sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O Começo ( The Beginning)








Grecia, 7382 AC,


" Acheron sentiu uma presença atrás de si. Deu meia volta, preparando a defesa e esperando que fosse mais um ataque de um Daemon. Não era. Era Simi pendurada numa árvore de cabeça para baixo. As suas asas compridas cor de vinho incorporavam-se no seu corpo de criança. Usava um quíton largo e preto e uma capa que ondulava ao sabor da brisa da noite. Os seus olhos vermelhos cor de sangue brilhavam misteriosamente na escuridão enquanto o seu longo cabelo preto balouçava até ao chão. Acheron relaxou e apoiou uma das pontas do seu bastão no solo para vê-la melhor.
- Onde estiveste, Simi? - perguntou, severamente.
Acheron chamava-a há mais de meia hora.
- Andei pendurada para aí, akri - disse ela, sorrindo à medida que ia balançando no galho. - O akri teve saudades minhas?
Acheron suspirou. Ele amava Simi mais do que a sua própria  vida, mas gostaria de ter um demónio mais maduro como companhia. Não um que, com cinco mil anos, se comportava como uma criança humana de cinco. Simi levaria séculos a amadurecer.
- Entregaste a minha mensagem? - perguntou ele.
- Sim, akri - disse ela, usando o termo atlante para mestre e senhor. - Entreguei-a tal como pedistes, akri.
Acheron sentiu um formigueiro na parte de trás do pescoço. Alguma coisa não estava bem.
- O que fizeste, Simi?
- A Simi não fez nada, akri. Mas...
Ele esperou. Ela estava nervosa.
- Mas? - lembrou-lhe ele.
- A Simi estava zangada no caminho de volta.
Ele gelou por dentro.
- Quem foi que comeste?
- Não foi quem, akri. Foi uma coisa com corninhos na cabeça como eu. Havia muitas. Todos tinham corninhos e faziam um muu-muu estranho.
Ele franziu as sobrancelhas com aquela descrição.
- Queres dizer, vacas? Comestes gado?
Ela sorriu.
- É isso, akri. Comi gado.
Então, porque estava tão preocupada?
- Não tem nada de mal.
- Pois não, na verdade até era muito bom, akri. Porque não falaste de vacas com a Simi? São muito saborosas no churrasco. A Simi gostou muito. Temos de arranjar mais muu-muu. Acho que cabem dentro de casa.
Ele ignorou o seu comentário.
- Então, porque estás preocupada?
- Porque um homem muito alto, só com um olho, saiu de uma caverna e começou a gritar com a Simi. Disse que a Simi era má por comer as vacas e que tinha de pagar por elas. O que quer isso dizer, akri? Pagar? A Simi não sabe nada sobre pagar.
Acheron gostava de poder dizer o mesmo.
- Esse homem muito grande era um ciclope.
- O que é um ciclope?
- Um filho de Poseidon.
- Sim, isso foi o que ele disse. Só que não tinha cornos. Tinha uma grande careca.
Acheron não queria falar sobre a grande careca do ciclope com o seu demónio. O que precisava de saber era como melhorar o apetite feroz dela.
- O que te disse o ciclope?
- Que ficaria zangado se a Simi comesse o gado. Afirmou que as vacas cornudas pertenciam a Poseidon. Quem é Poseidon, akri?
- Um deus grego.
- Ah! Então, a Simi não está metida em sarilhos. Basta matar o deus e fica tudo bem.
Acheron teve de esconder o seu sorriso.
-Não podes matar um deus, Simi. Não é permitido.
- Lá estás tu outra vez a dizer que não à Simi, akri. Não comas isso, Simi. Não mates aquilo, Simi. Fica aqui, Simi. Vai a Katoteros, Simi, e espera até que eu te chame - ela cruzou os braços e franziu as sobrancelhas. - Não gosto que me mandem fazer coisas,akri.
Acheron fez uma careta devido à dor que sentia na parte de trás da cabeça. Gostava que lhe tivessem dado um papagaio de estimação como prenda de anos. O demónio charonte ia ser a sua perdição...outra vez.
- Porque estavas a chamar pela Simi, akri?
- Queria que me ajudasses com os Daemones.
Ela relaxou e voltou a balouçar no galho da árvore.
- Não parece que precisas da minha ajuda, akri. A Simi acha que te desembaraças muito bem deles. Gostei particularmente da maneira como um daemon voou antes de o matares. Muito bem. Não sabia que eles ficavam tão coloridos quando explodiam.
Saindo do galho, Simi colocou-se a sua lado.
- Onde vamos agora, akri? Levas a Simi outra vez a um sítio frio? Gostei daquele onde estivemos. A montanha era muito bonita.
Acheron? Ele imobilizou-se ao ouvir Ártemis evocá-lo. Soltou mais um suspiro profundo. Durante dois mil anos, ignorara-a. Mesmo assim, ela insistia em chamá-lo. Uma vez, ela procurara-o «pessoalmente», contudo, ele bloqueara essa sua habilidade. A telepatia dela era o único contacto que não conseguia travar.
- Anda, Simi - disse ele, começando a viagem que o levaria de volta a Therakos.
Os daemones instalaram uma colónia naquele lugar e pilhavam os pobres gregos que lá viviam numa pequena aldeia. Acheron. Preciso da tua ajuda. Os meus novos Predadores da Noite precisam de um instrutor.Imobilizou-se ao ouvir as palavras de Ártemis. Novos Predadores da Noite? Que raio era isso?
