quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Segundas Oportunidades

“...Quando o chefe dos Predadores da Noite se encontra com a difícil decisão de perdoar o imperdoável!!!
Esta história é um relato muito curto que podemos encontrar no site da autora.
Narra um pouco a relação entre Acheron e Styxx .(irmão gémeo humano que conhecemos no  O Abraço da Noite).
Depois que Styxx foi castigado pela Artemis com o conhecimento e a dor das lembranças da vida humana do Ash, parece arrependido por tudo o que lhe fez quando estavam vivos; por isso penetra na casa de Ash em Katoteros para lhe pedir perdão…
Acheron não sabe o que fazer com a presença do seu irmão Styxx no seu lar (debatendo-se intensamente em se devia ou não matá-lo), por isso fica incrivelmente surpreso quando este parece estar arrependido por tudo o que lhe fez…
Mas como desgraçadamente há coisas que um "sinto muito" não pode reparar, Acheron  debate-se  com seus sentimentos sobre o que deve fazer com respeito ao surpreendente favor que Styxx lhe pede…
Ressaltando a decisão de Ash com respeito a seu “irmão”, sinta as bases para as futuras aparições desta personagem…”



"Um arrepio de dejà vu desceu abaixo pela espinha de Ash enquanto andava ao longo de um corredor horripilante, envolto em névoa que desejou não tornar a ver jamais. O reino inferior de Tártaros era reservado para aqueles que eram punidos na vida após a morte por crimes cometidos em uma vida humana.
O grito dos amaldiçoados ecoava nas paredes tão negras quanto à própria alma de Ash. Teria que dar crédito a Hades, o ancestral deus grego, definitivamente sabia como fazer as pessoas sofrerem.
Em momentos como esse Ash odiava ser um deus. Era insuportável saber que tinha o poder de parar e mudar as coisas, e a responsabilidade profunda de deixar a natureza tomar seu curso. O livre arbítrio humano nunca deveria ser alterado. Sua própria condenada história era um lembrança constante exactamente do porquê.
 A sua realidade o corroí constantemente. Como desejaria que Artemis, Hades e muitos dos outros deuses que não faziam caso do sofrimento humano, como sendo algo normal.
Mas sendo uma vez humano Ash não era imune a ele. Compreendia o que levava as pessoas a tomarem decisões erradas, pelas quais que pagariam eternamente. E essa parte humana de si mesmo queria aliviar suas dores desesperadamente.
Foi um presente agridoce que a sua mãe lhe deu quando tomou a decisão de escondê-lo no mundo humano. Até hoje não sabia se agradecia ou a amaldiçoava por isso.
Hoje, queria amaldiçoá-la
—Não tens que fazer isto.
Ignorou a voz de Artemis na sua cabeça. Tinha que fazer isto. Já era tempo.
Ash parou à entrada de uma porta coberta por um filme incandescente. Brilhava como um fino óleo retirado do arco-íris na luz ténue. Para sua surpresa, não havia nenhum som proveniente do seu interior. Nenhum movimento. Era como se o ocupante estivesse morto.
Mas ao contrário de outros que viviam no Tártaro, esta pessoa em particular não poderia morrer.
Pelo menos não enquanto Ash vivesse, e sendo um deus...
Usou seus poderes para abrir a porta sem a tocar.
Estava completamente escuro dentro do pequeno quarto, sem lustres. Imagens de horror do seu passado humano o assaltaram perante essa visão. Emoções à muito enterradas, o rasgavam como punhais de dor que laceravam seu coração. Quis correr deste lugar. Soube que não poderia.
Cerrando os dentes, Ash forçou a si mesmo a dar os seis passos que o separavam do homem que estava curvado como uma bola a um canto. Uma réplica idêntica de si mesmo, o homem tinha um longo cabelo louro emaranhado devido ao longo tempo que passara aqui e não o tinha aparado.
Mas Ash nunca usava o cabelo louro. Era uma lembrança miserável de um momento do seu passado que quis condenadamente esquecer.
O homem no assoalho não se movia. Seus olhos estavam fortemente fechados, como uma criança que pensasse que se não fizesse nenhum som nem se movesse, o pesadelo terminaria.
Ash tinha vivido um longo período em semelhante estado, e como o homem em sua frente, clamava pela morte repetidamente. Mas ao contrário de suas preces, que nunca foram atendidas, as de Styxx seriam.
— Styxx — ele falou com seu grave tom ressonando pelas paredes.
Styxx não reagiu.
