sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Natal de Um Predador da Noite



O Natal de Um Predador da Noite de Sherrilyn Kenyon
Edição: 2009
Editora: Chá das Cinco – Saída De Emergência
Páginas : 20

“Nascido de pais pobres e imigrantes, no virar do século, James Cameron Patrick Gallagher já era irritável quando veio ao mundo. Em nada ajudou o facto de ter nascido, nas traseiras de uma fábrica clandestina incrivelmente degradada, de uma mulher tímida e receosa que fora obrigada a regressar ao trabalho poucas horas depois de ter dado à luz diretamente para as mãos do pai, alcoólico e nervoso. Um pai cuja relação com o rapaz era, na melhor das hipóteses, indiferente e, na pior, violenta.
Desde o momento do primeiro choro, Jamie passou a vida a lutar por respeito. A lutar para sair da pobreza que o assolava, enquanto crescia nos degradados bairros irlandeses de Nova Iorque. Aos quinze anos encontrou a sua saída. Corria o ano de 1916 e dois acontecimentos ocorreram na sua vida. O pai morreu em consequência de ter escorregado e caído ao rio a caminho de casa, depois de uma farra de três dias a beber. Passadas duas semanas, Jamie foi trabalhar com o famoso gangster Ally Malone, de modo a poder sustentar a mãe e os oito irmãos mais novos. Brutamontes e arruaceiro, Ally ensinara-lhe uma forma de ganhar dinheiro que fizera com que a sua pobre mãe ficasse com os joelhos doridos devido às incontáveis novenas que rezara pelo filho. Mas, no que a Jamie dizia respeito, isso não era problema.
O seu novo estilo de vida permitia-lhe comprar almofadas de seda à mãe, para apoiar os joelhos gastos pelo trabalho e, em vez de rezar com um barato rosário de madeira, ela usava, agora, um feito de ouro e marfim. O mesmo rosário que ela lhe atirou à cara quando soube toda a verdade sobre o filho: Jamie não era um pobre inocente desviado para maus caminhos por pessoas decididas a aproveitarem-se dele. Quando chegou aos vinte anos, era um gangster feroz a ter em conta. Afastado pela mãe, dera ao irmão mais novo um trabalho respeitável, para que Ryan pudesse cuidar da família mas, sem que a mãe o soubesse, eram os ganhos ilícitos de Jamie que os mantinham a todos alimentados.
Jamie aprendera a endurecer o seu coração e a não se preocupar com nada nem ninguém. Tornou-se Gallagher. Um homem sem outro nome. Um homem que não deixava ninguém aproximar-se de si, que não deixava que ninguém o conhecesse. Era frio como gelo e duro como pedra.
Até ao dia em que Rosalie entrou na sua vida e quebrou o seu invólucro de granito. Filha de imigrantes portugueses, estava de regresso a casa depois da missa, quando Jamie chocara com ela, na pressa de apanhar um “parceiro” de negócios com quem precisava de lidar. Era uma fria tarde de Inverno e a neve caía sobre a cidade. Onze de Fevereiro de 1924, uma data que ficaria gravada na sua mente e no seu coração para toda a eternidade.
No momento em que Rosalie voltou para ele os olhos castanhos-escuros,sentiu todo o seu corpo ser consumido pelo fogo. Pela primeira vez em muitos anos, sentiu algo mais do que ódio frio e cego.
— Peço imensa desculpa — sussurrara ela, na sua pronúncia exótica, limpando-lhe o dispendioso fato feito à medida. — Não o vi por causa da neve.
— A culpa foi minha — apressou-se ele a garantir-lhe.
Sem dúvida, qualquer outro homem na sua posição ter-lhe-ia batido ou gritado com ela. Tal pensamento fez com que o seu corpo fosse varrido por uma onda de fúria despropositada. Tratava-se de uma estranha e, no entanto, sentia-se possessivo em relação a ela. Respeitoso. Duas emoções que nunca sentira por nenhuma mulher que não fosse da sua família.
— Rosalie! — gritara a mãe, que voltara para trás em busca da filha. — Não deves falar com homens assim. Quantas vezes tenho de to dizer?
Pegou em Rosalie pelo braço e lançou a Jamie um olhar suplicante e servil.
— Perdoe a minha fi lha, senhor. É jovem e tola.
— Não faz mal, senhora — disse ele, rapidamente.
Então os seus olhos encontraram-se com os olhos muito abertos de Rosalie. Ela era verdadeiramente bela. O seu cabelo, preso numa trança e enrolado em volta da cabeça, fi cara exposto quando o véu caíra, depois de terem colidido. Os seus olhos castanhos eram puros. Inocentes. Absolutamente intocados pela violência sangrenta que sempre fizera parte da vida de Jamie. Acima de tudo, os seus olhos eram gentis. Não queria que nada turvasse esse olhar. Que o tornasse duro e frio. Amargo. Como o seu.
— Dá-me permissão para que corteje a sua filha? As palavras saíram-lhe da boca antes que as pudesse parar. A expressão
da mãe dela foi de puro horror. Irlandeses brancos não cortejavam mulheres portuguesas. A sociedade jamais toleraria tal coisa.