- O que fizeste, Ártemis?
A sua voz suspirou no vento, viajando até ao Olimpo, onde ela aguardava no seu templo. Com que então, falas comigo. Ele sentiu o alívio no tom dela. Comecei a pensar se alguma vez voltaria a ouvir o som da tua voz. Acheron enrolou os lábios. Não tinha tempo para aquilo. Acheron? Ele ignorou-a. Ela não percebeu a dica. A ameaça Daemon está a espalhar-se muito depressa para ti. Precisas de ajuda, e eu dei-ta. Ele riu-se com a ideia da ajuda dela.
A deusa grega nunca fizera nada por ninguém. Só por ela.
- Deixa-me em paz, Ártemis. Acabámos, tu e eu. Tenho um trabalho a cumprir e não posso perder o meu tempo contigo.
Que assim seja. Enviá-los-ei sem estarem preparados. Se morrerem, bem, quem se importa com um humano? Posso fazer mais para lutarem. Era um truque. Só que, no fundo, Acheron sabia que não o era realmente. Provavelmente fizera mesmo aqueles Predadores da Noite e, se fosse verdade, arranjaria mais.
Especialmente se ele se sentisse culpado por isso. Maldita. Tinha de ir ao seu templo. Pessoalmente, preferia ser desventrado. Engoliu em seco com a imagem, o que não ajudou à piada. Olhou para o seu demónio.
- Simi, preciso de ver Ártemis. Volta para Katoteros e porta-te bem até eu te chamar.
O demónio fez uma careta.
- A Simi não gosta da Ártemis, akri. Gostava que deixasse a Simi matar essa deusa. A Simi arrancava-lhe o cabelo vermelho comprido.
Ele conhecia bem a sensação.
- Eu sei, Simi, e é exactamente por isso que quero que fiques em Katoteros - ele afastou-se, voltando-se depois para ela. - E, pela minha saúde, por favor não comas nada até eu chegar. Principalmente se for humano.
- Mas...
- Não, Simi. Nada de comer.
- Não, Simi. Nada de comer - gozou ela. - A Simi não gosta disto, akri. Katoteros é muito chato. Não há nada de engraçado lá. Só pessoas velhas, já mortas, que querem voltar para aqui. Blé!
- Simi...- disse ele, com voz grossa.
- Eu oiço e obedeço, akri. A Simi só não disse que ia fazer tudo em silêncio.
Ele abanou a cabeça ao incorrigível demónio. Depois, dirigiu-se para o templo de Ártemis, no Olimpo. Acheron foicou no cimo da ponte dourada que atravessava o rio. O som da água ecoava nos lados mais inclinados das montanhas que se elevavam em seur edor Nos últimos dois mil anos, nada mudara. Toda a área no topo da montanha era feita de pontes reluzentes e de caminhos pedestres cobertos por uma neblina de arco-íris que dava para a maior parte dos templos dos deuses. As casas do Monte Olimpo eram opulentas e maciças, perfeitas para os egos dos deuses que lá viviam. A de Ártemis era feita de ouro, com uma cúpula e colunas brancas de mármore. Da sala do trono, a vista do  céu e do mundo lá em baixo era impressionante. Pelo menos era, na sua juventude. Contudo, isso fora antes de o tempo e a experiência encherem a sua apreciação de preconceitos. Para ele, já nada havia espectacular ou bonito. Apenas via a vaidade invejosa e a frieza dos olímpicos. Estes novos deuses eram muito diferentes daqueles que Acheron conhecera nos seus tempos de humano. Só um dos deuses atlantes é que não tivera compaixão. Amor. Bondade. Perdão. O seu nascimento pendente fora o único momento em que os Atlantes se deixaram guiar pelo medo - esse erro custou--lhe a todos as suas vidas mortais e permitira aos deuses do Olimpo substituí-los. Fora um dia muito triste para o mundo humano. Acheron obrigou-se a atravessar a ponte que dava para o templo de Ártemis. Há dois mil anos, deixara aquele lugar e esperara nunca mais voltar. Devia ter eprcebido que, mais cedo ou mais tarde, ela elaboraria um plano para fazê-lo regressar. Engolindo em seco de raiva, Acheron usou o seu poder de telecinesia para abrir as portas enormes e douradas. Foi instantaneamente atingido pelo som dos gritos estridentes que as criadas de Ártemis soltaram. Não estavam de todo acostumadas a ver um homem entrar no domínio privado da sua deusa. Ártemis sibilou ao ouvir guinchos, fazendo-as desaparecer rapidamente.
- Mataste-as às oito? - perguntou Acheron.
Ártemis esfregou as orelhas.
- Era o que devia ter feito, mas não. Simplesmente enviei-as para o rio, lá fora.
Surpreendido,ele olhou-a Aquela atitude era muito diferente da da deusa que ele conhecia. Nestes últimos dois mil anos, talvez tivesse aprendido a ter um pouco de compaixão e piedade. Contudo, conhecendo-a como a conhecia, isso era muito pouco provável. Agora que estavam a sós, ela desceu dos seu almofadado trono de marfim e aproximou-se dele. Usava uma túnica fina, branca, que lhe desenhava as curvas dos corpo voluptuoso e que lhe fazia sobressair os caracóis ruivos. Os olhos verdes brilhavam com uma calorosa receptividade. O seu olhar trespassou-o como uma lança. Sensual.Fulminante. Amargo. Ele sabia que voltar a vê-la seria doloroso - fora uma das razões pelas quais ignorara sempre o seu chamamento. No entanto, adivinhar algo e experienciá-lo eram duas coisas completamente diferentes. Prepara-se para as emoções que ameaçavam assolá-lo quando voltasse a vê-la. O ódio. A traição. A pior de todas era a necessidade. A fome. O desejo. Uma parte dele ainda a amava. Uma parte disposta a perdoá-la por tudo. Até pela sua morte...