Styxx gritou quando Ash rompeu completamente com as memórias brutais de horror que Mnimi, deusa da memória, tinha dado a Styxx como punição por tentar matar o seu irmão. Era uma punição a qual Ash nunca havia concordado. Ninguém necessitava recordar o seu passado humano. Nem mesmo ele.
Podia ouvir os pensamentos de Styxx enquanto deixava o passado de Ash e retornava o controle de si.
Sabendo que seu irmão estaria desagradado com ele, Ash deixou-o e deu um passo atrás.
Como humanos, ele e Styxx nunca foram próximos. Styxx  tinha odiado com uma paixão irracional. Da sua parte, Ash tinha agravado esse ódio.
A explicação humana de Ash tinha sido que, o odiariam de qualquer maneira, então deu a todos bons motivos para isso. Tinha sido sua maneira de repudiá-los. Foi a sua maneira de antagonizá-los.
Somente sua irmã tinha-lhe dado a sua bondade.
E no fim, Ash a tinha traído...
Styxx esforçou-se para respirar enquanto se tornava consciente do facto de que ele não era Acheron.
Eu sou Styxx. Príncipe grego. Herdeiro...
Não, não era o herdeiro legítimo de nada. Acheron tinha sido. Ele e o seu pai tinham roubado isto de Acheron.
Tinham tomado tudo dele.
Tudo.
Pela primeira vez em onze mil anos, Styxx compreendeu essa realidade. Apesar do que seu pai o tinha convencido, tinham tratado injustamente Acheron ao extremo.
 A deusa grega Mnimi tinha estado certa. O mundo como o príncipe Styxx o tinha visto, havia sido encoberto por mentiras e pelo ódio.
O mundo de Acheron tinha sido inteiramente diferente. Tinha sido embebido na solidão e na dor, e decorado com terror. Era um mundo que ele nunca sonhara existir. Cercado e protegido toda a sua vida, Styxx nunca tinha recebido um único insulto. Nunca conheceu  a fome ou sofrimento.
Mas Acheron sim...
Seu corpo agitou-se incontornavelmente, prestou atenção a escuridão e frio do quarto. Tinha visto tal lugar nas memórias de Acheron.
Um lugar que haviam desejado alegremente que Acheron enfrentasse sozinho. A diferença era que este lugar estava mais limpo. Menos assustador.
E ele era muito mais velho do que Acheron tinha sido.
Styxx cobriu seus olhos e se contraiu quando essa agonia o rasgou de uma maneira diferente. Sentiu as emoções de Acheron. Sua desesperança. Seu desespero.
Ouviu os gritos de Acheron pedindo pela morte. Suas suplicas silenciosas por misericórdia, silenciosas porque expressa-las só faria piorar a sua situação.
Elas ecoaram e o recordaram do passado.
Quantas vezes Styxx o tinha magoado? A culpa o remoía, ficando doente por isso.
— Tirarei-as de ti.
Styxx se sobressaltou com a voz que soou idêntica a sua, excepto pelo suave timbre rítmico que Acheron possuía dos anos passados em Atlântida.
Os anos que Styxx desejou aos deuses poder voltar atrás e alterar. Pobre Acheron. Ninguém merecia o que lhe tinha sido destinado.
— Não — Styxx disse calmamente, sua voz  agitou-se enquanto se aproximava dele. — Não o quero de ti.
Olhou de relance e viu a surpresa no rosto de Acheron.
Algo que Acheron rapidamente escondeu atrás de uma máscara de estoicismo.
— Não há nenhuma razão para que  saibas tudo isso sobre mim. Minhas memórias nunca seriam um boas para ninguém.
Isso não era verdade e Styxx o sabia.
—Se tirares elas de mim,  te odiarei  outra vez.
— Não me importo.
Sem dúvida. Acheron estava acostumado a ser odiado.
Styxx levantou o seu olhar encontrando o dele indecifrável.
— Eu importo-me!
Ash não pode respirar das emoções cruas que sentiu enquanto via Styxx a colocar-se a seus pés.
Eram tão semelhantes fisicamente e não obstante extremo opostos no que concernia a seu passado e seu presente.
Tudo que tiveram realmente em comum na terra era que ambos herdaram. Styxx iria herdar o reino grego de seu pai enquanto Acheron tinha sido concebido por uma deusa Atlante para destruir o mundo.
Um destino que nenhum deles nunca tinham cumprido.