— Não — respondeu ela com rudeza, arrastando a fi lha para longe dele. Jamie talvez tivesse aceite o não como resposta. Gallagher não o aceitaria.
Gastara bem mais de cem dólares em subornos para localizar Rosalie, mas valera cada cêntimo. Independentemente dos pais dela, dos seus próprios associados e da sociedade em geral, fi zera dela sua esposa a 17 de Junho de 1925. Apenas Rosalie conhecera realmente Jamie. E ele morrera a tentar chegar junto dela, enquanto ela lutava para trazer ao mundo o seu único filho, um rapaz. Também essa fora uma noite fria, com neve. Poucos dias antes do seu trigésimo terceiro aniversário. Ele sabia que as autoridades o perseguiam; sabia que havia um infiltrado na sua empresa, embora estivesse a tentar endireitar-se. Nada disso tinha importado. Rosalie precisava dele e ele recusava-se a decepcioná-la. Foi uma decisão que lhe custou a vida e a alma.
SETENTA ANOS DEPOIS, NOVA ORLEÃES
Gallagher franziu o sobrolho ao sentir algo a lamber o fundo das costas. Era uma sensação que, aprendera há vários anos, assinalava a aproximação de um daemon. Virou o seu Bugatti Atlantic Aerolithe, único no mundo, para uma rua lateral e estacionou-o. Oh, sim! A sensação estava lá, ainda mais forte do que antes. Só fora a Nova Orleães uma mão cheia de vezes e, embora a cidade não tivesse mudado muito, ainda lhe foram necessários alguns minutos para se recordar da disposição do Bairro Francês. A luz da lua, fi ltrada através das varandas de ferro forjado e das plantas penduradas, iluminava as velhas fachadas de tijolo. Podia ouvir o ruído débil de risos e música, bem como os carros que assobiavam ao passar. Esticou a cabeça para escutar, esperando por um sinal que lhe indicasse a localização dos daemon. Ouviu um grito. Correndo na sua direcção, percorreu os becos escusos até encontrar a jovem, perto de um monte de lixo, rodeada por quatro daemon machos, enquanto um quinto enterrava as presas no seu pescoço. Furioso, Gallagher atirou-se a eles.
Os daemon atacaram-no em simultâneo, não que isso lhes tivesse servido de muito. Um par de golpes bem colocados e o apunhalar rápido dos seus peitos e eles passaram à história. Gallagher correu para a mulher e ajoelhou-se ao seu lado. Gentilmente, voltou-a e viu uma rapariga que não tinha mais de vinte anos. Amaldiçoou o destino que a tinha colocado no caminho dos daemon. Felizmente ainda estava viva, embora lutasse para respirar. Tirou o lenço com monograma do bolso do casaco e usou-o como torniquete improvisado na ferida de mau aspecto que ela tinha no pescoço.
Movendo-se rapidamente, transportou-a até ao carro e conduziu até às urgências mais próximas, onde ficou a saber que o pessoal do hospital não gosta muito de admitir a entrada de mulheres desconhecidas, transportadas por estranhos com roupas ensanguentadas. Assim que conseguiu pôr Nick Gautier em contacto telefónico com o funcionário e se assegurou que a rapariga desconhecida seria atendida, Gallagher respirou fundo. Permaneceu no hospital, querendo assegurar-se de que ela sobreviveria. Ansioso e incapaz de fi car quieto enquanto o pessoal cuidava dela, deu por si a deambular pelos corredores.
O local estava enfeitado para as festas. Os festões verdes e vermelhos e os recortes em forma de flor-do-natal transmitiam uma sensação de calor ao branco assético. Algumas enfermeiras e jovens visitantes sorriram, de forma convidativa, ao passar por ele. Mas, por outro lado, as mulheres sempre o tinham feito. Tinha um metro e noventa e três de altura, cabelo e olhos negros, e músculos fortes e bem defi nidos. O tipo de homem em que as mulheres tendem a reparar. Nunca sentira vaidade por isso. Que as mulheres gostassem de olhar para ele e, muitas vezes, lhe fizessem propostas era, simplesmente, um facto da vida. E, embora se tivesse sentido tentado, uma ou duas vezes ao longo das décadas, não voltara a tocar em qualquer outra mulher. Não enquanto a sua mulher vivera. Gallagher podia ter violado todas as leis existentes, mas nunca violara um único voto. Em especial, um que tivesse sido feito a alguém que amava. Mesmo depois da morte de Rosalie, não sentira o desejo de tocar noutra mulher. Por isso, Gallagher limitou-se a acenar-lhes e continuou a andar.
Pouco depois chegou à enfermaria pediátrica. Sentiu um nó no estômago quando compreendeu onde se encontrava. Tempos houvera em que esperara ir a um hospital para ver o seu filho. Não conseguira lá chegar. Apressado e sem pensar, saíra do edifício onde tinha o seu escritório a correr e tentava entrar para o carro quando deu por si rodeado de polícias. Gallagher, que nunca recuara perante uma luta, levantara as mãos. Mataram- no na rua, como se fosse um animal raivoso. Incapaz de lidar com aquela recordação, Gallagher estava prestes a voltar a dar meia volta e a partir quando algo inesperado prendeu o seu olhar… Viu um elfo de aspecto estranho, com uma camisa de Pai Natal vermelha, uma saia verde muito curta e meias altas de riscas vermelhas e brancas que desapareciam no interior de um par de gastas botas da tropa. Cantava a um grupo de miúdos com uma voz que rivalizaria com um coro celestial, tal era a sua beleza melódica. A mulher era alta e extremamente atraente, de uma forma estranha, com olhos fantasmagóricos, castanho-avermelhados, que deviam ser o resultado de um qualquer tipo de lentes de contacto; orelhas pontiagudas e cabelo negro com madeixas vermelhas. Mas o que mais o surpreendeu foi o homem que se encontrava com ela. Acheron Parthenopaeus.