- Estás com um óptimo aspecto, Acheron. Tão bonito com a última vez que te vi.
Ártemis estendeu a mão para tocá-lo. Ele afastou-se para ela não o alcançasse.
- Não vim para pôr a conversa em dia, Ártemis. Eu...
- Costumavas tratar-me por Artie.
- Costumava fazer muitas coisas que não faço agora.
Ele olhou-a duramente de forma a recordá-la de tudo o que lhe fizera e do que o privara.
- Ainda estás zangado comigo.
- Achas?
Os olhos dela incendiaram-se num verde-esmeralda, fazendo-o lembrar do demónio que residia no seu corpo divinal.
- Sabes, podia ter-te obrigado a vir ter comigo. Tenho sido bastante tolerante com a tua provocação. Mais do que devia.
Ele desviou o olhar, sabendo que ela tinha razão. Ela, sozinha, possuía o sustento de que ele precisava de funcionar. Quando passava muito tempo sem o sangue dela, tornava-se um assassino incontrolável. Um perigo para todos os que se aproximassem dele. Apenas Ártemis tinha a chave daquilo que o mantinha como estava. São. Inteiro. Compassivo.
- Porque não me obrigaste a ficar a teu lado? - perguntou ele.
- Porque te conheço. Se tivesse tentado, tu farias com que nós os dois pagássemos por isso.
Mais uma vez, tinha razão. Os seus dias de subjugação há muito que haviam terminado. Já tinham bastado na sua infância e juventude. Ao provar a liberdade e o poder, percebera que gostava demasiado dessas sensações para voltar ao que fora.
- Fala-me dos tais Predadores da Noite - disse ele. - Porque os criaste?
- Já te disse. Para te protegerem.
Ele enrolou o lábio de cima, com raiva.
- Não preciso.
- Eu e os outros deuses gregos não somos dessa opinião.
- Ártemis...
Acheron resmungou o seu nome, sabendo que ela estava a mentir. Ele era mais do que controlar e matar Daemones que perturbavam os humanos.
- Juro que...
Ele rangeu os dentes ao pensar nos primeiros dias da sua nova  vida. Não tinha ninguém para lhe mostrar o caminho. Ninguém para lhe explicar o que precisava de fazer. Como viver. Os novos ficariam perdidos sem um professor. Confusos. E o pior de tudo é que estavam vulneráveis até aprenderem a usar os seus poderes e era muito improvável que Savitar os ensinasse. Maldita.
- Onde estão?
- À espera, em Falossos. Esconderam-se numa caverna que os protege da luz do Sol. Contudo, não sabem o que fazer ou como encontrar os Daemones. São homens que precisam de liderança.
Acheron não queria fazer aquilo. Não queria liderar ninguém nem acatar as ordens de outra pessoa. Não queria ter nenhum contacto com quem quer que fosse. Nunca quis mais nada na vida do que ser deixado em paz. Só pensar que tinha de interagir com outras pessoas... fazia gelar-lhe o sangue.
Tentando a seguir o seu próprio caminho, Acheron sabia que não podia fazê-lo. Se não ensinasse os homens a lutarem e a matarem os Daemons, eles morreriam. Morrer sem alma significava uma existência muito má. De todos os homens, ele era o que mais sabia disso.
- Está bem - disse ele. Treiná-los-ei.
Ela sorriu. Acheron lançou-se do templo de volta para junto de Simi e ordenou-lhe que ficasse onde estava mais um bocadinho. O demónio só complicaria um assunto já por si complicado. Assim que teve a certeza de que ela obedecia, teletransportou-se para Falossos e encontrou os três homens conferenciando na escuridão, tal como a Ártemis dissera. Falavam baixinho entre si, em volta de uma fogueira, por causa do frio. Ainda assim, os seus olhos lacrimejavam com o reflexo das chamas e, como já não eram humanos, não podiam por isso suportar qualquer fonte de luz. Tinha muito a ensiná-los. Acheron avançou, fora das sombras.
- Quem és tu? - perguntou o mais alto, assim que o viu.
O homem era,sem dúvida, um dório com um longo cabelo preto. Era alto, poderosamente constituído e ainda trazia vestida a armadura, completamente danificada. Os homens a seu lado eram gregos loiros. As suas armaduras não estavam em melhor estado do que a do primeiro. O mais novo tinha um buraco no meio do peito, onde fora atingido, no coração, por uma lança.
Estes homens nunca poderiam misturar-se com outras pessoas vestidos daquela maneira. Todos precisavam de cuidados.  De descanso. De instrução. Acheron baixou o capuz do seu quíton preto e olhou para cada um deles. Ao repararem nos seus olhos cor de prata, empalideceram.
- És um deus? - perguntou o homem mais alt. - Disseram-nos que um deus nos mataria se estivéssemos na sua presença.
