavam mais apurados.
Um sentimento de gratidão atravessou-a, e quando ela o ia beijar, sentiu uma dor lancinante na palma da mão. Ofegando, ela voltou a sentar-se enquanto abanava a mão para aliviar a dor.
Fury praguejou antes de levantar a mão e abaná-la no ar. Enquanto o fazia, o padrão geométrico da sua alcateia apareceu na sua palma.
Era idêntica à dela.
Oh merda…
«Estamos destinados?» gritou Angelia.
Fury olhou para ela, incrédulo. «Como?»
Ela continuou a contemplar a sua palma. No mundo deles, os deuses do Destino determinavam com quem eles se emparelhavam no momento do nascimento. A única maneira de encontrar o respetivo companheiro era dormindo com ele e se estivesse destinado, eles teriam marcas semelhantes.
Aquelas marcas seriam visíveis, apenas por três semanas, e se a mulher não aceitasse emparelhar-se nesse tempo, ficaria livre para viver a sua vida sem ele.
Mas ela nunca poderia ter filhos com mais ninguém.
O macho ficaria obrigado ao celibato até ao dia em que ela morresse. Uma vez emparelhados, ele só poderia dormir com a sua mulher. Ele nunca seria capaz de ter uma ereção com mais ninguém.
«Fomos escolhidos.» Ela colocou a sua palma na dele. «Tu és o meu companheiro.»
Fury estava a ter alguma dificuldade a processar tudo isto. Ele sempre imaginou como seria ser emparelhado com alguém. O Predador da Noite Acheron havia-lhe dito que ele já conhecia a sua companheira, mas ele nunca tinha acreditado.
Tinha de ser a mulher que ele sempre tinha amado…
Estava a ser demasiado fácil.
Ele olhou Angelia com o coração a martelar. «Tu aceitas-me?»
Ela rebolou os olhos. «Não. Estou nua contigo porque todas as minhas roupas voaram por acidente e não consigo encontrá-las.»
«Estás a ser um bocadinho sarcástica, não?»
«Aprendi contigo.»
Rindo, Fury inclinou-se para a beijar, mas antes de lhe conseguir tocar nos lábios, um clarão encandeou-os. Ele saltou para trás e franziu o sobrolho quando quatro leões apareceram no seu quarto.
A expressão deles era furiosa quando lhe atiraram qualquer coisa.
Ele agarrou-a e fez uma careta antes de deixar cair a cabeça do Chacal no chão. «O que raio é isto?»
«Sou o Paris Sabastienne.», disse o leão mais alto, «E estou aqui para matar a cabra que matou e desgraçou os meus irmãos.»


Capítulo 5

Angelia usou os seus poderes para os vestir enquanto se preparava para que Fury a entregasse aos Litarian para o jantar.
Em vez disso, ele levantou-se da cama com uma aura tão mortal que lhe deu calafrios.
«Eu não sei o que vocês pensam que estão aqui a fazer, trepadores de árvores, mas não podem chegar a casa do meu irmão com esse tom e essa atitude.» Ele olhou para baixo para a cabeça caída no chão. «E podem ter a certeza que não podem atirar lixo na presença da minha companheira.»
«Nós seguimos o rasto dela até aqui.»
Fury fez-lhe um sorriso sinistro. «E tu cheiraste-a no meu quarto?»
Um dos leões tentou agarrar Fury. Mas mais depressa do que num piscar de olhos, ele libertou-se do leão e atirou-o contra a parede. Com força.
«Tu, realmente não me queres testar.», grunhiu Fury, batendo com a cabeça do leão contra a parede.
«Não sou uma gazela numa savana, pulha. Corto-te a garganta mais depressa do que cortaste a cabeça ao chacal.»
Paris avançou um passo. «Nós somos quatro e tu és apenas um.»
«Somos dois.», corrigiu Angelia, afastando-o de Fury. «E a coisa mais mortal que um lobo, é a sua companheira quando ele está a ser ameaçado.»
Paris aproximou-se dela. Cheirou o ar à volta dela enquanto a olhava cautelosamente.
«É ela?», perguntou um dos leões.
«Não», disse ele com desgosto. «Perdemos o cheiro.»
Virou-se para Fury. «Isto ainda não acabou, lobo. Nós não vamos parar até estarmos satisfeitos. Se encontro a cabra responsável, vou fazer um festim com as entranhas dela.»
Fury atirou o leão que segurava a Paris. «Não és bem-vindo aqui. A sério. Sai daqui.»