Para protegê-lo da ira dos deuses Atlantes que o queriam morto, a mãe verdadeira de Ash tinha o forçado no ventre da mãe de Styxx e amarrado então suas vidas forçando-os assim a proteger Ash. Ash tinha nascido humano contra a sua vontade... e, de encontro à vontade de sua família substituta, que tinha detectado de algum modo que ele não era realmente um deles.
E tinham-no odiado por isso.
— Há quanto tempo estou aqui? — Styxx perguntou, olhando em torno de sua prisão escura.
— Três anos.
Styxx riu amargamente.
— Pareceu uma eternidade.
E provavelmente foi. Ash não desejou que Styxx tivesse que sofrer com as suas memórias do passado humano. Então, outra vez, desejou a si mesmo não as ter vivido.
Limpou a garganta.
— Posso retornar-te à Katoteros outra vez, ou  podes permanecer aqui no submundo. Não posso levá-lo aos Campos Elíseos, mas existem outras áreas aqui que são quase igualmente pacíficas.
— O que  tiveste que negociar com Artemis e Hades para isso?
Ash desviou o olhar, não querendo pensar sobre isso.
— Não importa.
Styxx se aproximou dele, então se deteve.
— Sim importa. Sei o que lhe custa agora... o que lhe custou antes.
— Então  sabes que não me importa.
Styxx discordou.
— Não, sei que  estas mentindo, Acheron. Sou a única pessoa que sabe.
Ash vacilou com a verdade. Mas isso não mudava nada.
— Toma tua decisão, Styxx. Não tenho mais tempo para desperdiçar aqui.
Styxx  aproximou-se mais. Esteve tão próximo agora que Ash poderia ver seu reflexo nos olhos azuis de Styxx. Aqueles olhos perfuraram-no com sinceridade.
— Quero ir a Katoteros.
Ash levantou uma sobrancelha.
— Porquê?
— Quero conhecer meu irmão.
Ash desdenhou.
— Não tens um irmão —  lembrou-lhe. Foi algo que Styxx tinha proclamado alto e claro ao longo dos séculos.
— Compartilhamos somente um ventre por um curto período de tempo.
Styxx fez algo que nunca tinha feito antes. Esticou-se e tocou o ombro de Ash. Aquele toque queimou, quando lhe recordou o menino que tinha sido, que não tinha querido nada mais do que o amor da sua família humana.
Um menino que renegaram e espantaram.
—Disseste-me uma vez, há muito tempo — Styxx disse em um tom áspero —  olhando  como se tivesse a um espelho e a ver a sua cara. Recusei então. Mas Mnimi tem-me forçado agora a olhar para o meu próprio reflexo. Vi através dos meus olhos e vi como os teus. Desejei aos deuses que pudessem mudar o que aconteceu entre nós. Se pudesse voltar atrás, nunca o negaria. Mas não posso. Ambos sabemos. Agora apenas quero a possibilidade conhecê-lo como deveria tê-lo conhecido todos aqueles séculos passados.
Enfurecido por seu discurso nobre e por um doloroso passado que nenhum mero punhado de palavras poderia aliviar, Ash usou seus poderes para fixá-lo de volta à parede, longe dele. Styxx pairou como uma águia com as asas estendidas, acima do assoalho, com a  cara pálida enquanto Ash lhe mostrava seus poderes. Poderia dizer pelos pensamentos de Styxx que estava ciente de exactamente o que poderia lhe fazer. Mesmo que estivessem conectados, Ash poderia matá-lo com um único pensamento. Poderia parti-lo em pedaços.
Parte dele o quis fazer. Era a parte dele que tinha se tornado violenta. A parte dele que pertencia a sua mãe real, A Destruidora.
— Não sou um deus do perdão.
Styxx encontrou o seu olhar sem vacilar.
— E eu não sou um homem acostumado a se desculpar. Nós estamos conectados. Tu sabes e eu o sei.
— Como poderia confiar alguma vez em ti?
Styxx quis gritar com essa pergunta. Acheron era direito. Como podia confiar nele? Não tinha feito qualquer coisa excepto ferir o seu irmão.
Tinha tentado mesmo matá-lo.
—Não podes. Mas vivi dentro das tuas memórias pelos últimos três anos. Sei a dor que escondes. Sei a dor que causei. Se permanecer aqui, ficarei louco pelos gritos. Se retornar à ilha Desaparecida, estarei lá sozinho e a tempo aprenderei provavelmente a odiar-te mais uma vez.
Styxx  deteve-se quando a dor o inundou com a verdade.
— Não quero odiar-te nunca mais, Acheron. És um deus que pode controlar o destino humano. Não é possível que haja uma razão pela qual nós fomos unidos? Certamente os destinos designaram para que fossemos irmãos.