- O meu nome é Acheron Partenopeu - disse ele, calmamente. - Ártemis enviou-me para vos treinar.
- Eu sou Callabrax, de Likonos - disse o homem mais alto, indicando depois o outro, à direita. - Kyros, de Seklos - E depois, o mais novo do grupo. - E Ias, de Groesia.
Ias afastou-se, com um vazio nos olhos escuros. Acheron conseguia ouvir os pensamentos dele tão claramente como se fossem os seus. A dor do homem tocou-o, fazendo-o engolir em seco, em simpatia.
- Há quanto tempo foram criados? - perguntou-lhes Acheron.
- Eu, há algumas semanas - disse Kyros.
Callabrax abanou a cabeça.
- EU fui criado na mesma altura.
Acheron olhou para Ias.
- Há dois dias - disse ele, com uma voz vazia.
- Ele ainda está doente com a conversão - acrescentou Kyros. - Passou quase uma semana antes que eu me pudesse ...ajustar.
Acheron abafou a vontade de se rir amargamente. Aquela era uma boa palavra para descrevê-lo.
- Já mataram algum Daemon? - perguntou ele.
- Já tentamos - disse Callabrax. - Contudo, é muito diferente do que matar soldados. São mais fortes. Mais rápidos. Não morrem facilmente. Quase perdemos dois homens para eles.
Acheron tremeu só de pensar nos dois homens não preparados para lutarem com os Daemons e na existência horrenda que os aguardava quando morressem sem almas. Foi seguida pela memória da sua primeira visão... Ele afastou o pensamento da sua mente. Apesar de Takeshi ter sido um grande professor, nunca lutara contra um Daemon. A única coisa que Acheron aprendeu foi que tanto ele como Savitar falharam em contar-lhe tudo. Aqueles primeiros anos tinham sido difícies e brutais.
- Vocês os três já comeram?
Eles assentiram com a cabeça.
- Então, venham comigo até lá fora que eu ensino-vos tudo o que precisam de saber para matar um Daemon.
Acheron trabalhou com eles até quase ao pôr do Sol.Partilhou com eles tudo o que conseguiu por uma noite. Ensinou-lhes tácticas novas. Onde e como os Daemons eram vulneráveis. No fim da noite, Acheron levou-os de volta para a gruta.
- Vou encontrar-vos um lugar melhor para se esconderem durante o dia - prometeu ele.
- Eu sou um dório - disse orgulhosamente Callabrax. - Não quero nada mais do que tenho.
- Mas nós, sim - disse Kyros. - Eu e Ias adoraríamos dormir numa cama. E tomar um banho.
Acheron inclinou a cabeça. Depois, dirigiu-se para Ias de modo a juntar-se a ele lá fora. Ficou para trás, deixando Ias passar à frente. Falou-lhe quando se certificou de que ninguém os ouvia.
- Queres voltar a ver a tua mulher - disse baixinho Acheron.
Ele olhou para cima, chocado.
- Como sabes isso?
Acheron não respondeu. Até mesmo como humano, odiava perguntas pessoais, pois iam sempre ter a assuntos sobre os quais ele não desejava falar. Traziam à tona memórias que ele queria apagar. Fechando os olhos, Acheron deixou a sua mente vaguear através do cosmos até encontrar a mulher que atormentava Ias. Liora. Era uma linda mulher, com cabelo tão negro como a asa de um corvo. Olhos tão claros e azuis como o mar aberto. Não era de admirar que Ias tivesse saudades dela. Naquele momento, a mulher estava de joelhos, a chorar.
- Por favor - implorou elas aos deuses. - Por favor devolvam-me o meu amor. Por favor, façam com que os meus filhos tenham o seu pai em casa. Acheron teve pena dela ao vê-la ajoelhada e ao ouvir os seus medos.
Ainda ninguém lhe contara o que acontecera. Rezava pelo bem-estar de um homem que já não estava entre os humanos. Assombrou-o.
- Compreendo a tua tristeza - disse Acheron a Ias. - Mas não podes dizer-lhes que agora viver nesta forma. Os humanos terão medo de ti, se voltares. Vão tentar matar-te.
Os olhos de Ias encheram-se de lágrimas e, quando falou, as suas presas cortaram-lhe os lábios.
- A Liora não tem mais ninguém que tome conta dela. É órfã e o meu irmão foi morto um dia antes de mim. Não existe ninguém para pôr comida na mesa dos meus filhos.
- Não pode voltar.
- Porque não? - perguntou, zangado, Ias. - Ártemis disse-me que eu podia vingar-me do homem que me matou e que sobreviveria para servi-la. Não disse nada sobre não poder ir para casa.
Acheron foi mais directo e duro.
- Ias, pensa um bocadinho. Já não és humano. Como achas que a tua aldeia reagiria se regressasses a casa com presas e olhos pretos? Não podes aventurar-te na luz do dia. A tua fidelidade é para com toda a humanidade, não apenas para com a tua família. Ninguém conseguirá agradar às duas. Nunca poderás voltar.
Os lábios do homem tremeram, mas ele abanou a cabeça afirmativamente.
- Salvo os humanos enquanto a minha família morre à fome,sem ninguém que cuide dela. Então, era esse o meu fardo.
Acheron desviou o olhar com o coração despedaçado.
- Vai lá para dentro ter com os outros - disse Acheron.