Paris fez um grunhido feroz antes de desaparecerem.
«E leva o teu trofeu nojento contigo.» ladrou Fury atirando a cabeça para o portal, para que ela fosse para onde eles fossem.
Angelia suspirou de alívio. «O que acabou de acontecer? Como é que eles não me cheiraram?»
Fury encolheu os ombros. «O único poder que cheguei a desenvolver foi a habilidade de mascarar o odor. Uma vez que agora sou parte de ti, consegui mascarar o teu odor também.»
«É por isso que não cheiras como um Kattagaria!»
Ele inclinou a cabeça para ela numa saudação sarcástica.
Mas isso levantou outra questão na sua mente. «Então como é que o Dare descobriu a tua forma base se não podia cheirá-la?»
Fury desviou o olhar quando a dor o atravessou. Até este dia, a traição ainda lhe dilacerava a alma.
Angelia colocou a mão no seu rosto onde ele tinha os dentes cerrados.
«Diz-me.»
Ele não sabia porque confiava nela, quando era contra a sua natureza. Mas antes que ele se pudesse conter, a verdade veio ao de cima. «Nós fomos atacados na floresta por um grupo de foras da lei humanos. Eles dispararam uma seta. O Dare não a viu, mas eu vi. Eu desviei-o do caminho e fui atingido.»
Ela estremeceu assim que percebeu o que tinha acontecido. «A dor fez-te mudar de forma.»
Fury assentiu. «Ele soube assim que eu caí. Eu tentei para-lo antes que chegasse à aldeia, mas quando lá cheguei, a minha mãe já tinha sido informada.»
O resto recordava-se como se tivesse sido ontem. Ela ouviu os gritos e dirigiu-se à sala principal onde estavam reunidos. Fury estava a sangrar, mas ainda estava na forma humana.
«Dare atirou-o à mãe. «Mãe, ele é um estupido Lobo. Eu vi.»
Bryani agarrou Fury pelo cabelo. «Diz-me a verdade. Tu és um Katagaria?»
O olhar de Fury desviou-se para Angelia. Dor, vergonha e tormento brilhavam nos seus olhos. Mas era o olhar suplicante dele que lhe tirava o folego. Ele implorou-lhe silenciosamente que o apoiasse.
«Responde-me!», ordenou a sua mãe.
«Sou um lobo.»
Eles caíram-lhe em cima com uma crueldade tão poderosa que ela achava difícil acreditar que tinha feito parte daquilo. Mas lá, naquele momento…
Ela tinha sido tão tola.
«Alguma vez vais voltar a confiar em mim?», perguntou-lhe ela.
Ele segurou-lhe a palma marcada na sua mão. «E eu tenho escolha?»
«Sim, tens. Isto só significa que posso carregar os teus filhos. Não tem nada a ver com os nossos corações.»
Fury olhou-a. Não, não tinha. Os seus pais odiavam-se mutuamente. Mesmo agora a única coisa que faziam era planear a morte um do outro.
«Se conseguires colocar de lado o ódio pela minha espécie, estou disposto a esquecer o passado.»
Angelia olhou o espaço em volta. «Eu terei que viver aqui, no teu tempo, não é?»
«Achas mesmo que podes voltar para casa a usar a marca dos Katagaria?»
Ele tinha razão. Eles matá-la-iam.
Fury aproximou-se dela. «Tu tens três semanas para decidir se queres viver comigo.»
«Fury, eu não preciso de três semanas. Eu concordei em emparelhar-me contigo, e assim o farei. Vou até partilhar a minha força vital contigo.»
A raiva trespassou os olhos dele com a sugestão. «Não, não vais. Eu tenho demasiados inimigos que querem a minha cabeça. Não vou ligar a tua vida com a minha. É demasiado perigoso.»
Ela riu. «Tu tens inimigos? Quem eram os leões que acabaram de sair daqui? De quem andavam à procura?» Ela segurou-lhe o rosto com as mãos. «Tu e eu já poderíamos ter tido uma vida juntos. Eu permiti que a minha estupidez nos roubasse quatrocentos anos. Eu não quero perder mais um minuto sem estar ao teu lado.»
«Não pensavas isso há vinte e quatro horas atrás.»
«Tens razão. Mas abriste-me os olhos. O que o Dare está a tentar fazer é errado. Não posso acreditar que arruinei a vida daquele pobre leão. Deus, como gostaria de poder voltar atrás e empurrar Dare para que ele falhasse o tiro quando disparou aquela arma.»