O glorioso líder dos Predadores da Noite estava sentado no chão, rodeado de crianças, enquanto tocava guitarra e fazia coro com a mulher.Gallagher fi cou espantado com aquela imagem. Durante todos aqueles anos em que conhecera Ash, nunca o vira relaxar. Normalmente, Acheron libertava uma aura absolutamente letal e calma, que avisava as pessoas que deveriam manter-se à distância se quisessem permanecer vivas. Mas esse não era o Ash que agora via. O homem sentado no chão mais parecia uma criança. Acessível e gentil. A voz profunda de Ash misturava-se com a do elfo enquanto cantavam Put a Little Love in Your Heart de Jackie Deshan.
— Ora, aí está algo que não se vê todos os dias, hã? Dois góticos, punks, a dar uma festa de Natal para crianças doentes.
Gallagher voltou-se e viu uma médica afro-americana de meia-idade a seu lado. Ela parecia cansada mas divertida, enquanto olhava para Ash e a sua ajudante élfi ca junto das crianças.
— Nem faz ideia — disse-lhe ele.
A médica sorriu.
— Tenho de admitir que demorei algum tempo a habituar-me, quando comecei a trabalhar aqui, há alguns anos. Pensei que estavam a gozar quando me falaram do Anjo da Guarda gótico e do seu fundo de apoio para as crianças.
Gallagher arqueou uma sobrancelha quando ouviu a alcunha.
— Então, ele vem aqui muitas vezes?
— De dois em dois meses ou assim. Traz sempre presentes para as crianças e para o pessoal, e depois brinca durante algum tempo com os miúdos. Gallagher não teria fi cado mais admirado se ela lhe tivesse dito que Ash incendiava, frequentemente, o hospital.
— A sério?
— Oh, sim! Calculamos que ele seja um miúdo rico que sente a necessidade de fazer o bem. O mais estranho é que, sempre que ele vem, os miúdos fi cam absolutamente calmos e serenos. A sua pressão sanguínea desce e nunca temos de lhes dar analgésicos enquanto ele cá está. Depois da sua partida, dormem durante horas. E o melhor de tudo, os pacientes com cancro entram em remissão durante várias semanas, depois das suas visitas. Não sei o que tem aquele jovem mas faz, realmente, a diferença nas vidas deles.
Gallagher conseguia compreender isso. Embora Ash pudesse ser assustador, havia algo estranhamente reconfortante no Atlante. Assim que Ash reparou na sua presença, Gallagher viu um véu descer sobre o seu rosto. O bom humor desapareceu e Ash fi cou visivelmente rígido. Tornou-se o soturno líder que não faz prisioneiros, que Gallagher bem conhecia. Assim que a música terminou, Ash entregou a guitarra a uma das crianças mais velhas e deixou-as com um pedido de desculpas. Levantou-se e saiu da sala, os membros longos e soltos conferiam-lhe um andar predatório.
O rosto de Ash mostrava-se impassível quando cruzou os braços sobre o peito e se aproximou de Gallagher.
— Santo Ash, quem diria?
Ash ignorou o comentário.
— O que estás a fazer aqui?
Gallagher encolheu os ombros.
— Estava apenas de passagem.
Ele esticou a cabeça.
— De passagem? Da última vez que vi, Chicago fi cava a norte de Baton Rouge, não a sul.
— Eu sei. Mas já que estava perto, quis passar pelo Santuário e desejar a todos um feliz Natal.
Ash escutou os pensamentos de Gallagher e deixou que as suas emoções o varressem. A esposa de Jamie tinha morrido de velhice, no Verão anterior, e a sua morte tinha afectado muito o irlandês. Assim que “soubera” da sua morte, Ash fora de imediato ter com Jamie e descobrira que este tinha violado o Código de Conduta e a fora visitar enquanto ela estava no hospital. Ash decidira ignorar a falta. Podia nunca ter conhecido o amor de um ser humano, mas compreendia aqueles que eram sufi cientemente afortunados para o terem vivido.
— Fazemos assim, já que cá estás, porque é que não fi cas até depois do Ano Novo?
Jamie escarneceu.
— Não preciso da tua piedade.
— Não é piedade. É uma ordem. Já que o Kyrian se reformou, fazia jeito ao Talon uma ajuda. As coisas fi cam bastante turbulentas nesta altura do ano. Muitos daemon viajam para sul, em busca de calor, e as pessoas saem para a rua para festejar o Ano Novo.
— Estás a gozar comigo ou quê?
Antes que Ash conseguisse responder, a mulher elfo saiu da sala, segurando uma criança pequena que apoiava sobre a anca.