Observou Ias a entrar na gruta enquanto pensava nas palavras dele. Não podia deixar que aquilo ficasse assim. Acheron podia agir sozinho, mas os outros...Fechando os olhos, voltou ao encontro de Ártemis. Desta vez, quando as suas criadas abriram as bocas para gritar, Ártemis bloqueou-lhes as corda vocais.
- Deixem-nos - ordenou-lhes.
As mulheres correram para a porta o mais rápido que puderam, batendo com ela atrás de si. Assim que se encontraram sozinhos, Ártemis sorriu-lhe.
- Voltaste. Não esperava ver-te tão cedo.
- Não comeces, Ártemis - disse ele, acabando com a brincadeira dela. - Só estou de volta para gritar comigo.
- Porquê?
- Como te atreves a mentir aos homens para que eles fiquem ao teu serviço?
- Eu nunca minto.
Ele levantou a sobrancelha. Ficando instantaneamente desconfortável, ela aclarou a garganta e encostou-se às costas da cadeira do trono.
- Estavas diferente e eu não menti. Só me esqueci de mencionar alguns detalhes.
- Isso é semântica, Ártemis, e não é sobre mim. É sobre o que lhes fizeste.  Não podes abandonar aqueles pobres desgraçados como tens feito.
- Porque não? Tu conseguiste sobreviver sozinho.
- Sabes muito bem que eles não são como eu. Eu nunca tive nada, nem ninguém para quem voltar. Nunca tive família, nem amigos.
- Não concordo. O que fui eu?
- Um erro do qual me arrependo há dois mil anos.
 Ela corou. Levantou-se do trono e desceu os degraus para se aproximar dele.
- Como te atreves a falar comigo dessa maneira?
Acheron tirou o manto e atirou-a furiosamente para um canto da sala.
-Mata-me, Ártemis. Força. Faz um favor a ambos e livra-me da minha sina.
Ela tentou esbofeteá-lo, mas ele agarrou-lhe no braço e olhou-a nos olhos. Ártemis viu o ódio no olhar dele, a condenação severa. A respiração zangada dos dois misturou-se e o ar à sua volta dava estalidos devido à dos seus poderes. Contudo, não era a fúria dele que ela queria. O seu olhar incidia nele. Nas feições perfeitas, nas maçãs do rosto, no longo e aquilino nariz. Na negrura mortal mais perfeito fisicamente. Não era apenas a sua beleza que atraía as pessoas. Não era a sua beleza que a atraía. Acheron possuía um tipo de carisma masculino raro e puro. Poder. Força. Charme. Inteligência. Determinação. Vê-lo, era desejá-lo. Olhar para ele, era ansiar por tocá-lo. Fora feito para agradar e treinado para dar prazer. Tudo nele, desde os músculos macios, que lhe ondulavam o corpo, ao erótico timbre da sua voz, que seduzia todos os que a ouviam. Como um animal selvagem letal, movia-se com uma promessa de perigo primitiva  e poder masculino. Com a promessa de uma desempenho sexual supremo. Eram promessas que ele cumpria perfeitamente. Em toda a eternidade, fora o único homem capaz de a enfraquecer. O único que amara. Ele tinha poder para matá-la. Ambos o sabiam. Ela achava o facto de ele não o fazer intrigante e provocante. Sedutor e erótico.
Engolindo em seco, recordou-se de como ele era da primeira vez que o vira. A força dele. A paixão. Provocante, estivera no seu templo e rira quando ela ameaçara matá-lo. Ali, diante da sua estátua, tivera a audácia de fazer o que o nenhum homem se atrevera... Ela ainda sentia o sabor do seu beijo. Ao contrário dos outros homens, nunca a temera. Agora, o calor da mão dele na sua carne trespassava-a. Como acontecera sempre com o seu toque. Não havia nada que ela desejasse mais do que um beijo dele. Sentir o fogo da sua paixão. Com um erro, perdera-o. Ártemis queria chorar com a desesperança de tudo aquilo.
Há muito tempo tentara voltar atrás no tempo e refazer novamente aquela manhã. Ganhar outra vez a confiança e o amor de Acheron. As Moiras castigaram-na severamente pela sua audácia. Nos últimos dois mil anos ela tentara tudo para que ele voltasse para o seu lado. Nada funcionara. Nada o fizera perdoar-lhe ou regressar ao seu templo. Nada até ela pensar na única coisa que ele nunca recusaria - uma alma mortal em risco. Acheron faria qualquer coisa para salvar os humanos. O plano dela em torná-lo responsável pelos Predadores da Noite, que ela criara com os seus poderes de ressuscitação, funcionara e ele estava de volta. Se ao menos pudesse mantê-lo assim.
- Queres que eu os liberte? - perguntou ela.
Ela faria qualquer coisa por ele.
- Sim.
Ele nada faria por ela. A não ser que o obrigasse.
- O que farás por mim, Acheron? Conheces as regras dos deuses. Um favor em troca de outro.
Ele largou-a com um  palavrão furioso e afastou-se.
- Já aprendi a não jogar este jogo contigo.
Ártemis encolheu os ombros com uma indiferença que verdadeiramente não sentia. Naquele momento, tudo o que lhe interessava estava em risco. Se ele recusasse, destruí-la.
- Está bem, então continuarão como Predadores da Noite. Sozinhos, sem ninguém que lhes ensine o que precisam de saber. Ninguém que se interesse por eles.