O rosto de Fury ficou branco. «O Dare matou um leão desarmado?»
«Não, isso foi o Chacal. O Dare atingiu o que está vivo.»
«E a tua participação nisso?»
Uma estupida observadora que pensava que ia tornar o mundo mais seguro para que outras rapariguinhas não tivessem que assistir à sua família a ser comida. Eu não sabia que estava a lutar a favor dos monstros e não contra eles.»
Fury assentiu. «O Dare não é um monstro. Ele é só um cretino inseguro que quer que a mãe o ame.»
«Então e tu?»
«Eu era um cretino inseguro que sabia que nunca conseguiria chegar perto da sua mãe, por medo que ela sentisse o seu odor a lobo e o matasse.»
Ela puxou-o para os seus braços para lhe beijar os lábios. «Fury, emparelha-te comigo.»
«Tu és um bocadinho mandona, não és?»
«Apenas quando há alguma coisa que quero.» Ela olhou para a cama. «Não nos devíamos despir?»
Ele colocou as mãos nos seus braços e segurou-a. «Nós temos de solucionar isto primeiro. Eu quero ter a certeza de que estás a emparelhar-te comigo por escolha e não por medo.»
«Não achas que eu sou inteligente o suficiente para saber a diferença?»
«Eu é que preciso ter a certeza da tua motivação.»
Ele ainda não confiava nela. A coisa mais triste era que, ela não o podia culpar.
«Então muito bem. Como terminamos isto?»
«Não faço a menor ideia.»

Angelia desceu as escadas e Fang estava a cheirar-lhe a mão.
«Não admira que ele esteja a agir de maneira tão estranha. O bastardo acasalou.»
«Fang!», gritou-lhe Bride. «Deixa a pobre mulher em paz, ou pelo menos felicita-a.»
«Por quê? Estar emparelhada com Fury parece-me mais um pesadelo.»
Houve um tempo em que Angelia concordaria com isso. Estranho como agora não o fazia.
«O teu irmão é um lobo maravilhoso.»
Bride sorriu aprovadoramente.
«Onde está afinal o lobo pinga amor?»
«Ele disse que ia falar com um amigo sobre como manter os leões longe do meu rasto.»
A cara de Fang empalideceu.
«O que se passa?» perguntou Angelia, imediatamente assustada com a reação dele.
«O Fury não tem amigos.»
Poque lhe havia mentido? Queridos deuses, o que estaria ele a fazer? «Então onde está ele?»
A pergunta mal havia saído dos seus lábios quando Vane apareceu. Ele olhou para ela antes de virar para Fang. «Preciso de ti no Omegrion. Agora.»
Fang franziu o sobrolho. «O que se está a passar?»
«O Fury entregou-se como o responsável pelo que aconteceu ao leão.»
Angelia ficou de pé num salto. «O quê?»
«Ouviste-me! Estúpido idiota. Eu fui convocado pelo Savitar que me pediu para trazer testemunhas que possam atestar a sua inocência.»
Fang praguejou. «Onde estava ele quando aconteceu?»
«Não sei.»
Fang colocou-se de pé. «Vamos.»
«Não se esqueçam de mim.» Angelia moveu-se para se colocar em frente a Vane.
Vane hesitou.
Fang fez-lhe um olhar severo. «Ela é companheira dele V. Deixa-a vir.»
Assentindo, levou-a com eles até à ilha de Savitar e para a câmara onde o Omegrion se encontrava e decidia as leis que governavam todos os licantropos.
Toda a vida, Angelia ouviu histórias acerca deste lugar. Nunca pensou vê-lo.
Aqui, se encontravam os Regis, um representante de cada ramo de Katagaria e Arcadianos. Era inacreditável que não estivessem a lutar. Mas claro, isso era devido à presença de Savitar.
Mais do que um árbitro, Savitar detinha o destino de todos nas mãos. O único problema era que, ninguém sabia realmente quem era Savitar. Nem sequer de onde tinha vindo.
«Onde está Fury?», perguntou ela a Vane.
«Não sei.»
«Estão cá todos os membros?»
Ele examinou o grupo. «Todos menos Fury.»
Antes que ela pudesse perguntar mais alguma coisa, sentiu uma onda de poder atrás de si.
Virando-se, ela deparou-se com um inacreditavelmente belo homem ali. Com pelo menos dois metros e dez de altura, ele tinha cabelo preto comprido e barba. Vestido com roupa de surfista, ele olhou-a com desconfiança.