— Akri? — disse a Ash, numa estanha voz cantada. — Posso ficar com ele?
Ela deu uma palmadinha na perna gorducha que emergia de debaixo da camisa de hospital.
— Vês, é bom para comer. Este tem muita gordura.
A criança de cabelos negros riu.
— Não, Simi — disse Ash com firmeza. — Não podes ficar com o bebé.
A mãe sentiria a falta dele.Ela fez um beicinho.
— Mas ele quer ir para casa com a Simi. Foi ele que disse.
— Não, Simi — repetiu Ash.
Ela amuou.
— Não, Simi; comida, não. Ralha, ralha, ralha. O teu pai também está sempre a ralhar contigo? — perguntou ao rapazinho.
— Não — respondeu ele, enquanto puxava um dos chifres pretos e vermelhos no topo da cabeça dela.
Ash suspirou.
— Simi, leva o bebé para dentro.
Ela deslocou-se por forma a fi car à frente de Ash.
— Está bem, dá-me um beijo e eu vou.
Ash parecia muitíssimo desconfortável ao olhar de lado para Gallagher e novamente para ela.
— À frente do Predador, não, Simi.
Ela emitiu um estranho ruído animalesco e olhou para Gallagher.
— A Simi quer um beijo, Akri. Espero nem que seja um século. Sabes que sim.
Dizer que Ash parecia irritado é pouco. Ele inclinou-se e deu-lhe um beijo rápido na testa. Ela brilhou de orgulho, depois trotou para longe com a criança.
— Quem é aquela? — perguntou Gallagher. — Ou talvez deva perguntar, o que é aquilo?
— Em resumo, não é da tua conta.
Ash esfregou a testa com a mão, como se estivesse com dores.
— Onde é que íamos?
— Eu perguntei-te porque é que me estavas a dar um trabalho temporário em Nova Orleães.
— Porque o Talon precisa de uma ajuda.
— Pergunto-me o que diria o Talon?
— Dir-te-ia para não me chateares. Gallagher soltou uma gargalhada breve.
— Está bem, então. Vou ter isso em conta. Ash observou a mulher na sala com as crianças.
— Podes ficar com os Peltiers no Santuário. Quanto a mim, é melhor ir antes que um daqueles miúdos acabe num pacote de leite.
Gallagher observou enquanto Ash corria para a sala para tirar uma rapariguinha ao elfo e a pousava no chão. O elfo afastou-se, dançando, e dirigiu-se para outra criança. Abanando a cabeça perante a estranheza da cena, Gallagher dirigiu-se para o elevador para regressar ao andar de baixo e verificar o estado da sua paciente. A enfermeira disse-lhe que ela estava bem. Gallagher suspirou de alívio. Então a enfermeira levantou-se e tocoulhe no braço.
— Venha — disse a mulher, inclinando a cabeça para trás. — Ela quer agradecer-lhe.
— Não preciso que me agradeçam.
— Querido, todos precisamos que nos agradeçam. Anda.
Antes que o pudesse impedir, já deixara que a enfermeira o levasse até à pequena sala das urgências dividida por cortinas. A jovem morena sentouse na maca; tinha uma ligadura, demasiado grande para ela, no pescoço. Os grandes olhos verdes estavam um pouco turvos mas brilharam assim que se ergueram na direcção dele. A enfermeira deixou-os sozinhos.
— És tu o homem que me salvou? — perguntou ela.
Sentindo-se embaraçado, acenou. A rapariga remexia o cobertor que a tapava.
— Obrigada. A sério.
— O prazer foi meu. Só estou feliz por te ter encontrado naquela altura.
— Sim, eu também.
Gallagher voltou-se para sair.
— Bem, preciso…
A voz faltou-lhe quando uma jovem muito bela atravessou as cortinas. Era alta, provavelmente com cerca de um metro e setenta, de cabelo negro e olhos de um azul profundo.
— Jenna! — gritou ao ver a amiga na maca. — Oh, graças a Deus que estás bem. A senhora ao telefone disse que tinhas sido atacada. Os olhos de Jenna encheram-se de lágrimas.
— Não sei o que aconteceu. Estava a ir para o meu carro e não me lembro de nada depois disso. Se não fosse ele, provavelmente estaria morta. A rapariga voltou-se e estacou. Parecia que tinha acabado de ver um fantasma. Gallagher olhou para ela, desafiador.
— Passa-se alguma coisa? — perguntou.
— Não. — Ela agitou a mão como se se estivesse a sentir tola. — Desculpe, faz-me lembrar alguém, mais nada.
— Um antigo namorado?
— Não, o meu bisavô.
— Isso não é particularmente elogioso. Pensava que até estava bem para a idade.
Ela riu.
— Não, quero dizer… Oh, esqueça!
Jenna inclinou a cabeça, olhando para ele.
— Parece-se de facto com ele, Rose. Tens razão. Rose. O nome atingiu-o como um murro. Antes que se pudesse mexer,
a rapariga chamada Rose aproximou-se dele. Puxou um medalhão de ouro gravado de debaixo da camisola castanha. Era um medalhão que conhecia bem. Desde o pormenor da granada e dos diamantes que formavam um círculo na frente até à inscrição na parte de trás. “Para a minha Rose. Feliz Aniversário. 1930”. Ela abriu o medalhão para revelar as duas fotografi as no seu interior. Uma era a fotografi a que Rosalie lhe pedira que tirasse meses antes de morrer e a outra era a do seu filho com dois anos de idade.
