segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O Pomar - Memórias de Ryssa





O Pomar - Memórias de Ryssa




21 de junho, 9527 Antes de Cristo

"Hoje estivemos no pomar. Para dizer a verdade, passamos toda manhã ali, rindo e provando as deliciosas frutas do jardineiro. O jardim estava lindo. Pacífico. As folhas eram de um impressionante verde acentuado pelas vermelhas e douradas maçãs que explodiam em um doce e suculento sabor. Até mesmo os velhos muros de pedra estavam tranquilos, cobertos por vinhas que floresciam.
Não é de se estranhar que Acheron o prefere a qualquer outro lugar do palácio. O ar primaveril era fresco e cálido, poderia passar horas vendo a forma em que Acheron desfruta das coisas mais simples, como a sensação do sol em sua pele. A relva abaixo de seus pés descalços.



Claro, sua vida não tinha muito daquelas coisas. Como desejaria poder lhe dar outra vida. Uma melhor. A vida que merecia, onde ninguém pudesse lhe fazer mal por coisas que não tinha culpa. Onde as pessoas pudessem ver toda a beleza que vejo nele e conhecessem a alma tão gentil que possui. Não é o monstro que teme apesar de suas anormalidades.

Enquanto o via inalar o perfume de uma maçã antes de colocá-la no monte que havia colhido, espantei-me  com o quanto havia mudado nos últimos meses. Pela primeira vez me recordou a um jovenzinho de quatorze anos e não a um ancião desgastado e sem entusiasmo. Havia finalmente aprendido a confiar em mim. Em confiar que aqui estava são e salvo. Que não havia nada para temer. Podia ser ele mesmo, sem ser servil e temeroso de ser agarrado e magoado. Ah, a dor que sinto quando penso na vida que teve em Atlântida. Como pode nosso tio tratá-lo assim? Ainda posso ver Acheron encadeado. Ver esse vazio superficial em seus olhos quando me olhou pela primeira vez e não tinha ideia de quem eu era. De quem era ele.


Posso ter falhado com ele antes, mas jurei não falhar novamente. Aqui conhece a paz e a felicidade. Aqui farei tudo que estiver ao meu alcance para mantê-lo longe do mundo que não o entende ou suporta. Enquanto colhia as maçãs, recordou-me um esquilo que pula de árvore em árvore recolhendo seu tesouro. Era um menino tão bonito. Em meu coração sei que ele e Styxx são gêmeos, e ainda assim enquanto o olho, arrepia-me com as suas diferenças. Acheron se movia de maneira mais elegante. Sem sobressaltos. Era mais fino, seu cabelo um pouco mais dourado e seus músculos mais definidos. Sua pele mais suave. E esses olhos... Eram encantadores e aterradores.




Depois de terminar, me trouxe seu tesouro e o colocou em forma de círculo para que eu pudesse escolher as maçãs que queria primeiro. Sempre foi assim de considerado. Pensando primeiramente nos outros. Tinha vivido como um animal que era abusado com o único propósito de entreter a outros.


- Achas que pai virá nos visitar em breve?- perguntou enquanto se recostava de lado, olhando enquanto eu mastigava uma maçã. Podia sentir que me analisava para ver se mentia. Seus prateados olhos de redemoinho eram esmagadores quando se colocavam tão penetrantes. Com razão seu tio o golpeava por olhar as pessoas. Era tão desconcertante e até aterrador estar sob tal escrutínio. Mas não merecia ser golpeado por algo que não podia evitar.
-Virá quando puder.

Olhou para o outro lado, decepcionado, enquanto brincava com sua maçã. Não estava segura de quanto tempo mais poderia manter minha mentira ante os dois. Pai pensava que eu estava aqui sozinha e que necessitava de tempo sozinha antes do meu casamento que estava por vir. Acheron não tinha ideia que ocultava sua presença aqui e que vivia cada dia com medo de que nos descobrisse.