«Trouxeste a tua testemunha, lobo?», perguntou a Vane.
«Trouxe.»
«Então vamos começar.» Ele passou pela mesa redonda onde os membros do Omegrion estavam sentadas e sentou-se num trono que estava aparte.
«Savitar?» perguntou ela a Vane.
Ele assentiu.
Raios. Ele era assustador.
Savitar deixou escapar um suspirou longo e exagerado. «Eu sei que toda a gente aqui quer estar noutro lugar. Acreditem. Eu também. Mas para aqueles que não ouviram ou vivem sobre uma rocha…» Ele olhou para o Regis Falcão Arcadiano e hesitou.
«Está bem, alguns de vós vivem, e é por isso que tenho de explicar isto. Parece que alguns dos nossos bons Arcadianos criaram e usaram uma arma que pode retirar-vos as habilidades mágicas e prender-vos na vossa forma base.»
Vários membros engoliram em seco.
Savitar assentiu. «Sim, é uma merda. Há dois dias atrás, um par de cretinos decidiu ir à caça. Eu tenho a cabeça de duas das quatro pessoas responsáveis.» Ele indicou os leões à sua esquerda. «A família das vítimas quer as outras duas. Mortas. Mas torturadas primeiro. Eu respeito isso.»
«Vamos caçar?», perguntou Nicolette Peltier.
«Não. Parece que um dos responsáveis resolveu entregar-se.Ele alega que matou o quarto membro e não quer fugir.»
«Onde está ele?», exigiu saber o irmão de Paris.
«Espera a tua vez Leão, ou vou usar os teus olhos como uma peça de joalharia.»
O leão retrocedeu imediatamente.
Savitar estalou os dedos, e Fury apareceu junto ao trono acorrentado.
Angelia tentou chegar até ele, mas Vane impediu-a.
Fury resmungou duplamente assim que a viu. «Raios, Vane, eu disse-te para não…» Um açaime apareceu na sua cara.
Savitar fulminou-o com o olhar. «A próxima pessoa ou animal que me interromper vai ser estripado.»
O olhar de Fury estava preso no dela. «Não fales», usou a telepatia. «É melhor assim. Acredita em mim. Podes voltar para casa e ter a tua vida de volta.»
Ele estava doido?
Esse pensamento morreu assim que viu Dare aparecer junto a Fury.
Savitar olhou Dare com desprezo. «Nós temos uma testemunha que jura que viu Fury a fazê-lo. Uma vez que isso corrobora o que Fury disse, suponho que votar no seu destino vai ser fácil. A menos que alguém nesta sala tenha mais alguma coisa a acrescentar.»
Sasha avançou. «O Fury não o fez. Ele está a proteger alguém. Eu conheço-o. Posso não gostar dele, mas sei que está inocente. Eu estava no Santuário quando ele viu o leão e ele não sabia de nada.»
«É verdade.», disse Nicolette Peltier. «Eu também o vi. Ele disse-me que iria encontrar os responsáveis e fazê-los pagar.»
Savitar coçou o queixo. «Interessante, não é? O que me tens a dizer sobre isso, Fury?»
O açaime desapareceu. «Estão pedrados.»
Savitar abanou a cabeça. «Mais alguém está pedrado?»
Lágrimas inundaram os olhos de Angelia perante o sacrifício que Fury estava disposto a fazer. Mas ela não podia permiti-lo. Olhando para baixo, traçou com os dedos o símbolo na sua palma.
Teria sido uma honra imensa ser sua companheira e ter os seus filhos.
Se ao menos fosse possível.
«O Fury está inocente.» disse ela, dando um passo em frente. «Ele confessou para salvar…»
«A mim.»
Angelia congelou em choque quando Dare aclarou a garganta.
«O que foi isso?» perguntou Savitar.
Dare olhou-a, depois para Fury. «Fui eu que disparei o tiro que feriu o leão. O que matou o outro já está morto.»
«E os outros?»
«Também mortos.»
Fury virou a cabeça para Dare. «Porque estás a fazer isto?»
«Porque fui eu que procedi mal, e recuso-me a ter um animal a mostrar-me como ser nobre. Vai-te foder.»
«Nós tínhamos um acordo.» murmurou Fury.
«Alterei-o.» Dare olhou novamente para Angelia. «Esta na hora de fazer o que é certo, pelas razões certas.»
Savitar cruzou os braços sobre o peito. «Temos outra confissão do Dare Katalakis. E vai uma, e vai duas…há aqui na sala mais alguma confissão?»