— Vê — disse a rapariga, mostrando-lhe a fotografia —, parece-se muito com o meu avô Jamie.
Com um aperto no coração, Gallagher engoliu em seco. Queria estender a mão e tocar-lhe, mas as suas mãos tremiam de tal forma que não se atreveu.
— Onde é que arranjaste isso?
— Deu-mo a minha bisavó na passada Primavera. Já que recebi o nome dela, quis que ficasse com ele.
Ela sorriu tristemente, fechou o medalhão e voltou a colocá-lo debaixo da camisola.
— O meu pai diz que o avô Jamie era um gangster, mas eu não acredito.
A avó Rose nunca teria casado com alguém assim. Ela era uma santa. Tinha de se obrigar a respirar, de se impedir de a esmagar com abraços e chorar. A sua bisneta. Rosalie. Esta jovem alegre era uma ligação viva com a sua esposa. Quando ele falou, a sua voz era grossa e profunda.
— Ela devia amar-te muito para te dar isso.
— Eu sei. Ela usou-o durante todos os dias da sua vida até mo ter dado.
É simplesmente estranho, compreende? Parecer-se tanto com ele e tudo o mais.
Gallagher limpou a garganta.
— Sim. Estranho.
Não conseguia afastar os olhos dela. Não via grande coisa de si mesmo ou de Rosalie na rapariga, mas sentiu o laço do parentesco bem fundo no seu coração. Ela era a sua família. E ele nunca lho poderia dizer. Tal como nunca o pudera revelar ao pai ou ao avô dela. Gallagher trocara a sua alma pela vingança e, depois, fora obrigado a retirar-se para as sombras e a entregar o cuidado da sua família a estranhos. Mas, pelo menos, o Conselho dos Escudeiros tinha estado presente. Depois de Gallagher se ter tornado um Predador da Noite, eles enviaram pessoas para garantir que a sua família sobrevivia. O governo tinha tirado tudo a
Rosalie. Confiscara, até, os seus bens legítimos e deixara-a sem nada. Os Escudeiros deram-lhe um emprego e, passados alguns anos, começaram a enviar pretendentes adequados para cortejarem a sua mulher e um deles acabou por casar com ela. Enquanto foi vivo, Harris enviou a Gallagher fotos actualizadas e notícias sobre o seu fi lho e netos. O Conselho dos Escudeiros tinha garantido a segurança e o bem-estar da sua família enquanto ele continuava com o seu trabalho, caçar e matar daemon. Ash avisara-o de como seria difícil. “Enquanto tiveres descendentes directos ainda vivos, assombrar-te-ão. Mas vai-se tornando mais fácil… com o tempo.” Outros Predadores tinham-lhe dito a mesma coisa mas, naquele momento, com a bisneta à sua frente, não conseguia acreditar que assim fosse. Deus, era tão injusto! Ou talvez esta fosse a sua forma de expiar a vida violenta que tinha escolhido. Sempre no exterior. Estando no mundo, mas nunca lhe pertencendo verdadeiramente. Semicerrou os olhos perante a verdade. Cansado e magoado, pediu desculpa às raparigas e saiu do hospital.
Lá fora, a rua estava praticamente vazia. A hora tardia levara todos para casa, em busca de calor; conforto. Duvidava que alguma vez voltasse a sentir qualquer uma dessas coisas. Quando entrou na garagem particular que ficava do lado oposto da rua, em frente do Santuário, Elizar Peltier saiu pela porta dos fundos e parou. O cabelo louro, encaracolado e comprido do homem estava puxado para trás, para longe do rosto. Usava um par de calças de sarja e uma larga camisola preta.
— Jamie Gallagher — disse ele, lentamente. — Diabos me levem! —
Voltou-se e gritou através da porta aberta. — Kyle, vai dizer à Mamã que prepare um prato de carne de conserva e couve. Temos aqui um Predador da Noite a precisar de comida.
Gallagher acenou em agradecimento.
— Olá, Zar, já lá vai algum tempo.
— Acho que passaram uns trinta anos, ou assim, desde a última vez que tivemos o prazer da tua companhia.
O tempo era realmente fugaz para um imortal.
— Contudo, ainda te lembras da minha comida favorita.
Zar encolheu os ombros.
— Nunca me esqueço de um amigo.
O mesmo se passava com Gallagher. Eram muito poucos e só os encontrava de tempos a tempos. Zar conduziu-o ao edifício ao lado do bar Santuário.
Construída no virar do século a residência Peltier era o lar da família Katagaria e do seu grupo ecléctico de refugiados. A casa estava ligada ao bar através de uma porta, no andar térreo, que se encontrava sempre guardada por um dos onze    filhos Peltier. Eram lendários no mundo dos Predadores, porque recebiam todos como amigos: Predadores do Homem, Predadores de Sonhos, Predadores da Noite ou outros. Não interessava. Desde que se mantivessem as boas maneiras e as armas escondidas, deixavam que entrassem e saíssem em paz. Os que violavam a única regra da casa, “Não derramar sangue”, depressa eram expulsos, feitos em bocadinhos. A elegante mansão vitoriana estava agora sossegada, com excepção dos Uivadores que tocavam no palco ao lado do bar. Estava mobilada com antiguidades do virar do século, que já se encontravam naquela casa desde que eram novas. O clã dos ursos não gostava de mudanças. Gallagher estava contente por isso.