Querendo o animar e tranquilizar, estendi minha mão para tirar uma mecha dourada de seus olhos. Reagiu enrijecendo, passando rapidamente ao menino que encontrei em Atlântida. Tirei minha mão, o que fez que se relaxasse imediatamente.
-É essa a ternura do amor verdadeiro que você fala?- perguntou com uma voz indecisa. – essa das pessoas que te amam, te tocam sem pedir nada em troca?
-Sim.- respondi.
Sorriu-me, de maneira aberta e honesta como a de um menino.

–Acho que eu gosto.
E foi ai que ouvi algo que fez meu coração parar. Passos se aproximavam. Sabia que não deveria haver tais sons em nosso paraíso temporário. Os empregados não viriam a esse lugar enquanto nós dois estivéssemos colhendo maçãs. Sabiam que não deviam incomodar a família real. Apenas uma pessoa viria.

E soube que era nosso pai quando Acheron se sentou instantaneamente, seu rosto extremamente feliz. Fechei meus olhos e temi de pânico quando fiz o esforço de levantar e enfrentá-lo. Seu rosto zangado, pai estava entre as velhas colunas de pedra que delineavam a entrada do pomar com Styxx a seu lado. O sangue se congelou em minhas veias. Queria mandar Acheron correr e se esconder, mas era muito tarde. Ja estavam muito perto.

-Pai.- disse em uma voz baixa. – Porquê está aqui?
-Onde têm estado?- exigiu enquanto dava um passo a frente. – Já estamos no meio do ano e ninguém te viu.

-Disse-te que queria um tempo sozinha…
-Pai?- a voz entusiasmada de Acheron chegou aos meus ouvidos. Esta era a primeira vez que o jovem o via. Até agora, Acheron não tinha ideia de como era seu pai.
Horrorizada, o vi correr e abraçar papá. A diferença de Acheron, sabia que bem-vinda receberia. Meus temores eram corretos, pai o lançou impiedosamente a um lado e fez uma careta de desgosto. Acheron franziu o cenho confundido enquanto me olhava pedindo uma explicação. Não conseguia falar. Como podia dizer que o havia mentido, quando tudo que queria, era tornar sua vida muito melhor?

-O que faz ele aqui?- pai exigiu.
Abri minha boca para explicar, mas fui distraída pela forma em que os gêmeos se estudavam um ao outro. Fiquei dominada por sua curiosidade mútua. Mesmo que soubessem da existência um do outro, jamais haviam se encontrado durante uma década. Nenhum dos dois lembrava o que era ver-se e interagir um com o outro.


No rosto de Acheron havia alegria. Podia notar que queria abraçar  Styxx, mas depois da acolhida de papá, estava receoso. Styxx não se via em nada feliz. Olhava a Acheron como se fosse um pesadelo ganhando vida.
-Guardas! -papá gritou.
-O que está fazendo?- perguntei, sem poder compreender porquê papá chamaria os guardas para seu próprio filho.

- Mando-o de volta a onde pertence.
A mandíbula de Acheron ficou frouxa. Meu coração batia rapidamente, temendo que voltassem a enviar-lhe àquele lugar.
–Não pode fazer isso.
Papá  voltou-se  olhando-me com ódio.
–Perdeste a razão, mulher? Porque mimarias  tal monstro?
-Pai, por favor.- Acheron suplicou, caindo de joelhos  ante ele. Pôs os seus braços ao redor das pernas de pai com seus olhos cheios de lágrimas. – Por favor, não me mande de volta. Farei o que quiser. Eu juro. Serei bom. Não olharei a ninguém. Não farei danos a nada. Eu juro.

-Não sou teu pai, verme.- Papá disse cruelmente enquanto chutava Acheron para longe. Depois dirigiu-se a mim com puro veneno. – Disse-te, ele não pertence a esta família.
-É seu filho. -disse através de lágrimas de ódio e frustração. – Como pode negar? É seu rosto o que têm. O rosto de Styxx. Como pode amar a um e não ao outro?

Pai  abaixou-se e agarrou a mandíbula de Acheron fortemente com uma mão. Podia ver que seus dedos feriam as bochechas de Acheron enquanto o levantava violentamente para que Acheron pudesse me ver.
 –Esses não são meus olhos. Não são os olhos de um humano.
-Styxx,- disse, sabendo que se conseguisse o colocar do meu lado, poderia influenciar a opinião de papá sobre Acheron. – é teu irmão. Olha.