«Mais alguém quer admitir que matou o leão?». Fez uma pausa. «Também me parecia que não.»
Os leões avançaram. «Então ele é nosso.»
Savitar abanou a cabeça. «Na verdade, ele é meu, desculpem. Vocês já arrancaram a cabeça a dois Arcadianos. Fiquem contentes por eu não exigir justiça para as suas famílias. Como todos estão de acordo quanto à sua culpabilidade, não será necessário julgamento…»
Os leões não ficaram nada agradados, mas ninguém ousou questioná-lo.
«Quanto àquele brinquedo que usaram, não se preocupem. Já me certifiquei que o inventor não inventa mais nada. Tenho a minha gente a procurar as armas que vendeu e devemos tê-las destruído em breve. Entretanto…»
Dare desapareceu e as correntes de Fury derreteram.
«Dou por encerrada a sessão no Omegrion.»
Os membros do conselho desapareceram.
Exceto os lobos e Nicolette. Fury aproximou-se deles. Apertou a mão a Sasha. «Obrigado.»
«Sem problemas. Mas não somos amigos.»
Os olhos de Fury brilharam com humor. «Sim, meu pulha, também te odeio.» Olhou para Nicolette. «Também foi decente da tua parte, falares.»
«Continuas banido da minha casa…a menos que estejas ferido.» Ela teletransportou-se.
Fury abanou a cabeça e depois olhou para ela. Todo o humor morreu. «Tu ias entregar-te para me salvares.»
«Eu disse-te Fury. Estarei sempre a proteger-te a retaguarda.»
El tomou as mãos dela nas suas e beijou uma de cada vez. «Nas minhas costas não é onde eu te quero.»
Ela arqueou uma sobrancelha. «Não? Então onde me preferes?»
Ela estava à espera que ele dissesse debaixo dele, era o que um macho Arcadiano diria.
Mas não ele.
«Quero-te a meu lado. Sempre.»
«Uhhh» disse Fang com nojo. «Lobos, arranjem um quarto.»
Angelia sorriu. «Parece-me uma ótima ideia.»
Antes que se desse conta, estavam em casa.
Savitar não se mexeu enquanto observava os últimos lobos a abandonar a sala. No momento em que ficou vazia, sentiu um poder surgir por trás dele.
Era Zarek.
«O Sasha foi para casa Z.»
«Sim, eu sei. Vinha falar contigo sobre aquele assunto que falámos mais cedo.»
«Os meus demónios já conseguiram a maior parte das armas.» «Mas…»
«Ainda há algumas por aí.»
Zarek praguejou. «Se o Sasha é apanhado por uma, a Astrid enlouquece.»
«Acredita em mim, Z, eu sei.» Savitar olhou lá para fora para o horizonte, mas por dentro achava o mesmo que Zarek. Havia uma tempestade a aproximar-se. Poderosa e violenta.
Eles travaram uma pequena batalha. Mas não era nada comparada com a guerra que se aproximava.

Fury estava em cima da cama, nu, com Angelia em cima dele. As palmas ainda estavam pressionadas juntas, por causa do ritual de acasalamento.
«Ainda não acredito que ias morrer para que eu pudesse ir para casa.»
«E eu ainda não acredito que tu me ias chamar mentiroso e ficar no meu lugar na guilhotina. Na próxima vez que me tentares salvar mulher, é melhor manteres-te segura.»
Ela riu, depois mordiscou-o no queixo. «Eu prometo comporta-me, mas só com uma condição.»
«E qual é?»
«Que ligues a tua força vital à minha.»
Ele franziu-lhe o sobrolho. «Porque é que isso é tão importante para ti?»
Ela engoliu com um nó na garganta. «Tu não sabes?»
«Não.»
«Porque te amo, Lobo, e não quero passar nem mais um dia da minha vida sem ti. Para onde fores eu vou, e quando morreres, eu morro também.»
Fury olhou-a incrédulo. Em toda a sua vida ele só quis uma coisa.
E Lia acabou de lha dar. Uma mulher que pudesse amar e depender dele.
«Por ti, minha senhora loba, faço qualquer coisa.»
Angelia sorriu quando o sentiu crescer outra vez. Beijando-lhe a mão, ela sabia que desta vez não teriam apenas sexo. Desta vez eles unir-se-iam para toda a eternidade."

Fim.

Correcção do Texto: Silvia Santos
Fonte: ---

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