Era uma sensação estranhamente semelhante à de regressar a casa.
— Quanto tempo vais fi car? — perguntou Zar enquanto o encaminhava ao longo das escadas de mogno trabalhado à mão.
— Até ao Ano Novo.
Zar acenou.
— A Mamã vai fi car contente por ouvir isso.
Indicou a Gallagher uma porta no fundo do corredor. Gallagher entrou e descobriu um quarto quente e acolhedor. As janelas tinham portadas compactas e cortinas pesadas que impediam que a luz do sol entrasse.
— Tens aqui um cabo de modem para o teu portátil, caso o tenhas trazido.
O canto da boca de Gallagher ergueu-se.
— Todos os confortos de um lar.
— Tentamos. Lembro-me bem dos tempos em que tínhamos de fugir e de nos esconder, sem nunca gozar de qualquer conforto. Gasta alguns minutos a instalar-te e junta-te a nós quando estiveres pronto. Gallagher viu Zar sair, enquanto era atravessado por sentimentos e memórias. Agradecia a cortesia dos ursos, mas trocaria todo o seu dinheiro e a imortalidade por uma única noite passada com a sua mulher e o seu fi lho. Um único Natal com eles, vendo o rosto de Rosalie iluminar-se ao abrir um presente. A dor da sua perda atormentava-o. Não queria sentir dor, nem desejar coisas que já não podia alcançar. Sentou-se na cama e olhou fixamente para a parede. Viu o rosto da sua bisneta e perguntou-se se ela iria a casa no Natal, para estar com a família.
Quanto a isso, perguntou-se se não deveria, também ele, ir para casa. Pelo menos Chicago era-lhe familiar. Cansado e magoado, deitou-se na cama para descansar por um segundo. Desejava apenas refugiar-se, por um instante, nas memórias do tempo em que era humano. Quando Gallagher acordou, descobriu que tinham passado três dias, enquanto dormia. Não se recordava de nada em relação aos seus sonhos.
— Porque me deixou dormir durante tanto tempo? — perguntou à Mamã Peltier quando, deixando o quarto, a encontrou na sala de estar do andar térreo. Na sua forma humana, era uma mulher elegante, alta e loura, que usava, normalmente, um fato de bom corte. Embora não aparentasse ter mais de quarenta anos, a verdade é que estava perto dos oitocentos.
— O Acheron disse que precisavas de descansar e eu concordei.
— Mas três dias?
Ela encolheu os ombros.
— Sentes-te melhor?
Estranhamente, sentia. Pelo menos fisicamente.Passava pouco do anoitecer e era véspera de Natal. O clã dos ursos enchia, lentamente, o andar térreo e reunia-se nas duas salas de estar principais, onde se encontravam dois pinheiros de três metros e meio. Gallagher afastou-se, observando todos os Katagaria e Arcadianos, que faziam da residência Peltier a sua casa, reunirem-se para a celebração que se aproximava. As pequenas crias de urso trepavam por cima dos presentes e tentavam comer e subir pelas árvores, enquanto os seus pais e mães, em forma humana para que Gallagher se sentisse mais em casa, as puxavam para trás. Justin Portakalian desceu, na sua forma de pantera, e pegou numa das crias mais pequenas pelo cachaço, fazendo-a depois rebolar alegremente pelo chão.
Era a reunião de Natal mais bizarra que Gallagher alguma vez tinha visto nos seus cento e tal anos de vida. Sentia-se ainda mais desajustado do que se tinha sentido três dias antes, ao chegar. Enquanto membros dos Uivadores chegavam para se juntar à festa, Gallagher decidiu que precisava de apanhar ar e de gozar de um momento de silêncio para organizar as ideias. Saiu para a noite escura e fria e começou a andar, sem rumo, pelo Bairro Francês. Sem que se apercebesse, chegou à porta da Catedral de St. Louis. Já passara muito tempo desde que entrara numa igreja pela última vez. Apenas algumas pessoas se dirigiam para o seu interior. A maior parte dos paroquianos esperaria, sem dúvida, pela Missa do Galo. Pensou em partirmas, em vez disso, deu por si a dirigir-se para o interior, com os outros. O foyer estava escuro, mas os olhos do Predador da Noite viam claramente o interior e ele avançou na direcção da pequena bacia de água benta na paredeà sua esquerda, mesmo ao lado da loja da igreja. Benzeu-se e, depois, abriu as escuras portas de madeira que davam acesso à catedral. A belezados vitrais e do santuário transportaram-no de imediato para os dias da sua juventude.
Gallagher ajoelhou-se, depois sentou-se na última fi la. Ali, podia sentir a sua Rosalie. Devota, nunca perdera um Dia de Preceito ou Dias Santos. Acompanhara-a sempre, respeitosamente, embora se queixasse e resmungasse. Sempre paciente, ela sentava-se ao seu lado, dando-lhe palmadinhas no braço e sorrindo para si mesma por o ter levado a fazer o impossível.