Ele soltou um longo e profundo suspiro. Ela queria consolá-lo, mas sabia que rejeitaria o seu toque. Sempre rejeitara consolo e conforto. Ele era mais forte do que tinha direito a ser. Quando Acheron encontrou o olhar de Ártemis, sentiu um calafrio puro e sensual nela.
- Se eles te servirem a ti e aos deuses, Ártemis, vão precisar de certas coisas.
- Como, por exemplo?
- Armaduras. Não podes enviá-los para a frente de batalha sem armas. Necessitam de dinheiro para comprar comida, roupa, cavalos e até de criados para protegê-los durante o dia, enquanto descansam.
- Pedes demasiadas coisas para eles.
- Só peço o que precisam para sobreviver.
Ela abanou a cabeça.
- Nunca pediste nada disso para ti.
Ártemis magoava-se com esse facto. Ele nunca pedia nada.
- Não preciso de comida, e os meus poderes permitem-me obter tudo de que necessito. Quanto à minha protecção, tenho a Simi. Eles não sobreviverão sozinhos.
Ninguém sobrevive sozinho, Acheron. Ninguém. Nem mesmo tu. E, principalmente, eu. Ártemis levantou o queixo, determinada a tê-lo a seu lado independentemente das consequências.
- Pergunto-te mais uma vez, o que me darás em troca?
Acheron desviou o olhar, engolindo em seco. Ele sabia o que ela queria, e a última coisa que ele queria era dar-lho.
- O que peço é para eles, não para mim.
Ela encolheu os ombros.
- Então, está bem. Vão ter de passar sem essas coisas, pois não têm nada para me dar em troca.
A fúria de Acheron incendiou-se ao ver a sua recusa despreocupada em relação às vidas  e ao bem-estar daqueles homens. Não mudara nada.
- Maldita sejas, Ártemis.
Ela aproximou-se dele, lentamente.
- Eu quero-te, Acheron. Quero-te como antigamente.
Queria-o como prostituto. O seu prostituto. Encolheu-se intimamente quando ela lhe pôs as mãos na cara. Nunca poderiam voltar a ter o que tiveram no passado. Conhecia-a muito bem. Já o traíra uma vez. Acheron diria que era lento a aprender, mas não era assim. Na verdade, ele estivera tão desesperado para que alguém gostasse dele que ignorou o lado obscuro de Ártemis. Ignorou-o até ela lhe virar as costas e deixá-lo morrer. Os seus pensamentos passaram deles para os pobres homens que estavam na caverna. Homens que nada sabiam acerca da sua nova existência ou os seus inimigos. Não podia abandoná-los. Já custara a vida e o futuro a muita gente. Por nada deste mundo. Acheron deixaria que eles também perdessem as suas almas e vidas.
- Está bem, Ártemis. Vou dar-te o que queres, se lhes deres o que eles precisam para sobreviver.
Ela alegrou-se.
- Mas - continuou ele - os meus termos são estes: vais pagar-lhes todos os meses um montante que lhes permitirá comprar tudo o que necessitem ou desejem. Como já tinha dito, precisarão de criados que os assistam para não terem de preocupar-se com surripar comida, roupas ou armas. Não quero que se distraiam do seu trabalho.
- Está bem, procurarei humanos para servi-los.
- Humanos vivos, Ártemis. E quero que os sirvam de livre e espontânea vontade. Não quero mais Predadores da Noite.
Ela interrompeu-o.
- Só três não chegam. Precisamos de mais para controlar os Daemons. Acheron fechou os olhos ao sentir a continuidade daquela relação. Seri mais fácil se ele pudesse ver o futuro e onde aquilo ia dar. Quantos mais Predadores da Noite existissem, mais ele ficava agarrado a ela. Não havia maneira de fazer com que parasse de tentar ligar-se a ele. Ou haveria?
- Está bem - disse ele. - Eu cedo se concordares em dar-lhes uma forma de saírem do teu serviço.
- O que queres dizer?
- Quero que organizes uma maneira de eles ganharem de novo as suas almas e não ficarem ligados a ti, se assim o entenderem.
Ártemis recuou. Não esperara aquilo. Se lhe concedesse o que ele pedia, então até ele ficaria desligado. Podia deixá-la. Ártemis esquecera-se de como tortuoso Acheron podia ser. Ele sabia muito bem as regras do jogo e como manipulá-la a ela e aos outros. Era o seu semelhante. Contudo, se não lhe desse o que pedia, ele ia-se embora na mesma. Ártemis não tinha escolha, e ele sabia disso. No entanto, ainda existiam coisas que podiam fazer com que ficasse a seu lado. Ela conhecia uma maneira de ele permanecer na sua vida para toda a eternidade.
- Muito bem. Vamos então fazer as regras para governá-los.
Ela sentiu os pensamentos dele desviarem-se para Ias. Tinha pena do pobre soldado grego que amava a mulher. Pena, piedade e compaixão seriam a sua ruína.
- Primeiro, eles têm de morrer para reclamar as almas.
- Porquê? - perguntou ele.
- Uma alma só pode ser libertada de um corpo no momento da morte. Do mesmo modo, só poderá regressar a um corpo que já não funciona. Se «viverem» como Predadores da Noite, nunca mais recuperarão as almas. Esta regra não é minha, Acheron,é simplesmente a natureza das almas...pergunta à tua mãe, se não acreditas em mim.
Ele franziu as sobrancelhas.
- Como se mata um Predador da Noite imortal?