Styxx negou com a cabeça.

–Não tenho irmão.
Pai empurrou Acheron enquanto o soltava. Acheron ficou de pé sem dizer uma palavra, seus olhos perdidos na realidade do momento. Pelo seu rosto, podia ver-se que estava revivendo o pesadelo que havia experimentado em Atlântida. Cada degradação.

Vi como se magoava diante dos meus olhos. Já havia ido o menino, que finalmente depois de meses de coações carinhosas, havia aprendido a sorrir e confiar, e em seu lugar estava a derrotada, sem esperança casca que havia encontrado. Seus olhos estavam ocos, vazios.

Acheron deixou cair sua cabeça e abraçou a si mesmo, como se pudesse proteger de brutalidade de um mundo que não o queria nele. Quando os guardas entraram no pomar e papá os disse que o levassem de volta a Atlântida, Acheron os seguiu sem brigar ou dizer qualquer palavra. Era de novo sem pretensões ou opiniões. Já não tinha vontade própria ou  sequer voz. Era o que tinha sido.
Com somente algumas palavras bruscas, pai havia destruído a todas minhas semanas de tenro cuidado. Lancei um olhar de ódio ao papá pelo que estava fazendo.
–Eles o maltratam, pai. Ele…
Meu pai me esbofeteou por essas palavras.
–É do meu irmão que falas. Como te atreves!

Meu rosto doía, mas não me importei. Não podia ficar calada e deixar que destruíssem a alma de uma criança inocente que deveria ser mimado, não jogado de lado como se não fosse nada.
-E é meu irmão que se desfaz. Como te atreves!- não esperei para ver o que mais dizia. Corri atrás de Acheron. Estava esperando que trouxessem os cavalos na frente da entrada do palácio. Sua cabeça estava inclinada de forma tão baixa que me lembrava uma tartaruga que só queria meter sua cabeça em sua carapaça para que ninguém mais a visse. O aperto de seus braços era tão forte que os nós de seus dedos estavam brancos. Estava em pé como uma estátua.

-Acheron?
Negava-se a olhar-me.
-Acheron, por favor. Não sabia que viria hoje.
-Mentiste para mim. –simplesmente disse, enquanto olhava de forma vazia o chão. – Disseste que  o pai me amava.Disseste que era um príncipe de alto berço. Que tinha família.
Lágrimas caíram dos seus olhos. –Eu sei, Acheron. Sinto muito.
Então me olhou, seus olhos prateados atormentados. –Fizeste-me acreditar que me queriam. Que valia a pena.

-Eu te quero, Acheron. E és inestimável para esse mundo. É precioso para mim.
Ele negou com a cabeça.
–Nunca deveria ter saído de meu quarto sem escolta. Akri me castigara por ter fugido…– seus olhos se encheram de terror enquanto o apertão de seus braços aumentava. Não podia sequer imaginar o que lhe e esperava em Atlântida.




Os cavalos foram trazidos. Quando Acheron disse suas palavras, estas eram um suave sussurro e de uma dor que chegavam ao coração. –Queria que  nunca tivesse-me tirado de lá.
Estava certo, e no mais profundo de meu coração, eu sabia. Tudo o que havia feito em minha estupidez, foi feri-lo ainda mais. O havia mostrado uma vida melhor, uma onde era respeitado e lhe davam escolhas. Agora não tinha nada que dizer sobre sua vida. Seria muito menos que nada em Atlântida.



Solucei quando um guarda o agarrou e o arrastou a um carro. Acheron não voltou a  olhar-me.Dei-me conta que na verdade devia me odiar pelo o que havia feito. E não podia o culpar por isso. Com o coração doído, fiquei de pé e os vi  se afastando.
Se havia ido e não tinha esperanças de que alguma vez o ver livre. Papá se asseguraria disso. E assim recordei as palavras da sacerdotisa no dia de seu nascimento. Que os deuses tenham piedade de ti pequeno. Ninguém mais o terá."




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