Ash desviou o olhar enquanto aquelas palavras ecoavam na sua cabeça.
Era uma crueldade divina que pudesse ver o destino de todos em torno dele, à excepção daqueles que eram importantes para ele ou daqueles cujos destinos foram entrelaçados com o seu. Tinha o destino do mundo inteiro nas suas mãos, no entanto não poderia ver seu próprio futuro.
Quanto lixado era isso?
Quanto injusto?
Prestou atenção a seu "irmão", Era mais provável que devia lhe falar. No entanto detectou algo diferente sobre ele.
Esquece-o. Apaga a sua memória sobre ti e deixe-o aqui à podridão.
Era mais amável do que qualquer coisa que Styxx lhe tinha feito alguma vez. Mas no mais profundo de si, abaixo em um lugar que Ash odiava, estava essa criança que tinha estendido a mão para seu irmão. Esse pequeno que tinha gritado repetidamente para sua família, somente para  encontrar-se sozinho.
Deveria Ash renegar a esse menino, também?
Depositou Styxx no chão.
Ash não se moveu enquanto as memórias e as emoções que acordavam o assaltavam. Pode detectar que Styxx estava aproximando-se. Enrijeceu-se pelo hábito. Sempre que Styxx se tinha aproximado, tinha-o ferido.
— Não posso mudar o passado — Styxx sussurrou — Mas no futuro darei contente a minha vida pela tua, irmão.
Antes de perceber o que Styxx estava fazendo, Styxx puxou-o para perto.


Contudo Ash não se moveu quando sentiu os braços de Styxx em torno dele. Tinha sonhado com esse momento quando criança. Tinha ansiado por ele.
O deus irritado dentro dele quis quebrar Styxx em partes por ousar tocá-lo agora, mas essa parte inocente dele... o coração humano se quebrou. Foi essa parte que escutou.
Ash envolveu os seus braços em torno do seu irmão e abraçou-o pela primeira vez em suas vidas.
— Estou tão arrependido! — Styxx disse em um tom áspero.
Ash assentiu enquanto se afastava.
— Errar é humano, perdoar é divino.
Styxx negou com a cabeça com a citação.
— Não peço o teu perdão. Não o mereço. Peço somente uma possibilidade de mostrar agora que não sou o tolo que fui uma vez.
Ash esperava somente poder acreditar. As probabilidades estavam contra ambos. Cada vez que Styxx tinha recebido uma oportunidade de concertar o  seu passado, tinha-a usado para feri-lo ainda mais.
Fechando seus olhos, Ash teletransportou-os fora de Tártaros para o Katoteros, o reino que tinha sido uma vez casa dos deuses Atlante.
Styxx separou-se para olhar ao vestíbulo opulento onde estavam. Tudo era branco e fresco, quase estéril.
— Este é o lugar ondes vives — suspirou impressionado pela beleza.
— Não — Acheron disse quando cruzou seus braços sobre o peito, então indicou as janelas altas e douradas, que mostraram as águas calmas que esticavam para o horizonte. — Vivo depois do rio Athlia, no outro lado das costas de Lypi. Não há nenhum Caronte para levá-lo através do rio a minha habitação, assim não te incomodes em procurá-la.
Ficou confundido completamente por aquilo.
— Não compreendo.
Acheron deu um passo atrás e Styxx ficou desconcertado pela suspeita que viu nos olhos prateados de seu irmão.
—Assegurarei-me que tenhas empregados e tudo que  possas desejar aqui.
— Mas, pensei que estaríamos juntos.
Acheron sacudiu  a  cabeça.
— Fizeste a  tua escolha e quiseste vir para aqui. Então aqui estas.
— Mas isto não era o que queria! Tinha pensado...
Styxx tentou aproximar-se somente para encontrar seu caminho barrado por uma parede invisível.
— Pensei que tinhas dito que errar era humano, e perdoar divino.
Fitou-o, aqueles olhos prateados queimaram-no.
— Sou um deus, Styxx, não um santo. Perdoo-te, mas confiar em ti é outra questão. Como disseste, terás que provar. Até lá, nós tomaremos um passo de cada vez e então veremos o que nos acontecerá.
E assim que aquelas palavras foram ditas, Styxx encontrou-se sozinho. "




1 comentário:

  1. Adorei......realmente o momento da confiança parece ter chegado quando o styxx se arrisca para salvar a Tory!!!!Tréguas...finalmente!

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