- Bem, cortando-lhe a cabeça ou expondo-o à luz do dia. Contudo, como isto lhe danifica permanentemente o corpo, anula o propósito.
- Não tens graça.
Nem ela. Artémis não queria livrá-los do seu serviço. E, principalmente, não pretendia libertá-lo.
- É preciso drenar os seus poderes de Predadores da Noite - disse ela. - Fazer com que os seus corpos imortais fiquem imunes aos ataques. Depois, para-lhes o coração. Só então morrerão de uma maneira que os impedirá de regressarem à vida.
- Óptimo, acho que consigo fazer isso.
- Na verdade, não podes.
- O que queres dizer?
Ela esforçou-se para não se rir. Era aqui que ia apanhá-lo.
- Existem algumas leis que precisas de saber sobre as almas, Acheron. Uma é a de que o dono tem de libertá-la por vontade própria. E como sou eu que tenho as almas deles...
Acheron praguejou.
- Terei de negociar todas as almas contigo.
Ela abanou a cabeça. Ele parecia tudo menos satisfeito com aquela informação. Contudo, haveria de habituar-se. Sim, haveria...
- E que mais? - perguntou ele.
Agora a regra número um dela que os ligaria para sempre.
- Somente um coração verdadeiro e puro poderá colocar a alma novamente num corpo. Aquele que a devolver tem de ser a pessoa que mais os amar. Alguém que eles também amem e em quem confiem.
- Porquê?
- Porque a alma precisa de algo que a induza a mover-se, caso contrário permancerá onde estiver. Eu uso a vingança para aliciar a alma a ficar na minha posse. Somente uma emoção semelhante e poderosa poderá convencer a alma a entrar no seu corpo. Como posso escolher essa emoção, prefiro o amor. A mais bela e nobre das emoções. A única pela qual vale a pena lutar.
Acheron fixou o olhar no chão de mármore à medida que as palavras dela suspiravam em seu redor. Amor. Confiança. Palavras muito fáceis de pronunciar. Muito poderosas de sentir. Ele invejava os que sabiam o seu verdadeiro significado. Nunca conhecera realmente nenhuma das duas. Traição, dor, degradação, suspeição, ódio. Esta era a sua existência. Tudo o que vivera. Uma parte de si quis virar costas e abandonar Ártemis para sempre. Volta para mim, meu amor. Por favor, faço qualquer coisa para tê-lo de novo em casa... As palavras de Liora ecoavam na sua cabeça. Mesmo naquele preciso momento, conseguia ouvir as lágrimas dela. Sentir a sua dor e a de Ias quando pensava nos filhos e na mulher.
A sua preocupação em relação ao bem-estar deles. Acheron nunca conhecera aquele tipo de amor altruísta. Nem antes nem depois da sua morte.
- Dá-me a alma de Ias.
Ártemis arqueou a sobrancelha.
- Estás disposto a pagar o preço que pedi por ela e a respeitar os termos da libertação deles?
O coração dele encolheu-se ao ouvir tais palavras. Lembrou-se da juventude que tivera há muitos anos. Tudo tem um custo, Acheron. As pessoas não recebem nada de graça. O tio ensinara-lhe bem o preço da sua sobrevivência. Acheron pagara caro por tudo o que tivera ou quisera. Comida. Abrigo. Roupas. Pagara com carne e sangue. Certas coisas nunca mudavam. Uma vez prostituto,sempre prostituto.
- Sim - disse ele, com a garganta apertada. - Concordo. Eu pago.
Ártemis sorriu.
- Não estejas tão triste, Acheron. Prometo-te que gostarás.
O estômago dele ficou ainda mais apertado. Também já ouvira aquelas palavras.

Era lusco-Fusco quando ele voltou para a caverna. Não estava sozinho quando subiu a pena encosta. Seguiam-no dois homens e quatro cavalos.
- O que é tudo isto? - perguntou Callabrax.
- Estes homens serão vossos assistentes. O teu e o de Kyros. Vieram para mostrar-vos as casas onde vocês passarão a viver. Farão tudo o que lhes mandarem. Passarei por lá mais tarde para acabarmos o nosso treino.
Uma pontada de medo escureceu os olhos de Ias.
- Então, e eu?
- Tu vens comigo.
Acheron esperou até os dois homens montarem nos cavalos e irem-se embora. Depois, voltou-se para Ias.
- Estás pronto para voltares para casa?
Ias ficou surpreendido.
- Mas, tu disseste...
- Estava enganado. Podes voltar.
- E o meu juramento para com Ártemis?
- Já foi tratado.
Ias abraçou-o como um irmão. Acheron encolheu-se com o contacto, principalemente porque agravava as feridas profundas que tinha nas costas, onde Ártemis lhe batera em troca da alma de Ias - pelo menos, fora essa a mentira que ela contara a si própria. Contudo, conhecia a verdade. Batera-lhe oara castigá-lo do facto de amá-lo. Aquelas marcas não eram nada comparadas com os golpes mais profundos que lhe iam na alma. Sempre odiara todas as pessoas que lhe tocavam. Suavemente, afastou Ias.
- Anda, vamos ver a tua casa.
Acheron teletransportou-os para a pequena quinta de Ias, onde a sua mulher acabara de mandar os dois filhos para a cama. O seu lindo rosto empalideceu ao vê-los junto da lareira.
- Ias? - pestanejou -, disseram esta manhã que tinhas morrido.
Ias abanou a cabeça. Os seus olhos brilhavam.