— Sinto saudades tuas, Rose — sussurrou, o peito apertado com a dor da sua perda.
Queria ficar ali, onde sentia a sua presença, mas não podia. Nenhum Predador da Noite conseguia fi car muito tempo numa igreja antiga, sem que os fantasmas do passado surgissem para o possuir. E ele estava, naquele momento, demasiado fraco para lutar contra eles. Levantando-se, regressou em silêncio à bacia da água benta e, depois, à rua.
Estava frio no exterior, mas nem de perto tão frio como se sentia por dentro. Gallagher começou a descer Chartres Street. Não sabia para onde ir. Não lhe apetecia regressar ao Santuário e não havia real necessidade de sair para caçar na Véspera de Natal. Como a maior parte dos humanos se encontrava em casa com as suas famílias, os daemon tendiam a fi car também em casa.
— Olá!
Gallagher parou ao ouvir a familiar voz cantada. Voltando-se descobriu Simi atrás de si.
— Olá — disse ele, quase esperando ver Ash com ela. Mas, aparentemente, ela estava sozinha.
Simi saltou na sua direcção.
— Que ‘tás a fazer aqui fora, sozinho? — perguntou ela. — Esqueceste-te do caminho para o Santuário?
— Não. Queria fi car sozinho durante um bocado. Ela inclinou a cabeça e franziu o sobrolho.
— Porquê? Os ursos foram maus contigo? A Mamã fi ca um pouco rabugenta quando eu brinco com as crias. Pensa que vou comer uma delas, mas blah! São demasiado peludas. Agora, se ela me esfolasse uma, aí poderia ficar interessada.
Ele riu contra a sua vontade.
— Estás a brincar?
— Oh, não! Nunca brinco em relação a comida peluda. É nojenta. — Ela ergueu os olhos, fi tando-o. — Se eles não foram maus para ti, então porque saíste?
— Não sei. Acho que não me sentia bem ali.
— Porquê?
Ele encolheu os ombros.
— O que é que estás a fazer aqui fora?
— Nada de especial. O Akri saiu com aquele demónio de cabelo vermelho, por isso disse que eu podia ir brincar, desde que não comesse nada que não tivesse sido cozinhado por um humano. Mas todos os meus locais favoritos estão fechados, por isso pensei em ir ter com os ursos e ver se o José, já que é humano, me cozinhava qualquer coisa boa que não fi zesse com que o Akri se zangasse comigo se eu a comesse.
— O Akri é o Ash?
— Sim.
— E o demónio de cabelo vermelho?
— Ártemis, a deusa cadela. Tu conhece-la. Foi ela que te roubou a alma.
— Ela não a roubou.
Simi soprou-lhe uma framboesa.
— Claro que roubou. Ela rouba tudo.
Ergueu-se em bicos de pés e olhou-o directamente nos olhos.
— Hei — disse, pegando-lhe no queixo com a mão, para poder virar a cabeça dele de um lado para o outro enquanto o examinava. — Estás magoado aí dentro. Isso deixaria o Akri muito triste. Ele não gosta que os seus Predadores da Noite se magoem e a Simi não gosta quando o Akri está triste. Porque estás magoado?
— Tenho saudades da minha família.
Soltando-o, ela acenou compreensivamente.
— Também tenho saudades da minha. A minha mamã era uma pessoa boa. “Simi”, dizia ela, “eu amo-te”. O Akri também me ama. Ela baixou a cabeça para que ele pudesse ver os seus chifres, cobertos pelo que parecia serem gorros muito pequenos.
— Vês, o Akri até me deu estes abafadores de chifres para que os meus chifres não arrefeçam. Também queres uns abafadores de chifres?
Esta era, decerto, a conversa mais estranha da sua vida. Não sabia porque continuava ali, a falar com ela. Talvez fossem os seus modos infantis.
Havia nela algo de muito encantador.
— Não tenho chifres.
— Queres uns? — perguntou ela esperançosa. — Podia dar-te uns todos coloridos. O Akri tem uns pretos, mas não deixa que as outras pessoas os vejam.
— O Ash tem chifres?
— Oh, céus, tem. São muito bonitos. Não tão bonitos como os meus, mas ainda assim muito simpáticos. A Simi diria que gostava que os pudesses ver um dia mas, se isso alguma vez acontecesse, serias morto e acho que a Simi teria saudades tuas. Também pareces muito simpático.
Gallagher franziu o sobrolho enquanto ela vasculhava a sua bolsa de contas, demasiado grande. Passados alguns segundos, retirou do seu interior uma pega de cozinha em forma de peixe. Entregou-lha.
— É de boa qualidade. Da QVC. Não há melhor. Vês a QVC?
— Não.
— Bem, devias. O Akri diz que vejo demasiado, mas nunca se queixa quando compro as coisas que eles anunciam. Eles gostam muito de mim.
Põem-me na televisão e chamam-me Miss Simi. Gosto disso. Ele devolveu-lhe o peixe.
— Oh, não! É para ti. Os presentes fazem as pessoas felizes. A Simi quer que sejas feliz.