- Não, meu amor. Estou aqui. Voltei para ti.
Acheron respirou fundo enquanto Ias correu para ela, abraçando-a fortemente. Percorrera um longo caminho para aliviar aquela dor.
- Ainda faltam umas coisas, Ias - disse Acheron, calmamente.
Este recuou, franzindo as sobrancelhas.
- A tua mulher vai ter de libertar a tua alma para ela voltar ao teu corpo.
Liora olhou-o zangada.
- O quê?
Ias beijou-lhe a mão.
- Jurei servir Ártemis, mas ela vai libertar-me para que eu possa regressar para ti.
Ela parecia confusa com aquelas palavras. Ias olhou para Acheron.
- O que temos de fazer?
Acheron hesitou, contudo, tinha de lhe dizer o que devia ser feito.
- Terás de morrer novamente.
Ele empalideceu um pouco.
- Tens a certeza?
Acheron abanou a cabeça. Depois, deu um punhal a Liora.
- Terás de apunhalá-lo no coração.
Ela ficou horrorizada e pálida com a sugestão.
- O quê?
- É a única forma.
- É assassínio. Serei enforcada.
- Não. Juro que não.
- Fá-lo, Liora - motivou Ias. - Quero estar outra vez contigo.
Céptica, ela agarrou o punhal e tentou cravá-lo no peito dele. Não resultou. A lâmina só picava a pele. Acheron fez uma careta e lembrou-se do que Ártemis lhe dissera sobre os poderes dos Predadores da Noite. Uma humana normal não seria capaz de magoar um deles com um punhal. Mas ele seria. Tirando o punhal das mãos de Liora, cravou-o bem no coração de Ias, que deslizou para trás, ofegante.
- Não te aflijas - disse Acheron, deitando-o no chão, em frente à fogueira. - Agarrei-te.
Acheron levantou-se, abraçou Liora e puxou-a para baixo. Tirou da sua mochila o medalhão de pedra que continha a alma de Ias.
- Tens de segurar isto nas mãos quando ele morrer, e libertar a alma para o seu corpo.
Ela engoliu em seco.
- Como?
- Pressiona a pedra sobre a marca que ele tem do arco e da flecha.
Acheron esperou até ao momento exactamente anterior à morte de Ias. Entregou o medalhão a Liora. Ela gritou assim que a sua mão lhe tocou, deixando-o cair no chão.
- Está a arder! - gritou ela.
Ias respirava ofegantemente, lutando pela sua vida.
- Apanha-o - ordenou Acheron a Liora.
Ela soprou para a mão, dizendo que não com a cabeça. Acheron ficou chocado com a sua reacção.
- O que se passa contigo, mulher? Ele morrerá, se tu não o salvares. Apanha a alma dele.
- Não.
Os olhos dela tinham uma luz de determinação que ele não compreendia.
- Não? Como não? Ouvi-te rezar para que ele voltasse para ti. Dizias dar tudo para que o teu amado voltasse.
Ela baixou a mão e olhou-o friamente.
- Ias não é o meu amado. O meu amado é Lycantes. Era por ele que rezava, mas já morreu. Disseram-me que o fantasma de Ias o matou por ele o ter morto numa batalha, para que pudéssemos ficar juntos e criar os nossos filhos.
Acheron deteve-se ao ouvir aquelas palavras. Como não vira aquilo? Era um deus. Porque lhe fora ocultado? Encarou Ias e viu a dor nos olhos dele antes de ficarem brancos com a morte. Com o coração a bater rapidamente, Acheron apanhou o medalhão e tentou libertar-lhe a alma. Não resultou. Furioso, imobilizou Liora no lugar onde ela se encontrava e matou-a pelas suas acções.
- Ártemis! - gritou para o tecto.
A deusa apareceu na cabana.
- salva-o.
- Não posso mudar as regras, Acheron. Eu disse-te as condições e tu concordaste com elas.
Ele dirigiu-se à mulher que era agora uma estátua humana.
- Porque não me disseste que ela não o amava?
- Tal como tu, eu também não sabia isso - os seus olhos toldaram-se. - Até os deuses cometem erros.
- Então, porque não me disseste, ao menos, que o medalhão ia queimá-la?
- Porque não sabia. Não me queima a mim, nem te queimou a ti. Nunca tinha visto um humano pegar-lhe.
A cabeça de Acheron zumbia de culpa e dor.
- O que vai ser dele agora?
- Agora, é uma sombra. Sem corpo nem alma, a sua essência está presa em Katoteros.
Acheron berrou de dor devido ao que ela lhe estava a contar. Acabara de matar um homem e de sentenciá-lo a um destino muito pior do que a morte. E porquê? Por amor? Por piedade? Deuses, era mesmo um idiota. Principalmente ele; devia ter-lhe feito as perguntas certas. Já devia ter aprendido a não confiar no  amor de outra pessoa. Raios, quando aprenderia? Ártemis foi para junto dele, e levantou-lhe o queixo com a mão até ele a encarar.
- Diz-me, Acheron, há alguém a quem confiarás cegamente a tua alma?
Ele abanou a cabeça.
- Já o sabes. Ensinaste-me muito bem em relação à maldade das mulheres e ao seu amor, que arruína e destrói. Obrigado pela lição, Ártemis. Era mesmo o que precisava. Asseguro-te que nunca a esquecerei."


Poderá ler este conto no livro do Acheron. Pág.375 até 392

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