Oh, sim! Este era, sem dúvida, o momento mais estranho da sua vida. Tanto mortal como imortal.
— Obrigado, Simi.
Ela afastou as palavras dele com um aceno.
— Não precisas de me agradecer. Vês, é isso que fazem as famílias. Tomam conta uns dos outros. Sentiu o estômago apertar-se ao ouvir as palavras dela.
— Já não tenho família. Tive de abdicar deles.
Ela olhou para ele com curiosidade.
— Claro que tens uma família. Todos têm família. Eu sou a tua família.
O Akri é a tua família. Até aquela deusa velha e malcheirosa é a tua família. É aquela tia horrorosa que aparece sempre, mas de quem ninguém gosta e, por isso, gozam com ela quando não está.
Ele voltou a rir.
— Ela sabe que tu dizes essas coisas sobre ela?
— Claro. Digo-lhas na cara muitas vezes. Foi por isso que o Akri me disse para ir brincar enquanto estava com ela. Não gosta quando nós lutamos.
— Tomou a mão dele na sua. — Ouve, eu conto-te o que o Akri me disse uma vez. Temos três tipos de família. Aqueles de quem nascemos, aqueles que nascem de nós e aqueles que deixamos entrar nos nossos corações.
Eu deixei-te entrar no meu coração, por isso a Simi é a tua família e ela não abdicará de ti. Se agora estás triste, acho que é porque a tua família ainda está, também, no teu coração e estão a ocupar tanto espaço que não cabe lá mais ninguém.
— Não posso abdicar deles.
— E não deves fazê-lo. Nunca. Ninguém deve esquecer aqueles que ama, nunca. Mas é como com a QVC: sempre que eu encho o meu quarto com coisas a mais, o Akri constrói-me outro quarto. De alguma forma há sempre espaço para mais. O teu coração pode sempre expandir-se para acolher tantas pessoas quantas seja necessário. As pessoas que lá vivem, essas não se vão embora. Só tens de arranjar espaço para mais uma pessoa, e depois outra, e outra, e outra.
De braço dado, Simi conduzia-o pela rua abaixo.
— Não queres que a Simi seja a tua família?
Pensou nas palavras dela e na sua estranha analogia. Ela inclinou-se
para a frente e sussurrou.
— Esta é a parte em que dizes: “Sim, Simi, gostava de ser a tua família”. Porque se assim não for, vou ter de reclamar a pega de volta e assar-te nas brasas. O Akri ainda está chateado por causa do último Predador da Noite que assei nas brasas e isso já foi… oh, há uns mil anos ou assim. Ele é parte elefante quando se trata de lembrar das coisas. Por isso, diz-me: queres que a Simi seja a tua família?
Ele sorriu contra a sua vontade.
— Sim, Simi, gostava de ser a tua família.
Ela resplandeceu.
— Ainda bem. És um Predador da Noite muito esperto. Antes que Gallagher disso se apercebesse, Simi guiara-o de volta ao Santuário. Abriu a porta e afastou-se, esperando que ele entrasse. O ruído anterior não era nada, comparado com o que se ouvia agora. Havia quatro falcões alinhados sobre um varão de cortinado, a dançar ao som de animadas músicas de Natal. Os Uivadores (todos em forma humana), cantavam enquanto Dev Peltier tocava piano. Um tigre branco estava deitado de costas, no sofá, enquanto Marvin, o macaco saltava, para cima e para baixo, na sua barriga. Um grande urso preto, que assumiu ser Aimee Peltier, estava a dar sandes de manteiga de amendoim a duas crias bebés. Uma humana ruiva, com uma cicatriz na cara, aproximou-se deles e prendeu Simi num abraço.
— Olá, demoniozinho, onde está o patrão?
Simi encolheu os ombros.
— Foi cuidar da Senhora Dona Rainha Chata. Tu como estás, Tabitha?
A tua irmã e o Kyrian não vêm?
— Não, virão amanhã. A Amanda teve uma crise de enjoos matinais quando estavam para sair mas o Talon disse que viria, assim que pudesse. As duas afastaram-se para o meio da multidão. Gallagher recuou, observando a festa.
Estavam ali Arcadianos, Katagaria, Predadores da Noite, demónios e sabe-se lá mais o quê. A razão dizia que eles não deviam dar-se bem, contudo estavam juntos naquela noite. Ligados por algo mais do que o sangue.
Estavam ligados pelo coração. Colt aproximou-se dele. Um Sentinela Arcadiano, tecnicamente, o seu trabalho era caçar e matar Katagaria. Mas, anos antes, os Peltier tinham salvo e protegido a mãe de Colt e, depois da morte desta, tinham-no criado.
Ele era tão leal ao clã dos ursos como qualquer um dos seus fi lhos naturais. Sorrindo, retirou uma pega em forma de ananás do bolso das calças.
— Gallagher, deves estar muito bem cotado. Tiveste direito a um dos peixes bons. Eu só mereci uma porcaria de um ananás.
— O quê? Todas as pessoas que ela conhece recebem uma?
— Não. Só a família.
Gallagher olhou à sua volta e viu algo em que não tinha reparado antes.
Todos os que ali estavam tinham uma pega. “

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